Fórum em Chongqing aproximou experiências do Yangtzé, Amazonas, Nilo, Danúbio e Mississippi e debateu desenvolvimento, cultura e proteção ambiental
A relação entre grandes rios e o desenvolvimento das civilizações reuniu especialistas, jornalistas e artistas de quase 20 países em Chongqing, na China. A 4ª edição do Fórum da Civilização do Rio Yangtzé colocou em debate experiências envolvendo alguns dos principais cursos d’água do planeta, entre eles o Amazonas, o Nilo, o Danúbio e o Mississippi.
O Brasil participou do encontro com pesquisadores e jornalistas. O evento teve como tema a conexão entre rios, mares e diferentes civilizações e discutiu cooperação internacional, preservação ambiental, história e desenvolvimento das populações ligadas aos grandes rios.
Segundo os organizadores, o fórum também se insere no contexto da Iniciativa para a Civilização Global, apresentada pelo presidente chinês Xi Jinping em 2023, que defende maior intercâmbio cultural e cooperação entre países.
Yangtzé liga história e economia chinesa
Com cerca de 6,3 mil quilômetros de extensão, o Yangtzé atravessa importantes regiões econômicas da China e ajuda a conectar o interior do país ao porto de Xangai.
Além de seu peso econômico, o rio ocupa posição central na história chinesa. Pesquisadores locais vêm destacando descobertas arqueológicas que indicam a presença da agricultura do arroz na região há milhares de anos.
Durante o fórum, especialistas de outros países também apresentaram experiências relacionadas à gestão das águas. Pesquisadores do Egito, por exemplo, abordaram sistemas utilizados no Nilo para acompanhar variações do nível da água e antecipar períodos de seca e enchentes.
A preocupação ambiental também esteve entre os principais assuntos do encontro. Poluição, mudanças climáticas, crescimento populacional e alterações nos ecossistemas foram apontados como desafios comuns aos países cortados por grandes rios.
Desenvolvimento deixou impactos ambientais
A rápida industrialização e urbanização da China nas últimas décadas provocaram impactos significativos sobre o Yangtzé e sua biodiversidade.
O professor Li Guoqiang, da Academia Chinesa de Ciências Sociais, reconheceu durante o encontro que o desenvolvimento acelerado do país provocou danos ao equilíbrio ecológico do rio. Segundo ele, a política chinesa passou posteriormente a atribuir maior importância à conservação ambiental.
Entre as medidas adotadas está uma moratória de dez anos sobre a pesca em áreas importantes da bacia. A restrição foi ampliada para o curso principal do Yangtzé e grandes afluentes a partir de janeiro de 2021.
Dados divulgados pelo governo chinês indicam recuperação de parte dos recursos biológicos aquáticos desde a implantação da medida, embora a proteção de espécies ameaçadas continue sendo um desafio.
Amazônia entra no debate
A experiência brasileira também ganhou espaço no fórum.
A pesquisadora Vera Maria Ferreira da Silva, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), chamou atenção para os impactos da industrialização, da urbanização e da navegação sobre os ecossistemas fluviais e defendeu que o Brasil observe experiências internacionais para evitar que a Amazônia alcance níveis extremos de degradação.
Segundo a pesquisadora, modelos econômicos adotados em outras regiões brasileiras não podem ser simplesmente transferidos para a Amazônia. Ela defende alternativas que mantenham a floresta em pé e valorizem produtos como açaí e castanha-do-Brasil.
O debate também destacou a necessidade de considerar o conhecimento e os modos de vida das populações indígenas e ribeirinhas na definição de estratégias de desenvolvimento.
Yangtzé e Amazonas serão tema de documentário
Uma equipe do Centro Internacional de Comunicação do Oeste da China esteve no Brasil para produzir um documentário sobre comunidades ligadas aos rios Yangtzé e Amazonas.
Batizada de “Quando o Yangtzé encontra o Amazonas”, a produção pretende mostrar semelhanças e diferenças na relação das populações com os dois rios e seus ecossistemas.
Outro brasileiro presente no encontro, o professor André Pereira Reinnert Tokarski, defendeu a busca por um equilíbrio entre preservação ambiental e desenvolvimento econômico da Amazônia.
Para o pesquisador, tanto a exploração predatória quanto a ausência de alternativas econômicas para a população local produzem impactos sociais e ambientais.
Com informações da Agência Brasil