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Companhia do Latão encena encontro entre um Brasil ingênuo e a violência real

FolhaPress 12/03/2025 12:31

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um ônibus quebrado no interior de Minas Gerais provoca o encontro entre integrantes de uma banda de rock alternativo com a realidade de um Brasil complexo e contraditório. Com essa ideia do dramaturgo e diretor Sérgio de Carvalho, a Companhia do Latão criou o espetáculo musical "A Banda Épica da Noite das Gerais", em cartaz no Teatro Raul Cortez, no Sesc 14 Bis, até este domingo (16).

Senac 16 de julho — Capa (rail)

O argumento de Carvalho surgiu a partir de uma experiência pessoal. Em uma viagem pelo interior do Ceará, dois pneus do carro em que estava furaram, e a ajuda veio de um caminhoneiro simpático, que carregava uma arma numa capa de violão e se comportava como se estivesse em um faroeste.

"Ele deu risada da nossa ingenuidade por acreditarmos que se tratava de um violão. O que me interessou foi o desajuste cultural, a diferença de compreensões sobre o Brasil", diz o diretor.

No espetáculo, o encontro entre os dois Brasis acontece em 1972, nas proximidades do rio Doce, em um cenário marcado por violências históricas contra os povos originários.

SESC PICASSO

Carvalho apresentou a sinopse ao grupo teatral e, entre as referências, sugeriu pesquisas sobre a política global na época, a mineração e o caso do povo Krenak, transferido compulsoriamente do território tradicional às margens do rio Doce para outros territórios indígenas. A criação do espetáculo foi coletiva.

A banda de rock tem uma ideia do Brasil de sonho e de luta. Quando o ônibus quebra, os músicos são obrigados a encarar as coisas como elas realmente são. Os roqueiros encontram uma caminhoneira, a dona de um bar da região, um militar de baixa patente, o funcionário de uma grande estatal e um fazendeiro e lidam com situações que levam a reflexões sobre o papel da arte diante da violência que estrutura o país.

A região do rio Doce foi escolhida principalmente devido ao que Carvalho chama de guerra constante contra os povos originários.

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"Quando dom João 6º chega ao Brasil, em 1808, uma das primeiras ações foi declarar guerra de extermínio ao que os portugueses chamavam de bárbaro gentio botocudo, nome dado a grupos que habitavam entre o rio Doce e o sul da Bahia", diz. "A intenção de controlar o rio se devia aos interesses econômicos ligados à mineração".

Durante a ditadura militar, outro episódio dessa guerra foi a criação do Reformatório Krenak, que funcionou entre 1969 e 1972, um local de trabalho análogo à escravidão e de violação de direitos indígenas. Havia, ainda, uma guarda rural indígena, treinada para a repressão dos próprios povos originários.

A peça é encenada no momento de desativação do reformatório, que funcionava na região de Resplendor e teve as atividades transferidas para a fazenda Guarani, em Carmésia.

Há referências também à tragédia de Mariana, definida pelo diretor como um símbolo do Brasil atual. "Lama tóxica por 700 quilômetros, 19 cadáveres e não só um grande rio morto, mas um futuro de vida independente que foi cancelado por um ‘progresso’ violento, excludente e reacionário".

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O espetáculo dá continuidade às pesquisas estéticas e políticas da Companhia do Latão, criada em 1997 por Carvalho a partir de estudos sobre a dramaturgia épica e dialética.

A música, presente em todos os trabalhos do grupo, faz parte da narrativa crítica da peça.

"Há muitas camadas sonoras, como o show da banda em tempos históricos diversos, as vozes dos personagens, e outras que surgem como comentário do espetáculo", explica o diretor.

Desde 2010, com "Ópera dos Vivos", a companhia pesquisa a cultura e a política durante a ditadura. Dividida em quatro atos e com quatro horas de duração, a peça comparou a produção cultural brasileira da década passada com a dos anos 1960.

Temas como o CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE (União Nacional dos Estudantes), o cinema novo, o tropicalismo e a programação da TV foram referências para o trabalho.

A BANDA ÉPICA DA NOITE DAS GERAIS

- Quando Até domingo (16). De qui. a sáb., às 20h. Domingo, às 18h.

- Onde Sesc 14 Bis - r. Dr. Plínio Barreto, 285, São Paulo

- Preço R$ 70

- Elenco Be Cruz, Caio Horowicz, Helena Albergaria

- Direção Sérgio de Carvalho

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