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Doentes terminais precisam de cuidado, não morte assistida, diz diretor de ONG britânica

FolhaPress 06/11/2024 15:56

LONDRES, INGLATERRA (FOLHAPRESS) - "As pessoas buscam a morte assistida porque se sentem desamparadas", defende Alistair Thompson, diretor da ONG Care Not Killing (cuidado, não morte, em inglês), organização britânica que faz oposição à descriminalização do suicídio assistido e da eutanásia.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

A ONG é uma das representantes de um movimento de descontentes e temerosos com o avanço da legalização da morte assistida na Europa, e que enxergam problemas e possíveis desigualdades na possibilidade de escolher morrer.

"Permitir o suicídio assistido pode levar pessoas a escolherem a morte por terem medo de virar um fardo para familiares", afirma Thompson. O grupo é composto por entidades religiosas, médicas e de ativistas pelos direitos das pessoas com deficiência.

No Brasil, o debate sobre morte assistida voltou à tona com a morte do escritor Antonio Cicero que, frente um diagnóstico de Alzheimer, decidiu pelo suicídio assistido na Suíça, onde a prática é legal.

Hoje, no Reino Unido, é proibido ajudar uma pessoa a cometer suicídio, e a eutanásia também é ilegal. Na Inglaterra, a punição pode chegar à prisão perpétua. Isso pode mudar ainda em 2024.

No dia 29 de novembro, o Parlamento britânico deve começar a discutir uma mudança na lei para ingleses e galeses. A Escócia também analisa um projeto separado.

A proposição deve pedir a legalização da eutanásia e do suicídio assistido para pacientes terminais, com expectativa de vida de seis meses.

SESC PICASSO

A Care Not Killing, que surgiu em 2003 durante a análise de projeto similar que terminou derrotado, tem se mobilizado contra a nova proposta.

Thompson diz que o estabelecimento de um prognóstico de vida é incerto. "Há pessoas que recebem seis meses para viver e terminam vivendo longos anos", afirma ele.

A organização argumenta que o estabelecimento de uma permissão para diagnósticos terminais também poderia ser enxergado apenas como um "primeiro passo". "Podemos pegar, por exemplo, o caso da Holanda, onde os limites já foram ampliados e incluem atualmente até crianças", afirma o diretor.

A lei holandesa permite o suicídio assistido para maiores de 12 anos, desde que sejam cumpridos alguns critérios como demonstração de "sofrimento insuportável". Até os 16 anos, existe a necessidade de consentimento dos pais.

Thompson menciona também dados do estado de Oregon, nos Estados Unidos, onde o suicídio assistido é legal para pacientes terminais desde 1997. "Nós vemos uma tendência de aumento das mortes assistidas onde há legalização", afirma.

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Números divulgados pelo Death With Dignity Act (ato da morte com dignidade, em inglês) do estado americano mostram que, em 2023, 560 pessoas receberam prescrições de barbitúricos e 367 haviam ingerido os medicamentos —uma alta em relação a 2022, com 304 mortes. Desde que a lei entrou em vigor, Oregon contabiliza 2.847 suicídios assistidos.

Ainda segundo o relatório, 17 pessoas que receberam as prescrições em 2023 e decidiram não proceder com o suicídio assistido viveram além do prognóstico de seis meses originalmente estabelecido.

Organizações como a Care Not Killing afirmam que investimentos em melhoria de cuidados paliativos poderiam diminuir a demanda por casos de suicídio assistido. Ele defende, no caso do Reino Unido, que haja maior investimento.

Thompson menciona o caso de uma veterana do exército canadense e atleta paralímpica que acusa o governo de seu país de oferecê-la a possibilidade de morte assistida quando ela solicitou uma rampa para sua casa. O caso de Christine Gauthier, de 2022, ganhou repercussão internacional.

"Esse caso é aterrorizante", diz. "Não é porque é mais difícil ou mais caro providenciar o cuidado que nós deveríamos estar dizendo às pessoas para escolherem a morte."

Apesar da acusação, o departamento que lida com veteranos do exército afirmou não ter provas de que a morte assistida tenha sido oferecida a Gauthier. O caso está em investigação pelo governo canadense.

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Defensores da descriminalização de morte assistida afirmam que a possibilidade de escolher a hora e o modo de morrer traz dignidade e conforto para doentes terminais e pessoas em sofrimento extremo e sem perspectiva de melhora.

No Reino Unido, a ONG Dignity in Dying também afirma que a proibição da prática no país não faz com que doentes terminais mudem de ideia, mas busquem o suicídio assistido no exterior.

A descriminalização também é bem vista na opinião pública. Em 2023, pesquisa Ipsos apontou que 65% dos britânicos é favorável à mudança da lei. Thompson também questiona pesquisas que mostram que a maioria da população britânica é favorável à mudança na lei. "Quando você olha as perguntas que são feitas, normalmente elas são enviesadas", argumenta.

O debate da nova lei em Westminster deve gerar rachas na base do primeiro-ministro Keir Starmer, que enquanto foi chefe do Ministério Público decidiu não processar um médico preso por eutanásia em 2009, e já demonstrou simpatia pessoal pela mudança na lei.

O líder trabalhista, porém, prometeu que parlamentares poderão ter voto livre. Membros do próprio governo, como o secretário de Saúde, Wes Streeting, devem votar contra a proposta.

Thompson diz que a Care Not Killing está focada em atrair parlamentares para o voto contrário. "Estamos neste momento mobilizando eleitores para que atuem nos seus distritos pressionando os parlamentares."

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