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Antonio Cicero aparece dias antes de sua morte em filme realizado por Paulinho Lima

FolhaPress 29/04/2025 10:43

SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) - Paulinho Lima está desde cedo destinado a conviver com grandes nomes da cultura brasileira. Na infância em Itabuna, no sul da Bahia, conheceu as cantoras Dalva de Oliveira e Dolores Duran. No fim dos anos 1950, seu colega de sala no curso ginasial do colégio São Bento, em Salvador, era o jovem Raul Seixas.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

"Ele não chamava muita atenção no colégio. Nos anos 1970, teve uma vez que Raul foi com Paulo Coelho lá em casa e perguntou: ‘Paulinho, você não se lembra de mim no São Bento?’", diz o compositor, produtor e empresário, aos 82 anos.

Na produção mais recente, está um material inédito gravado de setembro a outubro do ano passado com o poeta Antonio Cicero.

Foram três encontros, o último deles apenas 20 dias antes de Cicero morrer na Suíça em procedimento de suicídio assistido. "Pra mim foi um choque terrível. Pra todo mundo foi uma coisa surpreendente", lembra. O material, uma espécie de documentário, tem a previsão inicial de ser lançado ainda neste ano.

Em 1963, Paulinho foi morar no Rio de Janeiro para alavancar sua carreira no teatro. Trabalhou como produtor, mas chegou a vencer um prêmio de ator revelação em 1965.

Sua volta à Bahia, em 1968, foi em grande estilo. Primeiro, trabalhou na produção do filme "O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro", de Glauber Rocha. Em seguida, foi coprodutor do show "Barra 69", que marcou a despedida de Gilberto Gil e Caetano Veloso antes do exílio.

SESC PICASSO

"Glauber era muito sério no set de filmagem, ele não sorria durante o trabalho", comenta Paulinho. No Rio de Janeiro e em Nova York, conheceu de perto as excentricidades de João Gilberto, mas também seu charme. "Eu nunca fui a um show de João Gilberto. Mas toda noite eu ia ao flat dele, e ele tocava só para mim", conta.

"João seduziu Gal, seduziu a mãe de Gal, seduziu a empregada de Gal, seduziu a mim", diverte-se. "Ficávamos esperando o telefone tocar para falar com João". No início dos anos 1970, Paulinho morou com Gal Costa e Dona Mariah, mãe de Gal. Ele empresariou a cantora e produziu o show "Fa-Tal — Gal a todo vapor".

Paulinho se lembra de Gal como "a pessoa mais doce, mais amável e mais fácil de se trabalhar". Ele chegou a conversar com Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir quando eles visitaram Itabuna, em 1960, levados por Jorge Amado.

O trabalho no mundo musical levou Paulinho Lima a virar letrista de mais de 60 canções, incluindo o grande sucesso "Perigo", que virou hit na voz de Zizi Possi. Essas e muitas outras histórias estão no seu livro "Anjo do Bem, Gênio do Mal" —verso de "Perigo"—, lançado em 2016 com texto de Antonio Cicero na contracapa.

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"Ele sempre me viu muito maior do que eu sou", diz Paulinho Lima sobre o colega. Foi a confiança no amigo que fez o poeta, já sofrendo os efeitos do Alzheimer, se deixar filmar pela última vez declamando poemas e contando histórias.

"Ele achava que eu devia produzir um show dele com Marina Lima, mas nós começamos a ver que seria um ato de loucura ir para o palco, pois sentíamos que ele não estava muito bem", conta Paulinho. "Então eu combinei com ele que iria documentá-lo dizendo os poemas dele".

Produtor de dois discos de poemas de Antonio Cicero, ele imaginava que a vontade do amigo em fazer a gravação era para se ocupar e para registrar o próprio trabalho, mas não sabia que era também uma despedida. "Cicero era muito organizado com essas coisas", explica Paulinho sobre o profissionalismo do amigo.

O segundo e mais importante dia de filmagens teve a presença do artista visual Pedro Drummond —neto e curador do acervo do poeta Carlos Drummond de Andrade—, quando foi gravado a maior parte do material.

"Cicero era super profissional, e com o tempo ele foi ficando muito seguro para falar os poemas dele e de outras pessoas. Ele adorava os poemas de Drummond, por exemplo", conta Paulinho, que às vezes recebia ligações de Antonio Cicero para ouvi-lo declamando poemas por telefone.

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Durante as filmagens, Paulinho Lima fez um papel parecido com o de Fernando Faro no programa Ensaio, com sua voz surgindo por trás da câmera e conversando com Antonio Cicero. Ao todo, são 52 poemas lidos pelo poeta, tudo filmado de forma intimista.

Com Antonio Cicero bem disposto e animado, as imagens têm momentos engraçados e o gato do poeta roubando a cena. "Quando eu vi o material todo, eu senti que eu tinha algo muito precioso nas mãos", diz Paulinho, que entregou os arquivos a Julio Souto, editor da TV Globo.

O projeto tem o apoio da cantora Marina Lima, irmã de Antonio Cicero. "Que maravilha, Paulinho!! Você era um amigo que Cicero adorava! Vai ser incrível", escreveu a cantora nas redes sociais.

O próprio Antonio Cicero chegou a assistir parte das filmagens. "Ele viu pouca coisa. O que ele viu, ele gostou muito", revela Paulinho. "Ele era muito rigoroso com essa coisa da poesia. Ele se considerava um poeta, ele não se considerava um letrista".

Paulinho Lima e Antonio Cicero são parceiros em duas canções. Paulinho ainda fez "Desencontros na Lapa" em homenagem ao amigo. Mas é o poema "Guardar" que indica bem a missão que Antonio Cicero deixou para ele: "Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la".

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