Quarta-feira, 16 de Setembro de 2026 | 10h10m
Vitória News — Um jornal de verdade
Variedades

Como foi o festival de Música de Trancoso, o MET, que uniu o erudito ao popular

FolhaPress 12/03/2024 02:05

TRANCOSO, BA (FOLHAPRESS) - No meio da mata da Costa do Descobrimento, no sul da Bahia, um monumental anfiteatro a céu aberto, erguido em aço e concreto, fez ecoar os sons de violinos, trompetes e fagote sobre o habitual coaxar de sapos por cinco noites seguidas até o último sábado (9).

Senac 16 de julho — Capa (rail)

A décima edição do festival Música em Trancoso, conhecido como MET, teve composições do russo Sergei Rachmaninoff e da cantora Luedji Luna, do americano George Gershwin e de Caetano Veloso, de Heitor Villa-Lobos e de Mariana Aydar, de Johann Sebastian Bach e de Luiz Gonzaga.

As combinações improváveis fizeram com que alguns espetáculos terminassem com o público levantando de suas cadeiras para dançar na frente do palco. É uma extravagância para eventos do gênero, tornada possível porque o festival põe o erudito em convívio com o popular.

"Acredito num concerto que precisa se reinventar. Temos esse desafio de tornar acessível a música clássica", diz o maestro e curador Carlos Prazeres, titular há 13 anos da Orquestra Sinfônica da Bahia, a Osba, eleita a melhor orquestra do país no Prêmio Profissionais da Música. "Precisamos convencer o público de que ele terá uma experiência sensorial, para a alma, diferente de tudo que está acostumado."

SESC PICASSO

Carismático e jovial, de brinco e tatuagem, Prazeres tomava o microfone entre os concertos para contar curiosidades sobre as composições e seus autores ou chamar a atenção para as histórias por trás das canções.

Antes de apresentar a ópera "Porgy e Bess", de Gershwin, e os quatro solistas negros que a interpretariam, na última terça-feira (5), Prazeres explicou detalhes da história de amor entre um mendigo e uma prostituta num gueto da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, dos anos 1920.

Quando a soprano Marly Montoni, a contralto Ednéia Oliveira, o tenor Geilson Santos e o barítono Davi Marcondes deixaram o palco sob aplausos e assobios, subiu Luedji Luna para a sua apresentação, toda de branco e sob gritinhos da plateia.

"Não sabia da existência desse festival no sul da Bahia, com esse teatro chiquérrimo", disse a artista. "Eventos assim, fora do eixo, são bons para o território e para o artista."

Além de ampliar o público da música clássica, o MET tem outros dois desafios -tornar-se mais conhecido e, finalmente, ser autossustentável. Idealizado em 2012 pelo bilionário austríaco Reinold Geiger, presidente da marca francesa de cosméticos L’Occitane, o evento teve seus custos majoritariamente bancados por seu criador.

CONTADOR - BONUS

Esta edição foi a primeira em que as contas fecharam independentemente, com patrocínio de R$ 3 milhões do Banco Santander via Lei de Incentivo à Cultura e uma série de apoios de empreendedores locais.

Apaixonado por Trancoso, onde mantém há quase 20 anos uma mansão de veraneio com chalés para dezenas de convidados, ele queria democratizar o acesso à música clássica nas comunidades da região, enquanto se divertia em suas temporadas num dos destinos preferidos dos ricos brasileiros.

"As pessoas daqui ficaram surpresas. Vi gente chorando, emocionada com a música", diz ele, ao se lembrar da primeira edição do MET.

O projeto ganhou corpo quando Geiger decidiu bancar a construção de uma sede para o festival. A construção em formato de concha, com um anfiteatro a céu aberto e outro coberto, foi desenhada pelo arquiteto François Valentiny, responsável por uma das salas de espetáculos do circuito do célebre Festival de Salzburgo, na Áustria.

Anuncio - Raimundo - Bonus

"É um projeto totalmente louco, porque normalmente se faz um teatro em uma cidade grande ou perto de uma cidade grande", ele diz, que investiu cerca de R$ 40 milhões na construção, inaugurada em 2014. "Mas queríamos fazer algo para a comunidade, e o resultado ficou fantástico."

O teatro fica no condomínio Terravista, que reúne casas de centenas de metros quadrados, aeroporto privado e um Club Med, além de um edifício anexo com sete salas acústicas dedicadas a aulas magnas de músicos convidados do MET para jovens talentos dos arredores de Trancoso.

Musicistas virtuosos, como o violonista espanhol Pablo Sàinz-Villegas e o pianista brasileiro Cristian Budu, considerado o melhor do país, participaram desta edição, além de Moreno Veloso e Elba Ramalho. Cerca de 20% dos ingressos foram cedidos gratuitamente para alunos das escolas da rede pública da região. Outros 30 foram vendidos a preços populares, por R$ 35. A entrada tradicional custava R$ 250 por dia.

"Simplesmente transpor para cá o modelo dos grandes festivais do exterior é relegar a música clássica só para as elites. O repertório popular, ao lado do erudito, cria a sensação de pertencimento do público. Precisamos saber adaptar esses padrões à nossa realidade. Isso é antropofagia pura."

Compartilhe esta notícia

Notícias Relacionadas