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'A melhor forma de estragar a cabeça de um filho é querer que ele salve o mundo', diz Pondé

Estadão Conteúdo 14/05/2026 16:06

O que significa dizer que precisamos ser mais humanos diante das tecnologias? O filósofo e professor da FAAP Luiz Felipe Pondé começou seu painel no São Paulo Innovation Week com essa provocação, ao discutir qual será a nossa abordagem em relação às tecnologias que surgem e se desenvolvem na nossa era.

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Na mesa As Contradições da Inovação como Paradigma Contemporâneo, Pondé abordou a forma como as mudanças da tecnologia impactam o comportamento humano. De acordo com o filósofo, o humano não é "nem absolutamente perverso nem absolutamente santo", e que cabe ao tempo junto a essas inovações para saber como vai ser a nossa relação com elas.

"A história da humanidade é de massacres, avanços, regressos, ganhos e perdas. Não há nenhuma prova que a humanidade, enquanto moral e política, esteja de fato avançando. Então, o que quer dizer (quando dizemos que) a gente vai ter que ser mais humano? Não significa nada", apontou Pondé durante o painel.

Para ele, um dos motivos da complexidade da relação do humano com a tecnologia é a projeção das pessoas sobre os avanços tecnológicos, uma expectativa criada a partir de elementos muito simplórios da inovação - como a ideia de que um aparelho celular é melhor porque é mais novo, por exemplo.

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Com isso, as pessoas tendem a imaginar que também as novas gerações terão uma relação melhor com a IA ou com outras tecnologias, e que serão elas as responsáveis por eliminar os aspectos negativos desse desenvolvimento.

"As melhores formas de você estragar a cabeça de um filho ou de uma filha é querer fazer com que ele salve o mundo, que seja uma pessoa perfeita, ótima, cheia de bons valores. Mas então, de onde que vem essa ideia? Ela vem da projeção sobre as pessoas dos avanços tecnológicos. A gente projeta isso sobre as pessoas, já que no sistema em que a gente vive tudo vai virando um produto", explicou Ponde.

O filósofo também afirma que nós não temos reserva ética para impedir avanços que tornem a vida mais confortável, apontando que esse é um conceito que vem de séculos atrás, com nomes como Francis Bacon, por exemplo, que defendia que os conhecimentos científicos tinham que ser um instrumento de controle da natureza.

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"Quando se pergunta 'se você tiver a chance de, com o auxílio da inteligência artificial, fazer uma seleção de genes ou embriões para que seu filho ou sua filha seja o mais saudável, mais inteligente, mais bonito possível, você faria uso desse recurso?' Quase ninguém levanta a mão. Mas, evidentemente, se isso tiver à disposição, vai todo mundo usar", diz o filósofo.

Ainda, Pondé comparou o atual comportamento humano a um conceito apresentado ainda em 1903 pelo filósofo alemão Georg Simmel, que escreveu um ensaio descrevendo o impacto de uma mudança profunda na sociedade - na época, a migração de uma vida rural para um cotidiano centrado em metrópoles.

No ensaio, o alemão afirmou que os elementos que determinavam o ritmo nas cidades grandes, como a economia, as informações e a velocidade de uma vida urbana causaram um aumento na "intensidade nervosa" do indivíduo. A ideia é que, nesse contexto, o ser humano passou a ser sempre muito consciente de suas ações, enquanto na vida rural existiam elementos que podiam ser inconscientes ao longo dos anos.

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"A própria necessidade de dar conta de muitas variáveis no espaço cada vez mais espremido de tempo produz maior intensidade nervosa na vida. Você tem que ser consciente o tempo inteiro. Agora, você tem que ser consciente com o fato que a inteligência artificial talvez seja mais inteligente do que você. A IA provavelmente vai ser mais um elemento para aumentar a intensidade nervosa do espírito humano", apontou Ponde.

Sobre o São Paulo Innovation Week

Maior festival global de tecnologia e inovação, o São Paulo Innovation Week é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, até sexta, 15. Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre muitas outras.

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