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Com Tarsila do Amaral, mostra leva acervo do MAM para a avenida Paulista

FolhaPress 26/03/2025 10:37

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Colinas verdes salpicadas por casinhas preenchem uma tela de 1948. O cenário, tão comum no interior brasileiro, foi pintado por Tarsila do Amaral numa época em que a industrialização atingia o auge no Brasil. A paisagem idílica de traços modernos divide a parede com uma enorme fotografia esverdeada dos túneis do metrô paulistano, de Rogério Canella, tirada em 2006.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Estranhamente, as duas obras conversam mais do que contrastam. Além da harmonização de tons e perspectiva, ambos os artistas estavam, cada um em seu tempo, experimentando novos métodos enquanto se debruçavam sobre a transformação da paisagem. Tarsila, bastião do modernismo brasileiro, era contemporânea para a sua época, enquanto Canella refletia sobre o impacto da modernização na sociedade contemporânea.

O limite trêmulo entre a arte moderna e contemporânea é justamente o tema da exposição "Encontros entre o Moderno e o Contemporâneo", do Museu de Arte Moderna, o MAM, onde se encontram as duas obras. O museu está com a sede fechada para reformas desde agosto, e a mostra, composta exclusivamente por itens de seu acervo, acontece na Fiesp, que cedeu o espaço à instituição —assim como fez o MAC no ano passado, quando sediou a 38ª edição do Panorama da Arte Brasileira, mais importante mostra de arte contemporânea do país depois da Bienal de São Paulo.

É um momento inédito que permite a apreciação de um acervo pouco exposto, já que o museu não tem uma sala dedicada a mostrar a sua coleção permanentemente.

SESC PICASSO

A discussão proposta pela exposição, aliás, permeia a própria história do MAM. "É um museu de arte moderna, mas seu acervo é prioritariamente de arte contemporânea", diz Cauê Alves, curador-chefe da instituição. O objetivo, segundo ele, é tensionar o uso de datas para separar a produção artística para o público que frequenta a avenida Paulista, mais amplo do que aquele que vai até o jardim de esculturas no Parque Ibirapuera.

A paisagem de Tarsila, por exemplo, foi uma das 81 obras doadas pelo colecionador Carlo Tamagni em 1967, durante o renascimento do museu que, na época, ainda estava sem sede. Chegaram ao acervo também joias do modernismo internacional do calibre de Tarsila, como quadros de Henry Moore e Yves Klein, expostos agora com ilustrações de Cândido Portinari de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, e desenhos de um dos expoentes do surrealismo brasileiro, Ismael Nery.

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Se a relação entre Tarsila e Canella é mais visual e filosófica do que temporal, outros exemplos não estão tão distantes assim. Emiliano Di Cavalcanti, célebre artista de personagens sinuosos e que participou da Semana de Arte Moderna em 1922, pintou até 1973, quando Hélio Oiticica e Lygia Clark desafiavam a ideia de obra-prima com seus objetos geométricos e espaços interativos.

"A vanguarda é sobre o que era contemporâneo àquela modernidade. Hoje, a arte contemporânea é contemporânea à nossa modernidade. Existe uma continuidade da relação do artista com o seu tempo", diz Gabriela Gotoda, curadora de "Encontros entre o Moderno e o Contemporâneo".

A mostra expõe a última tela de Cavalcanti antes do derrame que o impediu de pintar definitivamente. Uma figura inacabada em pinceladas negras e coxas largas está sentada no que parece ser uma praça, com pescadores ao fundo. Na sua frente, pinturas coloridas do contemporâneo Rubens Gerchman do mesmo período denunciam a repressão da ditadura militar.

"A arte pop é um momento fundamental de quebra da utopia. Enquanto o moderno ainda sonhava com a transformação do mundo, o contemporâneo, aos poucos, vai percebendo que essa possibilidade é remota", diz Alves.

Na mesma parede estão abstracionismos de Luiz Sacilotto, Alfredo Volpi e Samson Flexor, além de colagens surrealistas de Alberto Guignard. Aparece ainda uma instalação de Cildo Meireles: uma mesa grande de madeira sustentada por quatro menores.

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"É uma construção, mas a discussão proposta não é formal. É social, sobre quem sustenta os grandes no sistema capitalista", diz Alves, o curador-chefe. "A ideia da mostra é problematizar essas divisões por tecnologias, estilos e suportes. Se fala muito que a pintura é moderna e a abstração contemporânea. Mas Guignard [nos anos 1940] experimentava a fotografia". E enquanto Meireles se apropriou de objetos para romper com seus conceitos tradicionais, a Geração 80 retornava, no mesmo período, à pintura e à figuração.

A própria divisão espacial da mostra tenta abarcar o debate. No centro do espaço, obras dedicadas a representar a natureza e assinadas por nomes como Mira Schendel, Iberê Camargo e Oswaldo Goeldi estão penduradas em uma parede de hastes metálicas roxas, como se estivéssemos olhando o avesso de uma estrutura.

No entorno desse núcleo central está o resto da exposição, em paredes totalmente brancas. A ideia é brincar com o avesso do cubo branco, como é chamado o espaço neutro que se tornou uma referência de como exibir obras de arte durante o modernismo.

Encontros entre o Moderno e o Contemporâneo

Quando De terça a domingo, das 10h às 20h. Até 08/06

Onde Centro Cultural Fiesp -av. Paulista, 1313, São Paulo

Preço Grátis

Classificação Livre

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