Confraternização marca os 153 anos da Loja Maçônica União e Progresso
Vitória News 09/11/2025 10:42
A Loja Maçônica União e Progresso comemorou ontem seus 153 anos de fundação, com uma confraternização que reuniu membros, esposas e convidados em clima discreto, como convém às instituições que preferem a solidez das paredes antigas ao entusiasmo dos holofotes modernos. O Venerável Mestre Luiz Cláudio Firme Pina conduziu o encontro com o equilíbrio de quem conhece, de longe, o peso simbólico da própria cadeira. Não se tratava apenas de cortar um bolo, erguer brindes ou repetir discursos sobre tradição. Era, antes de tudo, uma pequena reafirmação pública de que o tempo, por vezes, preserva o que realmente importa.
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Fundada em 8 de novembro de 1872, a União e Progresso é reconhecida como a loja maçônica mais antiga em atividade contínua no Espírito Santo, título que carrega sem ostentação desnecessária. No país, figura entre as seis maiores, número que diz menos sobre contabilidade de membros e mais sobre permanência institucional. Federada ao Grande Oriente do Brasil, guarda uma história que atravessa fases políticas, regimes distintos, entusiasmos patrióticos e silêncios discretos. Cada época tentou, à sua maneira, atribuir sentidos diferentes ao que a maçonaria representa. A loja, ao que parece, resistiu a todos eles mantendo seu próprio compasso.A sede, na Cidade Alta de Vitória, faz parte do conjunto urbanístico mais antigo da capital. Quem caminha pelas ladeiras do Centro Histórico e ergue os olhos notará que o prédio da União e Progresso não tenta imitar a grandiloquência de palácios europeus, mas também não se rende ao desgaste previsível das fachadas maltratadas pelo sal e pelo sol. É uma construção imponente, com paredes frontais de quase um metro de espessura, um exagero técnico dos tempos em que se construía para durar mais do que seus próprios proprietários. Há quem diga que ali, pedra por pedra, repousa não apenas uma linguagem arquitetônica, mas uma declaração silenciosa contra a pressa.O imóvel é um dos mais bem conservados da região central e passou incólume por períodos em que o centro de Vitória alternou abandono e ressurgimento em ciclos mais ou menos previsíveis. Se tantos prédios históricos se converteram em ruínas sentimentais ou estacionamento improvisado, a União e Progresso permaneceu firme. É possível que a explicação seja menos mística e mais prática: quando uma comunidade se reconhece em suas próprias paredes, tende a defendê-las do tempo, das goteiras e das modas administrativas.
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Durante a confraternização, o Venerável Mestre lembrou que a longevidade da loja não é obra de coincidências ou acidentes históricos. Resulta, segundo ele, do compromisso de seus integrantes com princípios que soam quase antigos demais para serem mencionados em voz alta: fraternidade, liberdade, igualdade e aperfeiçoamento moral. A maçonaria costuma trabalhar com palavras grandes, mas dentro da loja elas parecem ter peso específico maior do que no vocabulário cotidiano. Não se tratam de slogans, mas de compromissos que se renovam lentamente, reunião após reunião, ritual após ritual. Para quem observa de fora, pode soar exagero. Para quem vive de dentro, é apenas o ritmo normal das coisas.Comemorar 153 anos significa, inevitavelmente, olhar para trás, mas a solenidade do encontro não se perdeu em nostalgia. A história da loja não está preservada em quadros pendurados como santidades intocáveis. Ela está na memória de seus membros, nas iniciativas de ação social que atravessaram décadas, nas contribuições culturais e discretas, na formação de lideranças que passaram pelos salões silenciosos antes de ocuparem cargos públicos, posições acadêmicas ou apenas o respeito anônimo de seus vizinhos. A maçonaria nunca foi feita apenas de símbolos; foi, sobretudo, feita de gente.A confraternização serviu também para estreitar laços. Se há uma característica que diferencia a maçonaria de tantas outras instituições cívicas e filantrópicas, é o valor atribuído à convivência. A presença das esposas e convidados não foi mero protocolo. A vida fraterna, ali, não se encerra na porta do templo. Há uma tentativa constante de lembrar que as relações humanas são a matéria-prima mais frágil e, ao mesmo tempo, mais duradoura. Quando bem cuidadas, sobrevivem ao tempo; quando negligenciadas, desmoronam até mais rápido que fachadas antigas mal pintadas.
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A noite terminou sem anúncios grandiosos. Nenhum plano mirabolante foi proclamado, nenhuma promessa solene de transformação social foi feita. A União e Progresso não precisa disso. O que ela parece oferecer, ao longo de século e meio, é uma lição modesta e insistente: as instituições que atravessam gerações não se sustentam por discursos inflamados, mas por rotinas discretas e continuadas, pela capacidade de transmitir valores sem forçar plateias, pela persistência em cumprir rituais que, vistos de fora, podem parecer simples, mas que, vistos de dentro, são a argamassa que impede o tempo de abrir fendas.No final, a festa parecia menos uma celebração ao passado e mais uma confirmação do presente. A loja continua ali, na Cidade Alta, olhando o movimento da cidade que sempre muda e fingindo que a pressa não é tão inevitável quanto parece. Talvez seja essa a ironia maior: num mundo que reinventa tudo a cada ano, 153 anos podem soar como uma provocação silenciosa. Uma lembrança de que algumas coisas só sobrevivem porque aprenderam a não gritar.
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