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Caetano Viela recupera a natureza oral da 'Odisseia' em peça que abre novo teatro

FolhaPress 11/07/2025 10:41

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Vários pedestais brancos ocupam a sala de teatro, distribuídos sobre um grande mapa que estampa o chão. Cada um desses cavaletes expõe um objeto. Uma sandália prateada aqui, uma lira ali. Um bonsai e, no outro canto, uma espada, uma seta e o sangue que será utilizado em sacrifícios vindouros. Antes de os atores chegarem, o público é convidado a circular pelo ambiente, mais semelhante a uma exposição de arte.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Para recontar a "Odisseia", o diretor de teatro e iluminador Caetano Vilela quis trazer de volta a oralidade dos cantos homéricos, feitos para serem entoados ao som da lira. Para isso, leu para seus dois atores, Diego Machado e Thiago Brianti, pedaços da tradução do português Frederico Lourenço, já mais fluente, e escolheu com eles os itens mais memoráveis da trama. Ao estilo do teatro de objetos, cada um deles ajudará Machado e Brianti a contar a história de Ulisses, enquanto incorporam diferentes personagens da trama homérica.

Atuam, durante boa parte da peça, em meio a uma névoa, como a lançada por Atena em Ítaca para ajudar o herói em sua vingança. Um telão de LED disposto no teto, sobre a perspectiva da plateia, complementa os efeitos especiais junto ao desenho de luz. Dois músicos, Ivan Garro e Gylez Batista acompanham os atores no palco.

SESC PICASSO

Num dos momentos mais tresloucados da peça, Machado interpreta Ulisses, amarrado ao mastro do navio para ouvir com segurança o canto das sereias, enquanto seus companheiros, ali apenas imaginados, entopem os ouvidos com cera. Garro deixa a bateria que tocava até então para manipular um teremim, instrumento musical que dispensa o toque, de som hipnótico e extraterrestre, transformado no canto das quimeras assassinas.

"Odisseia: Instalação para um Retorno" foi pensada para inaugurar o Teatroiquè, estúdio de cinema do produtor Ricardo Grandi localizado no Butantã que passa a receber também espetáculos e eventos.

"Eu queria que as pessoas vissem o teatro como ele é", diz Vilela. "Não queria disfarçar aquele espaço como se fosse um palco italiano tradicional. E queria que o público entrasse lá e tivesse essa vivência de um espaço sendo descoberto. Acho que tem um pouco isso quando a gente é espectador de museu."

CONTADOR - BONUS

O diretor releu a "Odisseia" durante a pandemia de Covid-19 —período que ele diz ter transformado sua visão sobre a arte. Desde então, desejava levar a história ao palco. "Eu queria voltar para essa simplicidade de contar uma história. Temos que nos voltar para coisas que nos toquem, coisas mais simples."

Apesar de "Odisseia" ser a primeira peça do Teatroiquè, o espaço tem passado. Ele já existia como Estúdio Iquirim e havia recebido gravações de cenas de Shark Tank Brasil, propagandas para grandes marcas e até um especial do Caldeirão do Huck. Garin, dono do espaço junto com sua família, não descarta a possibilidade de o espaço abrigar novas filmagens quando não estiver com temporadas de teatro em cartaz.

O conjunto não passou, aliás, por grandes transformações para a nova etapa. A sala de gravações consegue acolher diferentes tipos de espetáculos, e os dois bares disponíveis para o público, no subsolo e na cobertura, bem como os camarins, já atendiam a eventos e às equipes de filmagem que trabalhavam ali. "Num estúdio cabe qualquer coisa, inclusive um teatro", ele gosta de dizer.

Anuncio - Raimundo - Bonus

Grandi considera, ele mesmo, viver uma odisseia. Trabalhava com audiovisual até sofrer um acidente e ficar tetraparético, condição que enfraquece todos os membros e dificulta o movimento. Acabou trocando o set de filmagem pelos bastidores. Passou a cuidar de direitos autorais, a assessorar talentos e, no começo dos anos 2000, decidiu investir em seu estúdio.

Seu novo teatro é, também, a tentativa de criar um lugar acolhedor, em que ele possa assistir a uma boa programação e tomar uma com os amigos. Na última quarta-feira, ao receber convidados para uma pré-estreia, repetia aos companheiros: a partir de agora, o encontrariam ali. Quer que mais gente também adote seu teatro como um ponto de encontro.

"Se a entrega for boa, as pessoas vêm. Nós estamos do lado da estação de metrô, num lugar que é fácil de estacionar. Estou tratando como uma aposta que espero que seja bem-sucedida", afirma.

ODISSEIA: INSTALAÇÃO PARA UM RETORNO

- Quando Sex. e sáb., 22h e dom., 16h e 18h. Até 3 de agosto

- Onde Teatroiquè - Rua Iquirim, 110, São Paulo

- Preço R$ 140

- Classificação Livre

- Elenco Diego Machado e Thiago Brianti

- Direção Caetano Vilela

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