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Angelina Jolie tenta uma vaga ao Oscar ao encarnar soprano lendária e trágica

FolhaPress 20/01/2025 10:34

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Maria Callas suplicava à deusa da lua para que derramasse paz sobre o caos do mundo, purificando corações ardentes no campo de batalha e iluminando, com sua luz, o que antes era obscuro. Mas não foi só o vocal inebriante da soprano que fez da sua interpretação referência para a ária "Casta Diva", de Vincenzo Bellini. O semblante melancólico e a intensidade do canto faziam parecer que Callas implorava por si própria.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Não é à toa que "Casta Diva", da ópera "Norma", abre as cortinas do filme biográfico sobre Maria Callas, dirigido por Pablo Larraín. A melodia conduz Angelina Jolie, que dá vida à soprano, na cena em que apenas seu rosto é emoldurado pela tela, enquanto ela dubla majestosa o clamor italiano, com o olhar tão triste quanto o de sua dona original.

"Maria" é o último filme de Larraín da trilogia dedicada a desvendar mulheres que marcaram o século 20. Os antecessores foram "Jackie", de 2016, que levou Natalie Portman a interpretar Jacqueline Kennedy, mulher do presidente americano assassinado em 1963, e "Spencer", de 2021, que se debruça sobre a princesa Diana, vivida por Kristen Stewart, elogiadíssima pela crítica a época.

La Divina, como foi consagrada Callas, revolucionou a ópera com seu canto impecável unido à profundidade da interpretação. Em comum, ela, Jacqueline e Diana foram figuras públicas mitificadas e pouco humanizadas em vida. Nenhuma das três se resignou à pressão das normas sociais impostas em seu tempo, e cada uma delas sofreu a seu modo por isso.

SESC PICASSO

A boa recepção dos antecessores pela crítica gerou uma alta expectativa sobre "Maria", que o filme não parece ter saciado. As opiniões não foram muito animadoras, e o filme já é considerado por muitos o mais fraco dos três.

Para Larraín, o principal intuito dos longas é dissecar aquelas que são simplificadas como musas. "Considero elas pessoas que realmente mudaram a paisagem do último século, e é muito difícil vê-las como o símbolo de só uma coisa", diz o diretor, por vídeochamada. "Elas são pessoas extremamente humanas."

No caso de Callas, a maestria com que ela vivia tragédias nos palcos foi condimentada por uma realidade igualmente dramática. Sofreu uma relação conturbada com a mãe, que incentivou seu casamento com um homem 30 anos mais velho, quando ela tinha apenas 26. Mais tarde, se separaria dele para se casar com o magnata Aristóteles Onassis, que a trairia, curiosamente, com Jacqueline Kennedy. Entrou em depressão, perdeu a voz e se viciou em barbitúricos, até morrer, aos 53 anos, por parada cardíaca.

É justamente sobre a decadência desses últimos anos que o filme de Larraín se debruça. Callas vive na companhia do mordomo e da empregada, em um apartamento magnificamente decorado em Paris. Obcecada em voltar a cantar com uma garganta que já não segue seus comandos, desconta sua angustia na posição do piano da sala, que pede constantemente para ser mudado de lugar.

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Em suas caminhadas por uma Paris de cores vívidas, como se estivesse sob um filtro de Kodachrome, filme popular na década de 1970, a Callas de Jolie tem delírios medicamentosos e flashbacks de seu passado, estimulados pelas perguntas de um repórter com quem ela alucina. "É a Maria falando com ela mesma, com alguém que ela desejaria ter conhecido como jornalista, uma pessoa cuidadosa que talvez ela nunca tenha conhecido. Ela tinha uma relação complicada com a imprensa", lembra Larraín.

La Divina foi perseguida por paparazzis em uma época em que a imprensa era particularmente cruel com as mulheres e curiosa pela sua decadência. Seu auge foi, ainda, nas décadas de 1950 e 1960, quando televisões, rádios, jornais, revistas e propagandas estavam a todo vapor, e a indústria de massa passou a influenciar a opinião pública de forma inédita.

A impossibilidade de uma vida privada ainda é a sina de muitas celebridades, quase 50 anos após a morte de Callas —a personalidade da soprano, assim como os detalhes de sua vida, permanecem um mistério. Jolie é um exemplo da sede dos tabloides hollywoodianos, e sua separação de Brad Pitt foi escrutinada por manchetes desde seu anúncio, em 2016.

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"Maria", inclusive, quebra um hiato de três anos da atriz vencedora do Oscar por "Garota, Interrompida", de 1999. Depois de encarnar a heroína Lara Croft na adaptação para o cinema do jogo "Tomb Rider" e ser celebrada pela crítica por "A Troca", de Clint Eastwood, o último grande sucesso de Jolie foi em 2014, quando encarnou a vilã de chifres dos contos de fada em "Malévola".

Apesar de ser uma das atrizes mais famosas de Hollywood, Jolie é reservada em entrevistas. Em entrevistas que deu para promover "Maria", ela disse se identificar com a solidão de Callas, em certa medida, e que assim como a soprano, ela não se sente sempre confortável em ser uma pessoa pública.

Para representar La Divina, Jolie teve aulas de canto por sete meses e aprendeu árias de mestres da ópera como Giacomo Puccini e Giuseppe Verdi —além de decorar os trejeitos de Callas, como um gesto suplicante de levar as longas mãos magérrimas próximas ao rosto para atingir as maiores notas.

A atriz, porém, não teve sorte com a concorrência. O que não falta nesta temporada de premiações são competidoras de peso para a categoria de melhor atriz, com Nicole Kidman, Demi Moore, Karla Sofía Gascón e Fernanda Torres, que levou o Globo de Ouro. Uma vaga para concorrer ao Oscar, então, parece uma nota ainda mais difícil de ser atingida por Jolie.

MARIA

- Onde Nos cinemas

- Classificação 14 anos

- Elenco Com Angelina Jolie, Pierfrancesco Favino e Alba Rohrwacher

- Direção Pablo Larraín

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