Fundada em 6 de junho de 1975, no bairro de Goiabeiras, a Associação Cultural Chegou o Que Faltava construiu uma trajetória marcada por resistência, reinvenção e amadurecimento artístico no Carnaval de Vitória. Sob a presidência de Rafael Cavalieri e com enredo desenvolvido pelo carnavalesco Roberto Monteiro, a escola prepara para 2026 um desfile que cruza espiritualidade, identidade e filosofia, reafirmando sua posição como uma das agremiações mais consistentes do Grupo Especial.
A história da Chegou o Que Faltava não foi linear. A escola enfrentou períodos de instabilidade, incluindo a licença solicitada em 2009 e anos de resultados modestos no Grupo de Acesso. Ainda assim, manteve o vínculo com sua comunidade e, a partir da segunda metade da década de 2010, iniciou um processo de reconstrução baseado na valorização cultural e na ousadia criativa. Entre 2016 e 2019, apresentou enredos que homenagearam figuras como Caboclo Bernardo e Jovelina Pérola Negra, além de temas ligados às lendas capixabas e ao meio ambiente.
O ponto de virada veio em 2022, quando a escola conquistou o título do Grupo A com o enredo “Chegou a realeza dos campos dourados que alimentam a história – Sustento da Vida”, exaltando o milho como elemento central de diferentes civilizações. A vitória marcou o retorno ao Grupo Especial e consolidou uma nova fase da agremiação. Em 2023, já entre a elite, a Chegou o Que Faltava alcançou a quarta colocação com “O Tesouro que Faltava”, destacando as riquezas culturais do Espírito Santo e o canto forte da comunidade.
Em 2024, a escola voltou a chamar atenção com “Bravo! Abram-se as cortinas, o Glória em cena”, homenagem ao Teatro Glória. O desfile se destacou pelas alegorias volumosas e por uma estética mais contida nas fantasias, rendendo a segunda melhor avaliação dos jurados, apesar das penalizações. A sequência positiva se manteve em 2025, quando a agremiação foi vice-campeã com o enredo “Da lama sai muito barulho”, assinado por Vanderson César.
Para o Carnaval de 2026, a Chegou o Que Faltava aposta em um enredo de forte densidade simbólica ao levar para a avenida o conceito de Orí, fundamento da existência na cosmovisão iorubá. A narrativa propõe uma reflexão sobre a cabeça como centro espiritual, mental, emocional e físico, responsável por orientar escolhas, caminhos e destinos. Mais do que um elemento biológico, o Orí surge como guia interior, guardião da memória, da intuição e da identidade individual.
Ao transformar esse conceito ancestral em desfile, a escola propõe uma leitura contemporânea da herança africana, convidando o público a refletir sobre o cuidado com a própria essência. A mensagem central é direta: o maior tesouro habita dentro de cada pessoa, e cuidar da cabeça é cuidar do futuro. Com esse enredo, a Chegou o Que Faltava entra na avenida para afirmar que, antes do espetáculo, existe uma força interior que conduz a travessia da vida e sustenta o próprio caminho do carnaval.
“Orí, sua cabeça é seu guia
Cabeça feita, batizada no tambor
Na cumeeira onde mora meu Xangô
Orí!”
Fonte: PMV