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'Deixei meu luto pra lutar': as mães de mortos pela violência que acolhem mães de outros mortos

FolhaPress 30/10/2025 07:38

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Num intervalo de três meses em 2021, a cozinheira e empregada doméstica Regiane Pires, 41, perdeu seu filho caçula, de 18 anos (em fevereiro daquele ano), e um irmão (em maio).

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Ambos foram mortos em operações policiais, o primeiro em Nova Iguaçu, onde ela mora ainda hoje, e o segundo em Jacarezinho, no massacre que até há pouco era o mais letal da história do Rio.

Nesta quarta, dia seguinte à ação policial do governo Cláudio Castro que deixou pelo menos 121 mortos e tem sido classificada por entidades de direitos humanos como o maior massacre da história do país, Regiane estava numa unidade do Detran vizinha ao IML (Instituto Médico Legal), na região central do Rio, oferecendo apoio a quem está vivendo o horror que ela viveu quatro anos atrás.

A cozinheira é uma das cem mães pesquisadoras da Raave (Rede de Atenção a Pessoas Afetadas pela Violência de Estado), organização que oferece suporte psicossocial e acesso à Justiça às tantas famílias que enfrentam esse problema na capital fluminense.

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Graças a um convênio com o Ministério da Justiça, as cem mães que integram o grupo são bolsistas de extensão na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e atuam em 11 núcleos espalhados pela região metropolitana do Rio junto com uma equipe de mais cerca de 40 pessoas (grupos de apoio clínico, psicossocial e jurídico).

"Deixei meu luto pra lutar", resume Regiane. "Não tivemos apoio de ninguém do Estado quando mataram os nossos, aí montamos esse grupo. Continuo tendo assistência psicológica e jurídica. Agora ajudo e sou ajudada."

Quando conversou com a reportagem, ela já tinha acolhido cinco famílias de mortos na ação de terça-feira. "Umas não tinham nem noção do que ia acontecer lá dentro [do IML], que um defensor público poderia ir junto para reconhecer o corpo. Outra família queria mandar o corpo para o Pará e não sabia se ele ficaria na geladeira até liberarem", disse Regiane, para logo comparar com sua própria experiência.

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"O corpo do meu irmão, por exemplo, estava com muito mau cheiro quando liberaram, porque não colocaram na geladeira. Se no [massacre do] Jacarezinho foram 28 mortos e ainda ficou com mau cheiro porque não tinha geladeira, imagina agora... Tem geladeira pra isso tudo?"

Coordenador da Raave, o advogado Guilherme Pimentel, ex-ouvidor da Defensoria Pública do RJ, relatou que a entidade busca trabalha para colocar de pé uma proposta de política pública baseada nos Pontos de Cultura: os "Pontos de Acolhimento, Justiça e Cuidado", onde aconteceriam cafés da manhã, saraus e rodas terapêuticas com famílias vítimas da violência.

"A realidade só vai ser alterada com práticas de cuidado que fortaleçam a experiência coletiva. Não vai brotar um salvador, só a ampla mobilização das bases pode virar o jogo virar jogo trauma fragiliza tecido social, temos de fortalecer pra dar respostas", disse Pimentel.

Uma das famílias a que Regiane e a Raave ofereceram ajuda no IML foi a de Raquel Rodrigues Rios, cujo filho Rafael, de 19 anos, foi morto na serra da Misericórdia, região de mata entre os complexos da Penha e do Alemão.

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Raquel pedia desesperada a integrantes da Defensoria Pública que davam plantão no local para liberarem o corpo do filho para sepultamento. "Não liberaram porque a quantidade de corpo excede a capacidade de dar suporte. Estão mandando as famílias de volta para casa dizendo que telefonam quando for liberado", afirmou José Aparecido Batista, sogro dela.

Era o terceiro suplício de Raquel em dois dias. O primeiro foi a busca pelo filho de noite na mata, com a ajuda de parentes, auxiliados por lanterna de celular. O segundo, achar o corpo do filho degolado e a cabeça exposta em uma árvore –integrantes da família depois enviaram à reportagem vídeos com a imagem macabra.

"Como é que uma mãe que passou a noite na mata procurando filho e viveu isso tudo vai pra casa esperar telefonema?", disse Batista. Aos 51 anos, morador a vida inteira do Alemão, disse nunca ter presenciado nada parecido como a carnificina da terça-feira.

Uma prima de Raquel que se identificou como Ester e ajudou nas buscas na mata sintetizou: "A gente tropeçava nos corpos. Foi massacre mesmo".

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