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Cidade cercada por fogo teve resgate em rave e 'lockdown' para respirar

FolhaPress 27/09/2024 09:10

ALTINÓPOLIS E PATROCÍNIO PAULISTA, SP (FOLHAPRESS) - Fumaça e labaredas na serra entre Patrocínio Paulista e Altinópolis fizeram voltar à memória de Lázaro Antônio de Oliveira, 58, o desespero ao fugir do fogaréu há um mês. Quando ele recebeu a reportagem em seu rancho na última terça (24), focos de incêndio não muito distantes ainda consumiam a mata em uma das áreas do interior paulista mais afetadas pelas queimadas de agosto.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Oliveira estava sozinho na pequena propriedade onde produz leite quando fagulhas trazidas pelo vento de uma colina em chamas incendiaram o pasto, avançando também ao curral no morro onde ele cria 78 vacas.

"Uma novilha tinha acabado de parir e ela, brava, não deixava eu pegar [o filhote]. Aí eu vi que não dava tempo, para não morrer junto com ele, eu corri. Ele morreu. Na hora que cheguei no curral, estava coberto de fumaça. Sufoquei. Soltei a égua com arreio e tudo e corri. Cheguei lá embaixo com esse carro aqui, saí com a cerca no peito, no meio do fogo, igual motoqueiro fantasma", conta.

O fogo no limite com Patrocínio Paulista era só uma das muitas queimadas que simultaneamente passaram a cercar Altinópolis no final de agosto. A cidade possui o maior número de focos de incêndio registrados em São Paulo, segundo a Defesa Civil do Estado, com base em dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

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Dos 4.242 focos anotados de 23 de agosto e 23 de setembro, 123 estavam em Altinópolis. Em segundo lugar aparece São Carlos, com 93, seguida de Santo Antônio do Aracanguá, com 75. São dados que podem divergir a depender do período da análise e do satélite utilizado, entre outros fatores.

Levantamento da associação de produtores Canaoeste e da empresa GMG Ambiental aponta 252 focos em Altinópolis só em agosto, deixando a cidade atrás de Pitangueiras (354) e de Sertãozinho (296) no ranking das mais incendiadas.

Da janela fechada na casa do técnico contábil Márcio Galerani, 57, não dava para contar nem enxergar sequer uma fogueira. A fumaça transformou a vista em breu. Ele e os 16 mil habitantes do município precisaram repetir o confinamento dos tempos de pandemia para respirar com segurança, dentro de casa. Máscaras também voltaram ao rosto de quem precisou sair para a rua onde a visibilidade ia pouco além dos 200 metros.

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"Muita fuligem, fogo e muito vento, não dava para sair, muitos animais [silvestres] mortos", relata Galerani. "Fiquei com muito medo, a coisa foi feia."

Visitantes desconhecidos dos moradores, porém, são os personagens da história mais contada na cidade sobre a crise.

Centenas de jovens vindos de outros lugares estavam em uma festa de música eletrônica em uma chácara distante alguns quilômetros do centro. Na tarde de sábado (24), o fogo que parecia distante na véspera avançou rapidamente para o gramado onde carros estavam estacionados.

"Eles viram que tinha um fogo vindo de Serrana [cidade vizinha], mas continuaram na festa, e quando perceberam o fogo já estava em cima deles, então foi uma correria", relata o coordenador da Defesa Civil local e secretário municipal de Meio Ambiente e Agricultura, Renato Theodoro.

O resgate mobilizou a cidade. Funcionários da prefeitura e voluntários usaram veículos oficiais e carros particulares para buscar as vítimas.

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Cerca de 500 pessoas salvas foram abrigadas no ginásio de esportes e 100 precisaram de atendimento médico por terem inalado fumaça "Colocamos ambulância, ônibus, tudo o que tinha na frota, para buscar eles", diz Theodoro. "Graças a Deus nenhum deles estava em estado grave."

Além da vegetação de cerrado, foram perdidas produções de eucaliptos, cana, café e hortaliças espalhadas por uma área preliminarmente estimada em 33 mil hectares pela prefeitura, o equivalente a um terço do território do município.

Também queimaram com vegetação centenas de apiários. A criação de abelhas para produção de mel está entre as culturas praticadas na região.

"Tem lugar que queimou todas as colmeias e agora estão só cinzas", relata o apicultor Getúlio Gomes Cardim. "Perdi em torno de mil colmeias com incêndios", diz.

A reportagem percorreu locais indicados pelo produtor para localizar vestígios dos apiários e abelhas nas divisas de Altinópolis com Patrocínio e Serrana.

Como ele havia alertado, porém, nada foi encontrado além de galhos queimados e da grossa camada de pó acinzentado que hoje cobre uma porção imensa do solo no interior paulista.

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