Escola do Bairro do Quadro fortalece atuação social e leva à avenida um enredo que exalta o saber ancestral das mulheres negras nas religiões de matriz africana
Fundada em 25 de fevereiro de 1980, a Chega Mais surgiu da iniciativa de ritmistas da antiga Escola de Samba Santa Lúcia, todos moradores do Bairro do Quadro, em Vitória, onde a agremiação mantém sua sede até hoje. Durante a década de 1980, a escola desfilou nos grupos de acesso do Carnaval de Vitória, até interromper suas atividades em 1992, após o fim da competição organizada pela Prefeitura de Vitória, o que provocou um período de apagamento da escola e dispersão de sua comunidade.
A retomada aconteceu em 2013, quando a Chega Mais voltou à avenida como escola convidada, reeditando o enredo em homenagem a Adoniram Barbosa. Desde então, a agremiação passou a reconstruir sua trajetória no carnaval capixaba, com um trabalho contínuo de reorganização e fortalecimento dos vínculos comunitários.
Atualmente presidida por Maria José Gegenheimer da Silva, a escola tem Diogo Rocha como carnavalesco e desenvolve projetos sociais em parceria com instituições que atuam no território. Entre as iniciativas estão o Ritmistas do Futuro, voltado à formação musical de crianças e jovens, e o Fuxiqueiras do Bem, que reúne mulheres da comunidade para o reaproveitamento de sobras de fantasias transformadas em peças de artesanato, gerando renda. A escola também participa do Conselho Local de Saúde, ampliando sua atuação para além do universo do samba.
Com raízes firmes no Bairro do Quadro e presença crescente nas áreas vizinhas, a Chega Mais segue consolidando seu papel no carnaval de Vitória e no cenário cultural da cidade.
Para o Carnaval de 2026, a escola apresenta o enredo “Iabassés, cozinhando para os Orixás, Voduns e Inkices: o alimento sagrado”. A proposta destaca a figura das Iabassés, mulheres escolhidas pelos próprios orixás para guardar e transmitir o conhecimento ancestral de transformar grãos, vegetais, caças, minerais e especiarias em alimentos sagrados. De Yaôs a Ebomis, são elas as responsáveis por preservar saberes que atravessam gerações.
O enredo valoriza a fé das mulheres negras e a dimensão espiritual do ato de cozinhar, compreendido como gesto de doação, gratidão e conexão entre o mundo material e o sagrado. Nas religiões de matriz africana, o alimento ocupa papel central na comunicação com as divindades, sendo oferecido para agradecer, pedir proteção e fortalecer vínculos espirituais.
Ao retratar o caminho que vai da escolha e separação dos grãos ao preparo final das oferendas, a Chega Mais celebra histórias, fundamentos e práticas que se espalharam pelo país. Cada preparo carrega memórias, intenções e energias da natureza, reafirmando a tradição e mantendo vivo um conhecimento ancestral que resiste e se renova no carnaval capixaba.
Chega mais na avenida o povo do samba!
Ê laia
Que vencendo as demandas
vem saudar
Iabassés desse terreiro, que no mês de Fevereiro faz banquete pro orixá!
(Oi Chega, Oi Chega )
Ê, Mojubá!
Lá na porteira o guardião saudar
Ebó para pedir a proteção
Já tem lenha no fogão, cheiro bom no ar
Oh! Mãe me conceda a sua "bença"
Ao santo eu já Pedi Licença
Pra começar no altar acendo a vela
E mexendo a panela, põe axé pra temperar!
Vestida em branco, com ojá bordado em renda
Vou preparar as oferendas
Amalá pra Xangô lá na pedreira eu vou
Na cachoeira, omolokum, mamãe Oxum
À Yansã o acarajé, frutas pra Logun edé
Levo à Obá seu ajeum
Quem vence as demandas é Ogum
Tem feijoada todo 23 de Abril
Um doce entreguei para o erê!
E o velho obaluaê, com um banho de pipocas me cobriu
Na mata milho verde para Oxóssi
Na praia peixes para Yemanjá
Ossaim oferto o mel, Nanã sarapatel
Salve as águas de Oxalá!