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Além de anabolizantes, drogas como cocaína e maconha são usadas para performance na musculação

FolhaPress 26/11/2025 07:56

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um estudo realizado por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) identificou que drogas associadas ao narcotráfico são usadas para melhoria de performance entre praticantes de musculação.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Elas se juntam aos esteroides anabolizantes e a outros fármacos que historicamente já são utilizados tanto para ganho de massa muscular quanto para combater efeitos colaterais decorrentes deles.

Não é exatamente uma novidade a presença dessas substâncias, mas há uma relativização do uso que ganha espaço nas redes sociais, podendo elevar a quantidade de usuários e os riscos à saúde pública, segundo especialistas.

Entre as drogas, estão cocaína, maconha e efedrina –esta última utilizada para produção de metanfetamina. O leque inclui ainda insulina, tadalafila e substâncias do tipo Sarms, moduladores de receptores androgênicos, utilizados para potencializar o efeito de esteroides nas células.

A análise foi feita entre dezembro de 2024 e outubro de 2025 em grupos de vendas e troca de informações sobre as drogas no WhatsApp e no Telegram. O método utilizado foi a netnografia. Similar à etnografia, consiste em acompanhar de perto indivíduos de uma determinada cultura para sintetizar um perfil acerca do grupo. Foram listadas, ao todo, 46 drogas.

Segundo o pesquisador Marcel Segalla, da Faculdade de Medicina da USP, a cocaína é utilizada como potencializador de emagrecimento e melhora de atenção. O uso dessa droga, diz ele, que é responsável pelo estudo, é mais pontual entre os usuários.

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Já a maconha é utilizada para efeito analgésico, isto é, para reduzir as dores musculares pós-treino. O uso também é associado à melhoria no sono (importante no processo de ganho de massa muscular) e para aumentar o apetite. As drogas são anunciadas nas redes sociais e nos próprios grupos dos aplicativos de mensagens.

"No caso da maconha, há também um uso associado ao controle da agressividade. Como alguns esteroides podem elevar a agressividade entre os usuários, eles recorrem à Cannabis para reduzir esse efeito", explica Marcel.

O perfil dos usuários varia. Há homens e mulheres de diferentes ocupações e extratos sociais. Motoristas de aplicativo, guardas municipais, faxineiras, fisioterapeutas e mesmo médicos estão entre eles, segundo o pesquisador.

Outra droga a integrar a lista é a cetamina, que é utilizada na saúde em anestesias, por seu efeito analgésico, e no tratamento de depressão resistente. No mundo fitness, é usada para aliviar a dor muscular.

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Maurício Henriques Damasceno, psicólogo do esporte e especialista em psicopatologia pela USP, avalia que se trata de um fenômeno perigoso. O culto a essas substância é ampliado pela demonstração de corpos perfeitos nas redes sociais e pela pressão estética que isso causa.

"Esse tipo de conteúdo [sobre drogas] se tornou disponível em uma escala nunca antes vista. E desperta uma fragilidade que o indivíduo por vezes já carrega consigo, acerca de seu corpo e de sua performance. Isso foi muito bem captado pelos mercadores dessas substâncias", afirma Damasceno, que é psicólogo da Doctorália.

Ele continua: "meninos aprendem desde cedo a se identificar com o ideal do corpo grande e musculoso, e meninas, com o corpo sensual. São elementos que, inconscientemente, vão derrocar na necessidade de alcançar esses padrões na vida adulta".

O nutricionista e influenciador Rodrigo Góes é uma voz contra as drogas associadas a atividade física nas redes sociais. No Instagram, TikTok e Youtube, ele produz conteúdo que inclui análises de usos de drogas por outros influenciadores do mundo fitness alertando para o risco de cada substância.

"Existe, sim, uma cultura de uso que banaliza as drogas", diz Góes sobre a hipótese de culto às substâncias. "Quando comecei a fazer esse trabalho queriam me matar. Falar sobre isso era proibido no meio. Hoje, você é estranho se não usá-las. As drogas sustentam um status de coragem, de virilidade, que atrai o jovem. Ao mesmo tempo, o acesso a elas é muito fácil."

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Góes, que tem 2 milhões de seguidores no Instagram, 1,53 milhão no Youtube e 1.8 milhão no TikTok, diz que o uso de cocaína e efedrina é comum nos Estados Unidos, onde jovens influenciadores exibem suas rotinas de academia e abuso das substâncias. "O futuro das drogas no Brasil reflete o presente dos EUA. Tudo o que descobrem lá importam para cá", afirma.

Rogério dos Santos Dias Bria, 42, é ex-usuário de esteroides. Durante oito anos usou hormônios como oxandrolona, trembolona e stanozolol. A eles, associava outros como o clenbuterol (desenvolvido para promover a broncodilatação em equinos). Participante do estudo da USP, ele abandonou as drogas quando passou a ter contato com a universidade.

"Hoje, com 42 anos, percebi que também posso chegar a bons lugares sem o anabolizante. A procura por um corpo perfeito é muito grande, mas é possível conseguir isso de forma saudável, sem extrapolar os limites da saúde", afirma.

Ao filho de 19 anos, que está começando na musculação, Bria propaga o legado de uma vida saudável. "Tudo que você precisa já está aí no seu corpo, não precisa importar nada de fora."

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