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Ana Maria Gonçalves é eleita para ABL e se torna primeira mulher negra a virar imortal

FolhaPress 10/07/2025 17:02

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Depois de 128 anos de história, a Academia Brasileira de Letras acaba de eleger a primeira mulher negra para ocupar uma de suas 40 cadeiras. Ana Maria Gonçalves, autora do romance "Um Defeito de Cor", foi eleita na tarde desta quinta para a vaga antes ocupara pelo linguista Evanildo Bechara.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

A escritora mineira de 54 anos foi a primeira a se inscrever para cadeira número 33 após a sessão da saudade de Bechara, no dia 27 de maio, um sinal de como a candidatura foi bem costurada dentro da ABL. Ela já largou à corrida como favorita.

A escritora levou 30 votos e bateu 12 concorrentes: Eliane Potiguara, Ruy Lobo, Wander Lourenço de Oliveira, José Antônio Hartmann, Remilson Candeia, João Calazans Filho, Célia Prado, Denilson Marques da Silva, Gilmar Cardoso, Roberto Numeriano, Aurea Domenech e Martinho de Melo.

A obra de Gonçalves é considerada um ponto de virada na literatura negra brasileira. "Um Defeito de Cor", publicado pela Record em 2006, foi um marco na elaboração da história da escravidão no país.

"Ela é uma das responsáveis, no Brasil, pelo encontro mais fértil entre as autoras negras e o gênero romance, que sempre foi altamente restrito", afirma a crítica literária Fernanda Miranda, que estudou em seu doutorado a maneira como a produção de romancistas negras se expandiu a partir do ano de publicação do livro seminal de Gonçalves.

O livro, segundo a crítica e professora da Universidade Federal da Bahia, "amplia nossa concepção de África como um território multifacetado, complexo, vibrante, porque é formulado pelo conflito e não pela idealização". Da mesma forma, o romance "traduz de forma exemplar" como o Brasil é um país que em constante movimento entre diferentes culturas.

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O romance histórico, que já vendeu 180 mil exemplares e inspirou de exposições de arte a enredo de escola de samba, acompanha ao longo de 950 páginas a vida da narradora Kehinde, desde seu sequestro na África, passando pela escravização no Brasil, até a busca por seu filho perdido --a personagem tem traços inspirados na vida de Luiza Mahin, tida como mãe do advogado abolicionista Luiz Gama.

"É um acontecimento histórico", diz Miranda. "A presença de autoras negras é uma realidade no sistema literário brasileiro. O mercado editorial já sabe, a universidade está aprendendo, a crítica literária tem se revelado menos cega do que já foi. Instituições tradicionais como a ABL demoram ainda mais tempo para perceber que literatura é movimento, não algo estático. Elas são as grandes defensoras do cânone, que é sobretudo uma força de retenção do que já é."

A eleição, segundo ela, sinaliza um passo da ABL na direção de um entendimento menos restrito da literatura brasileira. "Ou seja, ganha mais a ABL. É ela que se enriquece ao trazer para seu convívio uma das autoras mais prestigiadas da língua portuguesa no século 21."

É curioso que outra dessas autoras, hoje amplamente reconhecida como ponta de lança da literatura brasileira, foi preterida pela mesma academia há apenas sete anos.

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Conceição Evaristo foi protagonista de uma rumorosa candidatura, em 2018, que postulava que ela passasse a ocupar o lugar de Nelson Pereira dos Santos. A escritora teve apenas um voto na ocasião, e o cineasta Cacá Diegues foi eleito -hoje a cadeira é ocupada pela jornalista Míriam Leitão, escolhida em abril.

A candidatura de Conceição, que partiu menos dela que de um movimento público que incluiu um abaixo-assinado com milhares de assinaturas, foi percebida pela Academia como intimidação. Para entrar na Academia, há a expectativa de que o postulante passe por um certo ritual, que envolve a manifestação do interesse na vaga, a aproximação aos acadêmicos e o envio de livros para a sede da Casa de Machado.

Se há sete anos a autora de "Ponciá Vicêncio" não cumpriu esses protocolos -e não poupou a ABL de críticas desde então-, agora se arma o terreno para uma possível nova candidatura, apadrinhada por membros mais recentes da instituição, após o pioneirismo ser quebrado por Gonçalves.

De fato, os últimos anos viram a Academia se engajar em uma série de ineditismos, como o de Ailton Krenak, primeira pessoa indígena empossada em uma cadeira, no ano passado.

O compositor Gilberto Gil se tornou o raro homem negro fazendo companhia ao imortal Domício Proença Filho na instituição fundada por Machado de Assis. E a presença de mulheres aumentou de leve com Míriam Leitão e Lilia Schwarcz -mas, com Ana Maria Gonçalves, elas são apenas 13 em toda a história da ABL.

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E, por outro lado, houve a inclusão de acadêmicos do perfil masculino e branco que sempre foram regra, a exemplo do advogado José Roberto de Castro Neves e do escritor Edgard Telles Ribeiro, para citar alguns dos últimos meses.

Essas recentes eleições têm cumprido um importante papel social ao reacenderem um debate público mais amplo sobre a histórica falta de representatividade de mulheres, negros e indígenas em espaços de poder, suscitado justamente pela candidatura de Conceição Evaristo", diz a professora Michele Asmar Fanini, que pesquisa a instituição pelo recorte de gênero e escreveu "Fardos e Fardões".

O momento, diz ela, traz oportunidade de refletir sobre a "lógica arbitrária e parcial" do cânone literário brasileiro até aqui e "identificar os mecanismos de exclusão que nele operam, fruto de uma engenhosa e intrincada construção social".

Fernanda Miranda, que é autora de "Silêncios Prescritos", sobre a história da autoria de mulheres negras, diz estar mais numa posição de observação cautelosa que de pura celebração.

"É importante estarmos alertas para não confundir um ato de auto-resgate de uma instituição tida como falida por muitos com um ato de reconhecimento verdadeiro. Foi Conceição Evaristo quem disse, o importante não é ser o primeiro ou a primeira, o importante é abrir caminhos. Vamos observar os próximos passos para saber se Ana Maria e Krenak vão figurar como elementos únicos, como símbolos de ausências, ou se a ABL está apontando para novos contornos."

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