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Advogados e pesquisadores apontam criminalização do funk e excessos na prisão de MC Poze

FolhaPress 31/05/2025 10:53

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A prisão do MC Poze do Rodo na quinta-feira (29) pela Polícia Civil do Rio de Janeiro gerou reações de advogados e pesquisadores do funk.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Eles criticam o momento da prisão do cantor, algemado em casa e conduzido sem camisa, e os aspectos jurídicos da investigação, baseada na suspeita de apologia ao crime e envolvimento com o Comando Vermelho.

A Polícia Civil foi procurada para explicar o uso das algemas e a divulgação dos vídeos, mas não houve resposta.

Segundo afirma a corporação, a investigação apontou que Poze faz shows exclusivamente em áreas dominadas pelo Comando Vermelho, e que as apresentações têm a presença de traficantes armados. Diz ainda que o repertório das músicas faz apologia ao tráfico e incita confrontos entre facções rivais.

Ao ingressar no sistema prisional, Poze declarou se identificar-se com o Comando Vermelho, segundo a Seap (Secretaria de Administração Penitenciária).

A declaração faz parte da ficha de ingresso e é obrigatória a todo detento. Nela, o preso tem que assinalar o campo "ideologia declarada". No sistema penitenciário fluminense os internos são separados de acordo com suas alianças criminosas para evitar confrontos.

O advogado de Poze, Fernando Henrique Cardoso, afirmou que "essa é uma narrativa antiga e já debatida" e que irá entrar com pedido de liberdade.

Poze foi preso em casa, num condomínio no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste do Rio. Agentes usaram algemas e conduziram o cantor durante parte do trajeto sem camisa e descalço.

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Na quinta e nesta sexta-feira (30) a Polícia Civil do Rio publicou, em seu perfil oficial no Instagram, dois vídeos repercutindo a prisão. Em um deles, diz que deseja promover a "cultura do bem" e que a prisão é um "recado" para "aqueles que romantizam e ajudam a disseminar a narcocultura".

Em outro, intitulado "quebrando narrativas", uma narradora diz que o uso de algemas "depende da conduta, do risco, da fuga, da reação no momento da prisão, e não da cor da pele ou status financeiros", sem detalhar se Poze apresentou risco na chegada dos agentes.

"Tem branco algemado e preso todo dia", diz o texto divulgado.

O advogado criminalista Sérgio Figueiredo afirma que o uso de algemas foi "exposição midiática".

"Ele é conduzido de cabeça baixa, descalço, sem camisa, com o braço torto. Qual a necessidade de exposição? Tem o aspecto da cor, de quem é, a repercussão e a exposição."

"Para algemar é preciso ter a justificativa de violência, grave ameaça, resistência, e tudo isso tem de estar fundamentado por escrito, sob pena de responsabilidade civil, administrativa e criminal", afirma o juiz André Nicolitt, do Tribunal de Justiça do Rio.

Priscila Nocetti, advogada e apresentadora da Furacão 2000, equipe de som que se tornou a principal divulgadora do funk a partir da década de 1980, diz que a prisão carrega a "rotulação social" historicamente vinculada ao gênero.

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"A rotulação aponta, através de algumas características, inclusive físicas, quem pode ser um provável criminoso", diz. "É uma guerra que vamos levar por toda vida se quisermos defender o movimento funk".

Outros cantores de funk já foram presos sob acusação de apologia. No último dia 23, seis dias antes da prisão de Poze, a Polícia Civil do Rio prendeu MC Dick, tratado pela polícia em material divulgado à imprensa como "MC do Tráfico".

Ele foi apontado como integrante do Comando Vermelho do Ceará. A investigação, segundo a polícia, apontou que ele tem "papel relevante na difusão da ideologia criminosa por meio de músicas".

Autor do livro "O funk na batida: baile, rua e parlamento" e doutor em direito, Danilo Cymrot aponta para o que chama de "zona cinzenta" do entendimento do que é apologia.

"Fazer apologia ao crime seria fazer um elogio ao crime, ou fazer um elogio exaltando a figura de um criminoso. Só que no caso de uma obra de arte, de ficção —um filme, uma música—, sempre se pode alegar que, na verdade, ali retrata-se a realidade, ou ainda que é uma produção artística que não se confunde com a realidade."

Em 2020, o próprio MC Poze já havia sido denunciado pela Promotoria do Rio sob acusação de incitar a violência e promover grupo criminoso. Um ano antes, o DJ Rennan da Penha foi preso por suspeita de ser olheiro do tráfico.

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Em 2010, os MCs Tikão, Frank, Max, Didô e Smith, expoentes do funk carioca à época, foram presos sob acusação de apologia ao tráfico de drogas e associação com o crime.

"Parece claro que faz parte do mesmo processo histórico. Aquela [prisão em 2010] foi uma onda de criminalização do funk, e talvez a gente esteja vivendo outra com a prisão do Poze e os projetos de lei anti-Oruam", afirma a historiadora Juliana Bragança, autora do livro "Preso na Gaiola".

Oruam é um dos artistas de trap mais ouvidos do país. Ele é filho de Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, apontado como líder do Comando Vermelho e que está preso desde 1996, condenado a 36 anos de prisão por ser mandante de dois homicídios.

Bragança aponta que ao longo da década de 1990, ações jurídicas e políticas, como a interdição de bailes em 1995 e a instalação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) para investigar os bailes, em 1999, marcaram ondas de criminalização, ainda que o gênero, naquela década, já tivesse chegado às rádios e televisão, incluindo apresentações em programas de sucesso como o Xou da Xuxa.

Rômulo Costa, fundador da Furacão 2000, chegou a ser condenado em 2000 por corrupção de menores, promoção de violência nos bailes e envolvimento com o tráfico de drogas. Costa foi absolvido.

"É complicado ser rotulado de uma coisa que você não faz. Comigo levou seis anos até provar a inocência. É uma luta."

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