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Como 'Ripley', adaptação da Netflix, relê sucesso de Patricia Highsmith em série

FolhaPress 03/04/2024 16:22

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Casinhas pictóricas em rochedos às margens do mediterrâneo são banhadas de uma decadência tipicamente napolitana, feita de paredes centenárias caindo aos pedaços e santas descascadas espalhadas por toda a parte. A beleza avassaladora da Costa Amalfitana, na Itália, é o cenário perfeito para os crimes de Tom Ripley.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

O vilão metamorfo, criado em 1955 pela escritora Patricia Highsmith, falsifica assinaturas, finge ser quem não é e até mata para chegar onde quer, enganando todos a sua volta. Ripley se tornou um ícone atemporal da ficção americana, saindo dos livros para conquistar as telas múltiplas vezes -e, mais do que isso, foi um dois raros personagens LGBT a não ter seu arco premeditado pela homofobia, com condenações à amargura ou morte sem contexto.

"O Talentoso Senhor Ripley", já deu vida a dois filmes, "O Sol por Testemunha", com Alain Delon, e o longa homônimo que eternizou, em 1999, Matt Damon como Tom Ripley e Jude Law como Dickie. Highsmith escreveu também "Strangers On a Train", de 1950, levado às telonas por ninguém menos do que Alfred Hitchcock, com "Pacto Sinistro", e "The Price of Salt", publicado em 1952 sob pseudônimo. O livro foi pioneiro na literatura por narrar um romance entre duas mulheres com um final feliz, e virou o filme "Carol" pelas mãos de Todd Haynes, em 2015, estrelando Cate Blanchett e Rooney Mara como casal.

SESC PICASSO

Agora, Tom Ripley é encarnado por Andrew Scott em uma adaptação da Netflix que, filmada quase toda em branco e preto, confere uma áurea noir à trama que combina com o charme do personagem e da costa italiana. A escolha do ator britânico acontece depois de seu sucesso como padre sensual em "Fleabag", drama cômico de Phoebe Waller-Bridge, e de sua interpretação melancólica em "Todos Nós Desconhecidos", romance gay que, ao lado do indicado ao Oscar "Vidas Passadas", se dedicou a fazer uma reflexão dolorosa sobre as relações amorosas.

O Ripley de Scott é desajeitado no primeiro contato com Dickie, o playboy que vive na Itália às custas do pai. A trama, como no livro de Highsmith, começa quando o empresário o confunde com um amigo de Dickie e se propõe a bancar a sua viagem a Itália, para que ele convença o filho a voltar aos Estados Unidos.

Os passeios de barco, o quadro de Picasso na sala e a falta de noção dos amigos mimados de Dickie parecem despertar desprezo em Ripley, dando até certa comicidade à série Ao mesmo tempo, a riqueza e o prestígio social de Dickie é o que Ripley mais deseja -e está convencido a conquistar, custe o que custar.

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"Eu não acho que ele é vilão ou psicopata, acho que ele não conseguiria ser apenas vilanesco por muito tempo. Não quero diagnosticar nenhum traço seu. Há algo nele que não é possível entender completamente" diz Andrew Scott, por videochamada. O ator se esforçou para evitar repetir atuações anteriores do personagem. "Se você entende quais são os pensamentos [de Tom Ripley], acho que é possível entender seus motivos, e então seus sentimentos."

Mas, se Ripley quer ser ou substituir Dickie, ele é apaixonado por ele na mesma medida. Os sentimentos perturbados do protagonista espelham, de alguma forma, a vida da própria Patricia Highsmith, que experienciou a dura realidade de ser homossexual nas décadas de 1940 e 1950, quando ser lésbica era associado ao crime e a doença.

Ainda que não tenha sido perversa como sua criatura, Highsmith viveu mergulhada em controvérsias. Em seus diários, relatou relacionamentos com múltiplas amantes, geralmente conturbados e por vezes violentos. Se amava mulheres na cama, fora dela costumava estar na companhia de homens, e pessoas próximas relataram seu prazer em gerar desconforto social com comentários maliciosos. No fim da vida, ficou marcada pelo antissemitismo.

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Assim como Tom Ripley, com quem dizia se identificar, Highsmith costumava se relacionar com mulheres ricas e, em seus diários, fantasiava constantemente, misturando realidade e ficção. Depois de uma infância difícil, desenvolveu depressão e alcoolismo na vida adulta, sentia ódio de tudo e todos, preferindo isolar-se com seus gatos e lesmas -bichos pelos quais era obcecada. Viveu a maior parte da vida na Europa, em rejeição ao sonho americano, e chegou a desenhar as paisagens italianas onde Ripley cometeria assassinatos apaixonados.

Sua biografia talvez ajude a explicar os personagens que almejam desesperadamente romper com as amarras sociais, às vezes, como no caso de Ripley, buscando a libertação pela desinibição de seus mais perversos desejos. Tampouco é estranho para pessoas LGBT precisarem fingir algo que não são, como a própria Highsmith fez no começo da carreira.

Se literatura e cinema são artes narrativas, suspenses carregados de emoções dramáticas, ambientados em lugares glamurosos e repletos de tensão sexual parecem ser uma fórmula certa do sucesso em ambos os formatos. E, apesar dos seus atos horríveis, Ripley sofre pelo amor não correspondido e pela rejeição da sociedade.

Contrariando uma história triste, porém, ele escolhe revidar as crueldades que lhe foram impostas de uma forma estranhamente charmosa, pronto para abocanhar o mundo de uma elite que tudo tem sem nada fazer -conquistando, assim, a torcida do público, o seu maior triunfo.

RIPLEY

Quando A partir de 04/04

Disponível na Netflix

Onde EUA

Elenco Andrew Scott, Dakota Fanning e Johnny Flynn

Produção Steven Zaillian

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