A disputa pela atenção da sociedade entre conteúdos jornalísticos de qualidade e postagens desinformativas tem sido um dos maiores desafios da categoria jornalística nos últimos anos. De um lado, há postagens que imitam notícias ou se apresentam como denúncias de irregularidades, mas muitas vezes com informações falsas ou mal apuradas. Do outro lado, encontram-se as reportagens e matérias produzidas por jornalistas profissionais, com apuração rigorosa e checagem de fatos. Este é o cenário do enfrentamento, especialmente em datas como o Dia dos Jornalistas, comemorado em 7 de abril.
De acordo com especialistas, essa "batalha" vai além da disputa por audiência; ela envolve a proteção do direito à informação e a manutenção da democracia. Embora o contexto seja complexo, pesquisadores apontam diversas estratégias para proteger a sociedade contra a desinformação.
A atração por conteúdos sensacionalistas e desinformativos pode ser explicada pela democratização do acesso à informação após a revolução digital, no final do século 20. Segundo a professora Silvia Dal Ben, doutoranda da Universidade do Texas, em Austin (EUA), a internet possibilitou que mais pessoas tivessem acesso tanto a conteúdo quanto à produção de conteúdo. Antes da digitalização, o jornalismo estava restrito a um público mais elitizado, mas, com as novas tecnologias, qualquer um pode produzir e disseminar notícias, muitas vezes sem compromisso com a veracidade.
Ela explica que, embora a democratização tenha dado voz a novos públicos, também abriu espaço para a disseminação de informações manipuladas. “É como se a gente vivesse hoje numa Torre de Babel. As pessoas se comunicam, têm muita informação, mas parece que elas não se entendem”, afirma Silvia.
Silvia Dal Ben argumenta que a ideia de que a informação deve ser curta, simples e direta para ser mais eficaz foi um "tiro no pé" para o jornalismo. Ela critica a tendência de produzir "notícias" rasas, pouco apuradas e com o único objetivo de atrair audiência. Para ela, é essencial que jornalistas voltem a se focar na qualidade da apuração e checagem. “A base do jornalismo é informação checada. Com boa apuração, informação checada e de qualidade”, enfatiza.
A pesquisadora defende que, para vencer a batalha contra as fake news, o jornalismo precisa se concentrar em oferecer conteúdo relevante e bem apurado, com o suporte de recursos adequados para os profissionais. “Mais apuração” é uma das estratégias fundamentais para combater a desinformação de forma eficaz.
No campo das estratégias, a professora Fabiana Moraes, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), destaca que o jornalismo profissional já tem utilizado estéticas similares às das fake news, mas com conteúdos de responsabilidade. Segundo Fabiana, usar uma estética próxima à das postagens desinformativas pode ser uma tática útil, desde que os conteúdos sejam profundamente apurados e bem escritos.
Ela observa que as fake news têm grande poder de atração nas redes sociais devido ao seu apelo sensacionalista e à baixa qualidade informativa. No entanto, ela acredita que, ao oferecer conteúdo de qualidade, o jornalismo pode recuperar a atenção das audiências e, assim, enfraquecer a força das notícias falsas.
Outra estratégia apontada por Silvia Dal Ben é a mudança na forma de distribuição do conteúdo. Segundo ela, jornalistas e meios de comunicação precisam usar as mesmas ferramentas que influenciadores digitais e personalidades de redes sociais para alcançar um público maior. Isso inclui distribuir conteúdo em diferentes formatos, como vídeos curtos, posts interativos e textos mais dinâmicos.
A professora Thaïs de Mendonça Jorge, da Universidade de Brasília (UnB), também enfatiza a importância de aprimorar as chamadas de atenção. Ela observa que, no Brasil, há uma queda no interesse pela leitura, o que torna necessário encontrar formas mais envolventes de apresentar as notícias e torná-las relevantes para a vida do público. Thaïs é organizadora do livro Desinformação - O mal do século, que analisa a ameaça da desinformação à democracia.
A alfabetização midiática também surge como um aspecto crucial na luta contra a desinformação. Silvia Dal Ben defende a necessidade de educar os públicos para que saibam diferenciar conteúdos de qualidade de informações falsas e manipuladas. Ela aponta que, além da educação, é essencial adotar novas formas de distribuição de conteúdo, uma vez que há um fenômeno global de “evitação de notícias”. Muitas pessoas evitam se informar sobre questões importantes, o que contribui para o aumento da propagação das fake news.
O pesquisador Josenildo Guerra, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), também reforça a necessidade de mais pesquisas para desenvolver produtos jornalísticos que combinem qualidade informativa com uma narrativa acessível e envolvente. “É muito desafiador, porque as fake news operam com informações truncadas e de certo apelo, tornando-se objetos de consumo fácil”, afirma Guerra.
Samira Castro, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, afirma que o jornalismo profissional tem uma vantagem significativa sobre as fake news: o compromisso com a verdade, a apuração séria e a responsabilidade pública. Ela argumenta que, ao traduzir temas complexos de forma acessível e rigorosa, o jornalismo conquista a confiança do público.
“A credibilidade, construída com ética e consistência, é o nosso maior trunfo nesse duelo”, conclui Samira. Para ela, é a confiança conquistada pelo jornalismo de qualidade que pode superar o ruído das mentiras e garantir que a sociedade tenha acesso a informações precisas e confiáveis.
O Dia dos Jornalistas serve como um lembrete da importância da profissão em um mundo cada vez mais saturado de desinformação. Para enfrentar os desafios da era digital, é essencial que os jornalistas se adaptem, inovem e mantenham seus compromissos com a verdade e com o bem-estar da sociedade. Só assim será possível garantir que o jornalismo profissional continue a desempenhar um papel fundamental na proteção da democracia e na promoção de uma informação de qualidade.