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Brasil segue líder mundial em mortes por Chagas, apesar da queda de casos e óbitos, diz estudo global

FolhaPress 05/11/2025 15:35

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O número de casos e mortes por doença de Chagas caiu de forma expressiva nas últimas três décadas, mas o Brasil continua sendo o epicentro mundial da enfermidade. Em 2023, o país concentrou 68% de todas as mortes registradas no planeta.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

As estimativas são do GBD 2023 (Global Burden of Disease Study), publicadas nesta terça (4) na revista The Lancet Infectious Diseases, principal referência internacional sobre a epidemiologia da doença de Chagas, uma infecção parasitária causada por um protozoário, transmitido principalmente pelo barbeiro.

Segundo o estudo, embora o total de pessoas infectadas tenha diminuído 16% desde 1990, ainda há 10,5 milhões de pessoas vivendo com a doença no mundo. No Brasil, estima-se que 4,1 milhões convivam atualmente com a enfermidade, contra 4,79 milhões em 2019.

Assim como quase toda a América Latina, o país registrou queda no número absoluto de casos entre 1990 e 2023, de 16%. Quando ajustada por idade_medida considerada mais precisa _, a redução foi ainda mais expressiva: 61,6%, superior à média global, de 55%.

O número bruto de mortes também caiu 38,9%, e a taxa padronizada por idade, 78,3%, uma das maiores reduções do mundo. Mesmo assim, o Brasil registrou 5.700 mortes em 2023, o maior número absoluto global. No mesmo ano, a Bolívia teve a maior taxa de mortalidade padronizada por idade, com 4,6 mortes por 100 mil habitantes.

"O Brasil tem uma população muito grande, o que explica parte desse número elevado", diz o cardiologista Bruno Nascimento, professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e coautor do estudo, ao lado de Antonio Ribeiro, também da UFMG.

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"Entre as populações mais vulneráveis, a prevalência é de cerca de 5%, o que é bem menor do que em áreas do norte da Argentina, onde chega a 25%. Mas, como o país é muito maior, o número total de mortes acaba sendo alto", afirma.

Para o pesquisador, parte da persistência da Chagas no Brasil está ligada ao passivo histórico de infecções antigas. Como é uma doença crônica, as manifestações clínicas podem demorar décadas.

"Há pacientes que foram infectados nos anos 1970 ou 1980 e só agora desenvolvem complicações cardíacas", diz. "As melhorias nas condições de moradia e no acesso à saúde levam tempo para se refletir em menos mortalidade."

Ele destaca que a melhoria socioeconômica, especialmente nas moradias e na urbanização, além de políticas de controle do barbeiro, foram decisivas para a redução dos casos.

"A doença de Chagas é muito social, associada à moradia precária, especialmente em casas de pau a pique ou com revestimento de barro."

A testagem obrigatória nos bancos de sangue também ajudou a conter a transmissão. Muitos pacientes só descobrem que possuem a infecção pelo protozoário quando vão doar sangue.

Já a queda na mortalidade está relacionada tanto à redução de novos casos quanto à estrutura do SUS (Sistema Único de Saúde). "O SUS garante acesso gratuito a medicamentos para insuficiência cardíaca e a dispositivos como marca-passos", afirma. "Esse tipo de cuidado especializado não existe em boa parte da América Latina."

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O prolongamento da vida dos pacientes, segundo Nascimento, tem mudado o perfil da doença. "Hoje a Chagas é uma doença do envelhecimento. Os pacientes vivem mais, e por isso vemos prevalência crescente entre 50 e 65 anos."

O pesquisador alerta que isso exigirá adaptação estrutural e financeira dos sistemas de saúde, já que as formas cardíaca e digestiva progridem com o tempo e demandam cuidados complexos.

Apesar dos avanços brasileiros, persistem gargalos importantes. O primeiro é identificar quem está infectado. "As populações sob risco, em regiões endêmicas ou com moradias precárias, muitas vezes não são triadas. É preciso ampliar a triagem sorológica e exames simples, como o eletrocardiograma."

O segundo é o acesso ao diagnóstico especializado. "O ecocardiograma, essencial para avaliar o comprometimento cardíaco, é extremamente limitado em várias regiões do interior."

O terceiro é a demora no acesso a tratamentos avançados, como os dispositivos cardíacos. "Eles são cobertos pelo SUS, mas a oferta é desigual."

Para Nascimento, encontrar o paciente e trazê-lo para o sistema de saúde é o ponto mais urgente. "O diagnóstico precoce permite inclusive o tratamento etiológico, com drogas antiparasitárias, que podem eliminar o parasita quando o paciente é jovem e ainda sem complicações."

Entre as áreas mais endêmicas do país estão o norte e o noroeste de Minas Gerais, partes da Bahia e regiões do Pará, onde há transmissão por alimentos contaminados, especialmente o açaí.

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Outro dado relevante do GBD 2023 é o aumento de casos em países não endêmicos, resultado direto da migração latino-americana, segundo o estudo. "Nos Estados Unidos, Espanha, Itália e Suíça, o número de casos aumentou de forma significativa. Em países de alta renda, a doença cresceu mais de 50% desde 1990", afirma o pesquisador.

Esses países, segundo ele, ainda não estão preparados para lidar com o problema. "Muitos não têm triagem sistemática para Chagas em gestantes ou migrantes, nem protocolos de diagnóstico em cardiologia. É preciso criar políticas específicas, porque o diagnóstico precoce pode evitar complicações graves."

Em estudo publicado em setembro, pesquisadores dos CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças) escreveram que a doença pode ser considerada endêmica nos Estados Unidos. Essa classificação indica que não se trata mais de uma doença tropical importada, mas um risco permanente à saúde do país. Foram registrados casos em pelo menos oito estados americanos.

Nascimento reforça que a enfermidade continua sendo um marcador de desigualdade social. "A Chagas é uma doença que revela quem foi deixado para trás. É rural, é silenciosa e continua vitimando as populações mais pobres."

O estudo foi coordenado pela rede de colaboradores do GBD, do Instituto de Métricas e Avaliação da Saúde (IHME), ligado à Universidade de Washington, e pelo grupo Raise (The Burden of Chagas Disease). Teve apoio da Fundação Gates, da Federação Mundial do Coração, da Novartis Pharma e da UFMG.

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.

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