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Cannabis medicinal tem eficácia comprovada em epilepsia e dor crônica, dizem especialistas

FolhaPress 27/11/2024 08:00

CURITIBA, PR (FOLHAPRESS) - O uso medicinal da Cannabis sativa, popularmente conhecida como maconha, tem apresentado avanços significativos em pesquisas científicas, especialmente no tratamento de epilepsia e dor crônica. Em novembro, decisão do STJ (Supremo Tribunal de Justiça) que autorizou a importação de sementes e o cultivo de cânhamo industrial -variedade incapaz de gerar efeitos psicotrópicos--, reaqueceu discussões sobre regulamentação e acessibilidade no uso medicinal da planta.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

As principais evidências científicas sobre os benefícios terapêuticos da Cannabis foram reunidas em uma nota técnica divulgada pelo Programa Institucional de Políticas de Drogas, Direitos Humanos e Saúde Mental da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), em abril do ano passado.

Segundo o levantamento, há um número crescente de estudos indicando o potencial dos canabinoides -como o canabidiol (CBD) e o delta-9-tetrahidrocanabinol (THC)- no tratamento de diversas condições clínicas. A solidez científica dessas evidências varia de acordo com a enfermidade, indicando diferentes níveis de comprovação sobre a segurança e a eficácia dos compostos em usos terapêuticos específicos.

A epilepsia é a condição mais estudada em relação ao uso terapêutico de canabinoides. Ensaios clínicos randomizados mostraram que o canabidiol (CBD), um dos compostos da planta, é eficaz na redução de crises convulsivas em pacientes com epilepsia refratária, ou seja, resistente a medicamentos tradicionais.

"O óleo de Cannabis trouxe melhoras expressivas para crianças que sofrem com centenas de convulsões diárias e não encontravam alívio com outros tratamentos", afirma Gabriel Freitas, professor e coordenador do Centro de Informações sobre Medicamentos da UFPB (Universidade Federal da Paraíba).

SESC PICASSO

A dor crônica e a espasticidade, distúrbio que provoca contrações e enrijecimento musculares involuntários, associada à esclerose múltipla também têm sido alvo de estudos promissores. Meta-análises com dezenas de ensaios clínicos demonstraram que o uso de canabinoides reduz significativamente os sintomas de dor em comparação aos tratamentos convencionais.

"O paciente com esclerose múltipla, por exemplo, sofre com espasticidades musculares dolorosas, e estudos já indicam melhora significativa a partir do uso da Cannabis", explica Freitas.

Além disso, o THC, outro composto da planta, tem sido usado como antiemético, ajudando a controlar náuseas e vômitos em pacientes submetidos a quimioterapias, por exemplo.

EVIDÊNCIAS AINDA LIMITADAS PARA OUTRAS CONDIÇÕES

Embora os estudos sobre o uso medicinal da Cannabis tenham avançado nas últimas décadas, para condições como transtorno de ansiedade, Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outras enfermidades, as evidências ainda são inconclusivas.

"Há estudos que apontam melhoras nos sintomas de irritação e agitação no autismo, mas não se trata de uma cura para o transtorno", pontua Cassiano Gomes, diretor da Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (Abrace).

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Pesquisas em andamento também exploram o potencial da Cannabis em doenças como síndrome de Tourette, artrite reumatoide, demência e transtornos psiquiátricos. Contudo, segundo Gomes, mais estudos são necessários para determinar a segurança e eficácia desses usos.

Jaqueline da Rocha Cason, 23, diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em grau II relatou mudanças positivas após iniciar o uso de canabidiol. "Foi a melhor coisa que eu fiz, parei de ter pensamentos autolesivos, não tive mais rigidez cognitiva ou problemas com ruídos e cores", diz.

De fato, pesquisas pré-clínicas e clínicas têm apontado o potencial dos canabinoides no tratamento de transtornos relacionados ao medo e à ansiedade. De acordo com o neuropsiquiatra José Alexandre Crippa, professor titular da USP (Universidade de São Paulo) de Ribeirão Preto e referência nos estudos sobre o tema, o CBD apresentou efeitos ansiolíticos tanto em experimentos com animais quanto em humanos. Mas as amostras ainda são limitadas e precisam de confirmação com populações maiores.

O pesquisador Gabriel Freitas alerta que o uso medicinal da cannabis não é indicado para todos os casos. "Pessoas com esquizofrenia, distúrbio bipolar ou histórico de abuso de drogas devem evitar o uso, assim como jovens com menos de 25 anos, devido à intensa formação de sinapse nessa faixa etária", afirma.

DECISÃO DO STJ E ACESSO À SAÚDE NO BRASIL

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O STJ autorizou, no último dia 13, a importação de sementes e o cultivo de cânhamo industrial no Brasil. Essa variedade de Cannabis, sem efeitos psicotrópicos, será destinada exclusivamente para fins industriais e medicinais. A decisão vale apenas para empresas, e o cultivo deverá seguir as regulamentações que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e a União devem estabelecer em até seis meses.

Para Cassiano Gomes, representante da Abrace, a autorização pode impulsionar a produção de extratos medicinais de baixo custo. "Essa medida ajuda a indústria a iniciar o cultivo em larga escala", afirmou.

Apesar da decisão, o impacto jurídico imediato ainda é considerado limitado. "As pessoas continuarão judicializando ações para obter autorização para produção", explica Vladimir Saboia, chefe da Comissão de Direito do setor da Cannabis Medicinal OAB-RJ (Ordem dos Advogados do Brasil - Rio de Janeiro). Ele acredita que o Brasil precisa desenvolver uma cultura própria em vez de regulamentar a importação de sementes.

Um levantamento divulgado na última semana pela Netseeds estima que o mercado brasileiro de sementes de Cannabis para autocultivo terapêutico pode movimentar entre R$ 650 milhões a R$ 800 milhões. O país já está em processo de regulamentação da prática e conta com mais de 5.000 cultivadores licenciados.

"Estamos avançando rapidamente para a regulamentação definitiva da Cannabis medicinal", avalia Saboia. "Trata-se de uma tendência mundial e uma commodity brasileira que precisa ser regulamentada com urgência".

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