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Claudia Andujar tem 130 fotografias reunidas em mostra no Rio de Janeiro

FolhaPress 23/07/2025 07:29

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Em uma parede, dezenas de fotografias mostram pessoas de diferentes idades, de bebês nos colos de suas mães a pré-adolescentes e pessoas idosas. Um elemento, porém, une essa miscelânea de corpos e rostos. Todos os fotografados seguram placas pretas numeradas.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Parte da série "Marcados", de Claudia Andujar, esses retratos se firmaram ao longo dos anos como uma testemunha da vulnerabilidade social do povo yanomami. Não à toa, a série é um dos destaques da exposição "Claudia Andujar e seu Universo", em cartaz no Museu do Amanhã, no centro do Rio de Janeiro.

O projeto faz parte do "Esquenta COP", iniciativa em que a instituição leva ao público uma série de atividades que antecedem a conferência das Nações Unidas sobre as mudanças climáticas.

A exposição de Andujar, de 94 anos, tem 130 trabalhos que mostram a versatilidade e o domínio técnico de uma das fotógrafas mais importantes do Brasil. Há imagens que retratam as ruas e os arranha-céus de São Paulo, mas também fotografias que mostram a volta forçada de imigrantes para suas terras natais.

Embora esses trabalhos chamem a atenção pelo apuro estético, o que mais se impõe na exposição são as fotografias que retratam o cotidiano do povo yanomami. "Quando fiz essas fotografias, nos anos 1970 e 1980, eu procurei representar essa comunidade a partir de suas malocas", diz Andujar, em entrevista por email. "Nas fotos, podemos ver sua vida em comum, os conjuntos de famílias e a maneira como eles vivem. Através desse conhecimento, pude propor um projeto para entendê-los como um povo."

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Em seu trabalho, ela buscou também entender a cosmologia dessa comunidade. Foi isso o que fez na série "Sonhos Yanomami", em que registrou rituais por meio de sobreposições que conferem uma atmosfera onírica às imagens.

A série "Marcados", no entanto, é possivelmente seu projeto mais célebre com essa comunidade. O trabalho nasceu no começo dos anos 1980, quando a fotógrafa acompanhou uma expedição que levava assistência médica aos indígenas. Como eles não costumam usar nomes próprios, os profissionais de saúde decidiram identificá-los por meio de números.

A origem da série também pode ser explicada pela biografia da fotógrafa. Nascida na Suíça em uma família judia, Andujar precisou fugir da perseguição nazista durante a Segunda Guerra Mundial. À época, os judeus eram marcados com uma estrela de Davi nos campos de concentração antes de serem executados.

"Mas os indígenas nas fotos dela estavam marcados para viver, e não para morrer", diz Paulo Herkenhoff, que assina a curadoria da exposição. "Eles estavam identificados não por uma placa policial, mas por uma placa de política pública voltada à saúde."

Para evidenciar a relevância do trabalho de Andujar, o curador decidiu incluir na mostra obras de artistas como Cildo Meireles, Denilson Baniwa e Sebastião Salgado. A ideia era deixar claro que a preocupação ambiental da fotógrafa influenciou toda uma geração.

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"Claudia se tornou emblemática pelo leque de assuntos que ela aborda. Em suas fotos, ela antecipou, por exemplo, a violência do golpe de 1964 e dos ataques do 8 de janeiro", diz Herkenhoff.

A temática ecológica está presente também em outra exposição realizada no âmbito do "Esquenta COP". Desta vez, a mostra é dedicada às imagens de Lalo de Almeida, fotógrafo da Folha, e Luciano Candisani. Ambos os fotógrafos retratam as paisagens naturais do Pantanal.

A diferença, porém, está no estado em que esse bioma é apresentado ao público. Enquanto as fotos de Lalo mostram a devastação das queimadas, com animais e árvores esturricadas, os trabalhos de Candisani fazem um retrato pujante do Pantanal, com a flora e a fauna em pleno vigor.

"Ao misturar esses dois trabalhos, a gente transporta as pessoas para um mundo maravilhoso e, de repente, elas levam uma rasteira. Olha o que a magia do universo criou naturalmente e olha o que nós estamos fazendo com tudo isso", diz Eder Chiodetto, curador da mostra "Água Pantanal Fogo".

A mostra traz trabalhos célebres de Lalo, como a imagem que mostra um macaco carbonizado no Pantanal. A fotografia rodou o mundo por escancarar a destruição provocada pelas queimadas. Em 2022, o fotojornalista venceu a categoria regional de projeto de longa duração do World Press Photo, a mais prestigiosa premiação de fotojornalismo do mundo.

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Já Candisani é conhecido como um dos profissionais mais importantes do mundo de fotografia subaquática. Seus trabalhos documentam com impressionante nitidez os hábitos de animais como peixes e jacarés.

Para o curador, as imagens dos dois fotógrafos são importantes para sensibilizar o público sobre a preservação ambiental. "A fotografia serve de testemunha ocular. Ela é um dos instrumentos políticos mais importantes que a gente tem."

O Museu do Amanhã, no entanto, não aposta apenas na fotografia para aproximar o público da questão ambiental. Em uma terceira mostra, a instituição reúne esculturas e pinturas de 14 artistas mulheres latino-americanas.

São obras de nomes como Marilyn Boror Bor, Rosana Paulino e Suzana Queiroga. A maior parte dos trabalhos, aliás, dialoga com os fluxos da água.

Marcela Cantuária, por exemplo, apresenta "O Sonho Sul-Americano", uma grande pintura em que ativistas e ambientalistas aparecem conectados por cursos fluviais. "Para muitos artistas, a água é um lugar de memória", diz Ana Carla Soler, que assina a curadoria da mostra ao lado de Carolina Rodrigues e Francela Carrera. "Queremos tratar nessa exposição sobre assuntos ligados à justiça climática e à forma como nós ocupamos os nossos territórios."

O jornalista viajou a convite do Museu do Amanhã

OCUPAÇÃO ESQUENTA COP

- Quando De qui. a ter., das 10h às 18h. Até 4 de novembro

- Onde Museu do Amanh㠖 Praça Mauá, 1, Centro, Rio de Janeiro

- Preço R$ 40. Museudoamanha.org.br

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