Palco da repressão política no século passado, o edifício do antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), no centro do Rio de Janeiro, deve ter seu tombamento definitivo decidido no dia 26 deste mês, durante reunião do Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O processo tramita há mais de dez anos e será votado em sessão transmitida ao vivo pela internet.
O Iphan justificou a decisão pelo valor histórico e artístico do imóvel e pelo papel simbólico que ele desempenhou nas lutas pela democracia e liberdade no país. Com o tombamento, qualquer alteração no prédio passará a depender de autorização do instituto. A medida também atende a pedidos da sociedade civil e do Ministério Público Federal (MPF).
Símbolo da repressão e da memória
Construído em 1910, com inspiração francesa, o prédio foi sede da Polícia Federal da época e, depois, do Dops — órgão responsável pela perseguição a opositores políticos durante o Estado Novo e a ditadura militar. O local possui celas solitárias, salas de interrogatório com isolamento acústico e espaços preservados desde o período da repressão.
Fechado há mais de uma década, o imóvel está deteriorado, com vitrais quebrados e documentos empacotados. Mesmo assim, ainda guarda mobiliário, inscrições nas paredes e objetos originais, como armários marcados com o nome “Dops”. Segundo o arquiteto Felipe Nin, do Coletivo RJ Memória, Verdade, Justiça e Reparação, “o prédio é um dos mais importantes da história política brasileira e representa um passado que o Estado tentou apagar”.
O coletivo, responsável por denúncia que originou o inquérito do MPF sobre o abandono do prédio, defende que o espaço se torne um centro de memória sobre a repressão política e a resistência democrática, e não apenas um centro cultural. “Transformar celas e espaços de tortura em bistrô seria apagar a história”, criticou Nin.
Resgate da memória histórica
O edifício abrigou presos políticos como Olga Benário, Nise da Silveira, Abdias Nascimento e Luís Carlos Prestes. As carceragens femininas, com inscrições datadas das décadas de 1950 e 1980, devem ser preservadas.
Para o Iphan, o tombamento reforça o compromisso com a proteção da memória e o reconhecimento do sofrimento imposto por regimes autoritários. A decisão marca um passo importante para transformar o local em um espaço de reflexão e educação para as futuras gerações.