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Contra frio de 7ºC, caixa de leite vira isolante térmico em abrigo no RS

FolhaPress 15/05/2024 11:31

PORTO ALEGRE, RS (UOL/FOLHAPRESS) - Pessoas alocadas em abrigo de Porto Alegre dormiram encolhidas embaixo de uma pilha de cobertor, diante dos 7 graus marcados na última noite.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

O frio é uma experiência sensorial. A partir de um estágio, a pele reclama, o nariz escorre e nem meias de lã esquentam os pés. Os gaúchos chamam de "encarangar" a sensação de ficar paralisado pelo frio.

Gambiarra térmica com caixas de leite e cobertores. Abrigados em Porto Alegre precisaram criar mantas feitas a partir de caixas de leite coladas entre paletes e colchões, que também são usados juntos para aumentar o isolamento térmico.

Medidas providenciais. A noite exige estratégia porque o abrigo realça o frio. O pé direito alto do barracão não segura o calor, e os vidros e portas abertos aumentam a circulação de ar - dificultando a propagação do vírus da gripe, mas deixando o ambiente mais frio.

Zumbis do frio. O UOL passou a madrugada no abrigo Centro Vida, em Porto Alegre. Testemunhou a maioria dos 550 abrigados dormindo, mas, uma parte grande deles também vagava enrolada em cobertores lilás. Com as casas inundadas a mais de uma semana, falta paz de espírito para pregar os olhos.

Estrutura contra o frio no abrigo Centro Vida: 550 colchões e paletes; 650 isolantes feitos de caixa de leite e 2.750 cobertores.

DIA A DIA NO ABRIGO

SESC PICASSO

Operado e inconsolável. João Otávio Souza da Silveira, 53, está com as duas mãos enfaixadas. Os ossos foram quebrados a pedradas como punição por reagir a um assalto. Ele foi operado três dias antes de ser expulso de casa pela enchente e, agora, a perda dos móveis e eletrodomésticos dói tanto quanto as mãos, mas a perda da liberdade é maior.

Falta de autonomia e decisões de terceiros. Este é o décimo segundo dia em que ele senta a mesa sem escolher o que vai comer. O café da manhã não é forte como Otávio gosta, e não é possível escolher se o almoço vai ser feijão, arroz e bife, macarrão, ou qualquer outro prato: "Tu come o que te servem", diz. A roupa que veste também não é opção - é um voluntário quem acha, na pilha de doações, e entrega uma calça que caberá em Otávio.

Sagrado silêncio. Otávio abandonou sua rotina e vive um cotidiano repleto de inconvenientes. O abrigo tem privacidade zero, e o silêncio é uma raridade. Sempre tem alguém conversando, ouvindo mensagem de voz com som no talo ou criança correndo.

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"Tu não tem mais controle da vida. Apesar de estar acolhido, eu me sinto indefeso. Mas seria hipócrita se não visse o que fazem por nós", disse João Otávio.

RESGATE NA ENCHENTE

Otávio foi acordado pelo megafone nas primeiras horas da manhã de 4 de maio. Naquele momento, agentes da Defesa Civil suplicavam que os moradores da Vila Asa Branca deixassem suas residências. Ele tentou argumentar que morava numa casa de dois andares e estaria seguro, mas os agentes insistiram para que ele entrasse na viatura e argumentaram que as mãos poderiam infeccionar.

"Tive um momento de lucidez, foi a melhor coisa que eu fiz", avalia Otávio, que acredita que poderia ter morrido se tivesse ficado.

Sem dimensão da tragédia. Ele não tinha noção do tamanho da catástrofe e não entendeu a multidão de encharcados levada para o mesmo abrigo que ele. Começou a compreender a dimensão da enchente ao olhar notícias no celular.

"Pensei: tô vivo! Graças a Deus. Se não tivesse vindo, tava morto", disse João Otávio.

Otávio não contou imediatamente aos dois filhos o que estava passando. Quando souberam da situação, deram bronca no pai e por enfrentar tantas dificuldades sem os procurar. João Otávio também não quis ficar abrigado na casa deles. Para o pai e avô, mudar para casa de um deles tiraria o espaço e conforto de quem mais ama.

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Controle remoto e o "uniforme de descanso". Otávio gostaria de se espichar no sofá e escolher o que assistir, mas agora só tem o celular - por onde surgem notícias e vídeos da enchente que fazem Otávio ter vontade de chorar. Nessas horas, conversa com os filhos. Além disso, ele era apegado a uma calça e casaco que vestia após chegar do trabalho e tomar banho. "Era um trapo. Só que eu me sentia de férias dentro dele". Agora, fazem quase duas semanas que a roupa preferida está embaixo d'água.

Perda afetiva que a água levou. Apesar de achar estranho sofrer por isso, o coração de Otávio está partido porque perdeu um garfo. Ele explica que desde os 4 anos come com o mesmo talher, que fazia parte do faqueiro da mãe e foi escolhido por Otávio ainda na infância: "Era do tamanho da medida certa de comida".

"Eu me alimentei com a comida dela com aquele garfo. Este objeto simbolizava minha ligação com minha mãe e se perdeu", disse João Otávio.

Esta é perda material e emocional de um único desabrigado. Há ao menos 76.580 pessoas em abrigos e com histórias de dor no Rio Grande do Sul.

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