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Bolo do Bixiga faz 40 anos e quer manter espírito comunitário em meio a cidade mutante

FolhaPress 24/01/2025 12:53

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Após ter atravessado uma pandemia e as mortes de seus fundadores, o Bolo do Bixiga chega neste ano à 40ª edição. Após diferentes modelos e tamanhos, a festa continua, na opinião de participantes, a manter o espírito de união da comunidade, apontado por eles como diferencial do bairro na região central de São Paulo.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Apesar do nome consagrado no singular, na prática não há mais um bolo do Bixiga, e sim centenas —a meta este ano é chegar a 471 bolos doados para a celebração, que ocorre neste sábado (25), data do 471º aniversário de São Paulo.

Segundo organizadores, os 40 anos da festa tanto celebram o legado do bairro quanto mantêm seu caráter comunitário em meio às mudanças da cidade.

E quem comprou o desafio para a meta de bolos já está com a mão na massa, como Eliana Santos da Silva, 47. Moradora do bairro há 15 anos, ela já frequentava o Bixiga desde 1995, quando se mudou de Vitória da Conquista (BA) para São Paulo.

"No ano passado entreguei oito bolos, esse ano quero entregar dez. E aí começa a correria, porque são bolos grandes, eu gosto de fazer, acho muito da hora", diz a comerciante, dona do Eliana Burguer & Restaurante, também no bairro, que recebe mensalmente uma roda de samba.

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Assim como o trabalho no restaurante, sonho que ela tem construído aos poucos, a confecção do bolo é familiar, com ajuda de uma das filhas e da mãe. Eliana ensaia modéstia ao dizer que nunca foi boleira profissional. "O pessoal que me conhece fala que vai ficar perto do meu bolo para a hora de comer."

A morte de Walter Taverna, em 2022, adiou a festa de 2023 e foi muito sentida pela comunidade, lembra Eliana. Ele conduzia a festa com o amigo Armandinho Puglisi, morto em 1994. Segundo os organizadores, que também citam depoimento da filha de Armandinho, ele teve a ideia e a colocou em prática em 1985. "É uma festa muito bonita, faz parte do bairro, tem que ter. Precisa da colaboração de muita gente, que a comunidade se envolva, mas é bonito", diz Eliana.

Para a neta de Walter, a cineasta Thais Taverna, 42, o desafio hoje é que as pessoas entendam o valor da tradição, inclusive para o futuro da rotina no bairro. "Como manter por mais dez, 20 ou 30 anos é a pergunta que me faço, porque a cidade está se descaracterizando, com muitos prédios, deixando de existir as casinhas e as comunidades."

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Mas quem comparecer à rua Rui Barbosa, na altura do número 300, neste sábado, vai encontrar forte espírito comunitário, porque todos que pensam e fazem a festa moram ali, diz Thais, que coordena o trabalho.

O evento começa às 9h. Os bolos serão recebidos por voluntários até as 11h e, ao meio-dia, após uma bênção ecumênica, serão cortados e distribuídos ao público. Há alguns anos a festa substituiu o gigantesco bolo único por várias unidades doadas por quem quiser levar.

Também haverá apresentações musicais como as do DJ Papaleo, da festa Mundo Pensante, a Trupe Baião de Dois, do músico Anderson Sono, e da Bateria 013, comandada pelo mestre Guinho Mks.

O nome artístico é de Marcos de Souza, 35, responsável pelo projeto surgido em 2016 para preservar o toque de bateria de escola de samba do bairro, a Vai-Vai.

"Foi lá que aprendi tudo que é samba, e o projeto veio para a gente continuar ensinando essa cultura por meio da bateria. Sempre começa em abril e vai até fevereiro do ano seguinte. São dez meses de preparação para todas as faixas etárias."

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Preservar essa cultura, diz Guinho, é fundamental para manter vivo o samba no bairro. A apresentação da Bateria 013 tem de 50 a 70 integrantes. "A principal mensagem é a união."

Essa rotina atrai até quem já andava por outros bairros da cidade. É o caso da Livraria Simples, que organiza também uma feira de trocas de livros durante a celebração deste sábado.

Inicialmente estabelecida na Mooca, foi para o Bixiga após um dos sócios herdar uma casa. "No final de 2017 ele falou ‘e se a gente mudasse a livraria pra cá?’ E foi das coisas mais legais que aconteceram até agora", diz Adalberto Ribeiro, 43, o Beto, um dos sócios do empreendimento, localizado na rua Rocha.

Beto valoriza a manutenção da livraria fora de locais badalados no mundo literário paulistano, como Pinheiros e Vila Madalena.

Logo que chegaram, juntaram-se a um grupo de moradores e agitadores culturais, o que acelerou a integração do espaço ao Bixiga. É nessa disposição que a livraria organiza, no começo de maio, uma feira de cultura e literatura com duração de três dias, junto com outras organizações do bairro. O objetivo, segundo Beto, é fazer mesas de discussão na rua e atrair quem é ou ficou distante dos livros.

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