Especialistas relatam procura de adolescentes por ajuda contra o vício; pesquisas apontam impacto das apostas sobre orçamento, educação e bem-estar
O avanço das apostas online entre jovens brasileiros vem aumentando a preocupação de especialistas com dependência, endividamento e problemas de saúde mental. Grupos de apoio já recebem adolescentes de 14 anos em busca de ajuda para abandonar o jogo, enquanto pesquisas mostram que o contato com plataformas de apostas começa cada vez mais cedo.
A facilidade de acesso pelo celular é apontada como um dos principais fatores de risco. Diferentemente das antigas formas de jogo, as bets permanecem disponíveis 24 horas por dia e podem ser acessadas de praticamente qualquer lugar.
Dados citados na reportagem mostram que, entre 1.912 estudantes dos ensinos fundamental e médio ouvidos em uma pesquisa brasileira neste ano, 9,5% disseram ter feito a primeira aposta aos 11 anos. Entre os alunos do 3º ano do ensino médio, quase metade afirmou já ter apostado.
Jovens são mais vulneráveis
A psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que adolescentes e jovens apresentam maior vulnerabilidade aos estímulos provocados pelas apostas porque regiões do cérebro relacionadas ao controle de impulsos e à avaliação de riscos continuam amadurecendo até depois dos 20 anos.
Ao mesmo tempo, os mecanismos ligados à recompensa e à liberação de dopamina respondem intensamente à sensação de ganho.
Essa combinação pode dificultar a interrupção das apostas depois de uma vitória e estimular novas tentativas na expectativa de repetir o resultado.
Perdas podem chegar a centenas de milhares de reais
Um dos relatos apresentados é o de Gustavo Pereira, de 24 anos. Ele começou a apostar aos 18 e afirma ter perdido cerca de R$ 500 mil ao longo de seis anos.
Em determinados momentos, chegou a transformar R$ 10 mil em valores superiores a R$ 200 mil dentro das plataformas, mas acabou perdendo todo o dinheiro.
Além dos prejuízos financeiros, Gustavo relata ter enfrentado depressão e síndrome do pânico. Atualmente, está há cerca de dois meses sem apostar e tenta reconstruir a vida trabalhando com a venda de café nas ruas de Lages, em Santa Catarina.
“Cassino no bolso”
Integrantes dos Jogadores Anônimos descrevem a facilidade proporcionada pelo celular como uma mudança decisiva na relação com o jogo.
Luiz Carlos, de 71 anos, lembra que, quando desenvolveu dependência na década de 1980, precisava sair de casa para jogar em máquinas de videopôquer. Hoje, segundo ele, quem sofre de compulsão leva praticamente um “cassino dentro do bolso”.
O grupo recebe pessoas que chegam depois de acumular dívidas, perder patrimônio e enfrentar graves consequências emocionais. Há relatos também de ideação suicida associada ao endividamento provocado pelas apostas.
24 milhões apostaram em 2024
Relatório do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) apontou que pelo menos 24 milhões de brasileiros fizeram apostas em bets em 2024. Segundo o levantamento citado na reportagem, quase metade dessas pessoas terminou endividada.
Para o diretor do instituto, Tiago Braga, apostas não devem ser tratadas como investimento, mas como gasto. Quanto maior o volume destinado ao jogo, menor tende a ser a disponibilidade de recursos para despesas como aluguel, alimentação, educação e vestuário.
Apostas também afetam acesso à faculdade
Os efeitos aparecem ainda na educação.
Pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) mostrou que 34% dos entrevistados disseram que precisariam deixar de gastar com apostas para conseguir iniciar uma graduação em 2026.
Entre estudantes que já estavam no ensino superior, 14% afirmaram ter atrasado mensalidades ou trancado o curso devido aos gastos com bets.
Outros 34% disseram ter deixado de investir em cursos, idiomas ou outras formas de aprendizado, enquanto 33% reduziram gastos com academia ou atividades físicas.
Influenciadores aumentam exposição
Outro ponto de preocupação é a presença de publicidade e conteúdos relacionados a apostas nas redes sociais.
Pesquisa do IBICT identificou influenciadores utilizando plataformas como Facebook, X, TikTok e principalmente YouTube para estimular crianças e jovens a apostar.
Especialistas alertam que a publicidade feita por influenciadores pode ser especialmente persuasiva porque o jovem tende a interpretar a mensagem como uma recomendação de alguém em quem confia, e não necessariamente como propaganda.
Regras aumentam proteção de menores
O Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, em vigor desde março deste ano, ampliou as regras de proteção de menores no ambiente virtual.
Entre as medidas previstas estão mecanismos mais rigorosos de verificação de idade e maior responsabilidade de plataformas, famílias e poder público.
Menores de 18 anos não podem participar de apostas online. A legislação também prevê restrições a mecanismos como as chamadas loot boxes, caixas virtuais com itens aleatórios adquiridos mediante pagamento e que apresentam características semelhantes às de jogos de azar.
Para especialistas, além da fiscalização, o enfrentamento do problema exige educação financeira e digital, orientação às famílias, acompanhamento de saúde e políticas de prevenção voltadas especialmente a crianças e adolescentes.