Analistas apontam custo de vida, denúncias de corrupção e rejeição a políticas do governo como fatores do avanço democrata no Congresso
A perda da maioria republicana na Câmara e no Senado dos Estados Unidos reflete a insatisfação dos eleitores com o custo de vida e o desgaste do governo Donald Trump, avaliam especialistas. A guerra contra o Irã, as denúncias de conflitos de interesse e as políticas de imigração e inteligência artificial também aparecem entre os fatores associados ao resultado das eleições de meio de mandato.
Os democratas avançaram inclusive em estados tradicionalmente favoráveis aos republicanos, como Texas, Carolina do Sul, Kansas, Ohio e Iowa. O resultado impõe dificuldades ao presidente para os dois últimos anos do mandato e amplia a capacidade de fiscalização da oposição no Congresso.
Uma pesquisa de boca de urna da NBC News apontou que 65% dos entrevistados consideravam que as políticas de Trump haviam piorado a economia. Outros 62% responsabilizavam o presidente pelos preços elevados.
Para a professora de relações internacionais Camila Vidal, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), parte da frustração está relacionada às expectativas de melhora das condições materiais de vida.
“As pessoas tinham esperança de que Trump adotasse políticas mais voltadas para dentro dos EUA, voltadas para questões materiais da população que está cada vez mais estagnada financeiramente”, afirmou.
O aumento dos preços também foi destacado pelo professor de história James N. Green, da Universidade Brown, nos Estados Unidos. Na avaliação dele, as tarifas sobre importações e os efeitos econômicos da guerra contribuíram para o descontentamento.
“Eu que sou da classe média, e vivo bem, fiquei surpreendido como aumentaram os preços. As pessoas estão culpando o Trump por causa da política de tarifa e por causa da guerra no Irã”, disse.
A atuação militar contra o Irã encontrou resistência entre os entrevistados na pesquisa de boca de urna: 63% disseram que os Estados Unidos tomaram a decisão errada ao entrar no conflito.
O levantamento também identificou rejeição à política migratória. Para 57%, as medidas do governo nessa área foram longe demais.
As preocupações com inteligência artificial tiveram espaço na decisão eleitoral. Segundo a pesquisa, 57% acreditavam que a tecnologia faria mais mal do que bem à sociedade, enquanto 76% se declararam contrários à construção de centros de processamento de dados em suas comunidades.
As denúncias envolvendo interesses privados da família Trump também contribuíram para o desgaste, na avaliação de Green. Para o professor, suspeitas de uso da influência política para favorecer negócios passaram a incomodar inclusive pessoas que anteriormente apoiavam o presidente.
O professor de direito internacional Paulo Borba Casella, da Universidade de São Paulo (USP), atribui a derrota a um conjunto de decisões políticas e econômicas.
“É essa combinação de desmandos políticos e de má gestão na economia que pode contribuir para explicar a derrota. E também o desgaste da imagem do presidente Trump e da sua administração com todos os erros que tem cometido”.
Casella avalia ainda que o resultado pode ter repercussões fora dos Estados Unidos, ao representar um sinal de resistência a governos com políticas hostis a minorias e a direitos fundamentais.
“Esse resultado sinaliza um arrefecimento dessa onda de regimes à direita que tem aparecido, como ocorreu em vários países da América Latina. Além do contraponto feito com o resultado da eleição no Brasil, a eleição nos EUA pode significar uma mudança nessa maré de direita autoritária, conservadora e reacionária”, afirmou.