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Como fotógrafa usa IA para retratar paixões entre mulheres negras nunca vistas

FolhaPress 23/11/2024 05:45

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Casais de mulheres negras trocam beijos na beira da praia, no alto de uma colina, no altar e na cama, enquanto duas mulheres indígenas namoram numa canoa no meio da floresta. As fotos amareladas, monocromáticas e manchadas nos dizem que esses amores pertencem ao século passado, não muito longe do nascimento da fotografia.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Mas são paixões que nunca existiram, ou que, quando consumadas, não puderam ser registradas. As imagens foram criadas por Mayara Ferrão com inteligência artificial e compõem a sua série de fotografias chamada "Álbuns de Desesquecimentos".

A artista, que trabalha com fotos de arquivo, estava desanimada com a representação de pessoas negras em fotografias dos séculos 19 e 20. "O que mais me incomoda são os olhares vazios, de desumanização e desesperança", diz. "Isso quando as pessoas eram representadas, porque muitas vezes elas nem existiam."

"O mais triste era muitas vezes ver aquele olhar e reconhecer que ele muitas vezes está em mim. Obviamente, meu sofrimento nem se compara às pessoas que foram escravizadas, mas é entender como a gente ainda sofre por resquícios desse sofrimento."

Ela conta que a cidade de Salvador, onde nasceu e vive, estimulou o exercício de fantasiar memórias melhores. A cidade colorida e banhada pelo mar é também repleta de símbolos que remetem a traumas coloniais, impossíveis de passarem despercebidos.

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Exemplo disso é o Pelourinho. O bairro histórico, uma das principais atrações para visitantes, era o lugar onde pessoas escravizadas eram submetidas a castigos públicos até o ano de 1888.

"Salvador tem esse plano de fundo colonial, desde a arquitetura até as estruturas de poder. Você consegue transitar do luxo ao lixo, da mazela à beleza, num simples passeio pelo centro", afirma Ferrão.

Se a capital baiana é conhecidapela festa e pela dança, as pitorescas ladeiras de pedra fazem lembrar também "lágrimas e suor".

"É uma cidade onde descobrimos cemitérios de pessoas originárias, pessoas escravizadas que não tiveram nem o direito de morrer em paz. Ao mesmo tempo, a cidade é inspiradora porque exala ancestralidade", diz Mayara Ferrão.

Guiada pela vontade de encontrar afago em fotografias de seus antepassados, ela começou a alimentar uma ferramenta de inteligência artificial com as referências que queria, como se treinasse a tecnologia, que costuma funcionar por meio do abastecimento de seu banco de dados. No começo, pela falta de exemplos, a ferramenta não era capaz de recriar imagens felizes de pessoas negras no passado, conta a artista, que vem recebendo xingamentos nas redes sociais por pessoas que a acusam de plágio de imagens.

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Mas Ferrão diz que abastece a ferramenta com textos, e que a máquina tem como referências imagens de arquivos públicos. Ela também questiona a proteção de fotos do passado. "Os fotógrafos muitas vezes não pediam autorização alguma para documentar os corpos negros e originários, retratados como bem entendiam."

Depois que Ferrão compartilhou suas obras nas redes sociais, elas começaram a ser cobiçadas pelo mercado de arte. Apesar de a artista ainda não ser representada por uma galeria, alguns dos seus trabalhos já foram vendidos em São Paulo, foram publicados na revista de fotografia Zum, do Instituto Moreira Salles, e outros estarão na exposição "Histórias da Diversidade LGBTQIA+", que o Masp vai inaugurar em dezembro.

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"Estou muito feliz, muito grata, mas ao mesmo tempo é conflituoso pensar que já fiz coisa para caramba e que fui legitimada a partir de um trabalho específico que mudou a minha vida inteira", diz. "Estou consciente que é um jogo de interesses que acontece com trabalhos de interesse coletivo, que as pessoas querem comprar para ter um pedaço do que você está fazendo. O artista anônimo é simplesmente esquecido, especialmente quando não está no eixo Rio-São Paulo, não tem contatos e a narrativa [de seu trabalho] não é de interesse coletivo."

"Álbuns de Desesquecimentos" surgiu como um acalento quando a artista se sentia desapontada com o mercado da arte. Formada em artes visuais pela Universidade Federal da Bahia, aos 31 nos, Ferrão conta que tratava uma depressão quando decidiu recriar o passado imaginando o amor daquelas que viveram antes dela.

Ainda que romântico, o trabalho não deixa de ser uma declaração de repulsa ao aprisionamento físico e emocional que condenou pessoas negras no passado. A sua denúncia, porém, tinha o intuito de ser poética, e não de a "aprisionar no sofrimento, como as denúncias costumam fazer."

Como um álbum de família do futuro, as velhas fotos inventadas dão às mulheres negras o gosto de imaginar suas antepassadas amando livremente. "Resolvi ficcionar para tentar adoçar um pouco uma memória que é muito amarga para as pessoas que foram atravessadas pela escravidão", afirma a artista.

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