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Apesar de falho, exame de toque segue como etapa fundamental do diagnóstico de câncer de próstata

FolhaPress 27/11/2025 07:44

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em janeiro de 2024, o antropólogo Fred Lúcio, 60, apresentador do Antropocast, sentiu uma dor intensa na região da virilha. Os exames confirmaram, era uma hérnia.

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Mas os resultados também mostraram uma alteração importante: uma elevação do PSA (Antígeno Prostático Específico), uma proteína produzida pela próstata que ajuda a tornar o sêmen mais líquido durante a ejaculação, facilitando o movimento dos espermatozoides. Quando o PSA aumenta muito, porém, pode indicar câncer de próstata.

O médico de Fred pediu mais exames. Um deles foi uma ressonância magnética, que mostrou alterações na próstata. "Eu fiquei em pânico. Foi um choque para mim a possibilidade de ter um câncer."

Fred conta que então buscou a opinião de um segundo urologista, que também notou "algo estranho" na ressonância. "Ele me pediu para deitar na maca para fazer o exame de toque. Mas o toque não apontou nada."

A confirmação se deu somente após uma biópsia: era um tumor na próstata com grau 5 de agressividade.

"O diagnóstico não saiu de um único exame, mas da combinação de vários e do olhar atento do médico. Não é uma coisa tão simples assim. Foi com essa somatória de resultados que cheguei num diagnóstico precoce", diz.

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Segundo Reinaldo Uemoto, urologista do Hospital Santa Catarina-Paulista, muitos pacientes questionam a necessidade do exame de toque retal e buscam alternativas, como a ressonância magnética, que é uma das opções mais precisas. Realizá-la em todos os homens como forma de rastreamento, no entanto, não é viável financeiramente nem prático.

"Nem os países mais desenvolvidos ou mais abastados têm feito rastreabilidade utilizando ressonância, porque estamos falando da população em geral. É inviável, seja no sistema público, seja no privado", afirma.

É por essa razão que o exame de sangue PSA e o toque retal continuam sendo o padrão ouro para o rastreamento da doença, e um não substitui o outro.

O rastreamento deve começar aos 50 anos ou aos 45 em caso de fatores de risco como histórico familiar, obesidade ou pessoas negras —população com risco duas vezes maior de desenvolver o tumor e com mortalidade mais alta.

"Se tivermos 100 pacientes com diagnóstico de câncer de próstata, cerca de 80% serão diagnosticados pelo PSA e 20% vão ser diagnosticados pelo exame de toque. Se fizermos apenas o PSA, vamos perder esses 20% que não realizaram o toque", afirma Maurício Cordeiro, chefe do departamento de uro-oncologia da SBU (Sociedade Brasileira de Urologia).

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"Cerca de 10% dos tumores não apresentam alteração no PSA, então o toque ainda é indispensável", acrescenta Uemoto.

Uma das barreiras que dificultam o diagnóstico é que o exame de toque é interpretado por muitos como invasão ou ameaça à masculinidade.

"O constrangimento atrapalha. Os homens têm medo de perder a virilidade e de minimizar a masculinidade. Mas, à medida que você explica como é feito, a aceitação é maior. Quando você orienta, o tabu cai", afirma Uemoto.

O exame de toque consiste em verificar o tamanho da próstata e verificar a presença de nódulos endurecidos no órgão —comuns em casos de câncer— pela via anal.

O teste é realizado em consultório e o paciente pode ficar de barriga para baixo (bruços), de barriga para cima (decúbito dorsal) ou de lado (decúbito lateral).

O procedimento dura de 15 a 20 segundos, aproximadamente. Para minimizar o desconforto é usado um gel lubrificante com anestésico, e o exame é realizado apenas com o dedo indicador da mão dominante do médico.

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"Cada ponta do dedo representa cerca de dez gramas. Se eu der cinco toques na próstata, significa que ela tem 50 gramas. Próstatas maiores produzem mais PSA, e aumentos significativos no PSA, especialmente se acompanhados de alterações no exame de toque, aumentam o risco de câncer", explica Cordeiro.

Para complementar a investigação é indicada a ressonância magnética multiparamétrica. A confirmação definitiva do câncer só é feita por meio da biópsia prostática, como ocorreu com Fred.

O antropólogo conta que, após o diagnóstico, voltou ao urologista e recebeu três opções. A primeira foi fazer radioterapia, que foi descartada por ser muito agressiva. A segunda foi deixar o câncer como está, pois ainda não causaria prejuízo.

A terceira opção era realizar uma cirurgia robótica para remover o tumor antes que ele se espalhasse, e Fred escolheu essa última.

"Eu consegui realizar a cirurgia antes que o câncer avançasse e causasse problemas maiores. O médico comentou que todos os tecidos retirados estavam intactos depois da cirurgia, o que foi uma sorte graças ao diagnóstico precoce. Então é importante que as pessoas fiquem atentas aos sinais do próprio corpo."

Esta reportagem faz parte do projeto Vita, desenvolvido com apoio do Hospital Sírio-Libanês

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