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'A Mais Preciosa das Cargas' trata as dores da guerra a partir da poesia

FolhaPress 24/04/2025 14:07

FOLHAPRESS - Qualquer pessoa, por menor contato que tenha com cinema, sabe que crianças e bichos de estimação costumam atrair olhares de carinho e simpatia.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Portanto, é um recurso fácil apelar para uma trama que contemple uma criança e um cachorro, como é o caso, ao menos em sua primeira metade, de "A Mais Preciosa das Cargas", filme franco-belga do oscarizado Michel Hazanavicius, baseado em um conto de Jean-Claude Grumberg.

Como é uma animação, o apelo comercial ao mesmo tempo aumenta e diminui. A Pixar, o estúdio Ghibli e outros polos de animação fortaleceram o nicho nas últimas décadas, tornando o formato mais atraente para distribuidores e produtores.

Mas por mais bela que seja a animação, não conseguirá se igualar ao rosto e ao carisma de uma bela criança ou um belo cachorro. Ou seja, a animação enfraquece um pouco o apelo, embora jamais de modo a não o justificar.

O filme, contudo, abandona em certo ponto essa facilidade para mostrar o horror da guerra com alguma poesia. Estamos diante de uma animação mais nuançada e adulta.

Um lenhador e sua esposa vivem numa região florestal e fria, em meio à pobreza e ao medo de serem atingidos de alguma forma pela Segunda Guerra Mundial. Num dia de muita nevasca, representada com um marcante trabalho de som, a esposa segue o choro de uma criança. Depois de muito procurar, encontra um bebê abandonado perto dos trilhos do trem.

SESC PICASSO

Ela decide adotar a pequena menina, enfrentando a resistência inicial do marido. Depois de um tempo, ele também se rende aos encantos da criança, que por sua vez se encanta com a enorme barba ruiva do lenhador. O casal acompanha enternecido o crescimento da filha que ganharam: suas brincadeiras divertidas com o cachorro, a primeira vez que ela fica de pé, seu sorriso cativante.

Até que a maldade humana aparece e uma nova reviravolta acontece na vida da criança e do casal. A esta altura, já havíamos percebido que o filme é ambientado perto de um campo de concentração. A câmera acompanha um pássaro até lá. Curiosa maneira de nos situar geograficamente.

É então que as peças começam a se encaixar, o desespero explica o abandono e uma bela comunhão entre humanos e animais provoca um fio de esperança.

CONTADOR - BONUS

Ficam as perguntas, sempre feitas quando surgem filmes do tipo. Vale entrar novamente no tema do holocausto, nas atrocidades cometidas por nazistas? Há algo novo a dizer sobre o assunto? E outra pergunta, em contraposição à anterior. Precisa ter algo novo para voltarmos a esse evento traumático?

A resposta é fácil nestes dias em que se normalizou a extrema direita, o genocídio e a intolerância. Infelizmente, a humanidade não aprende. Logo, um tema como esse jamais se esgota. Tudo depende do tratamento que se dê a ele.

O diretor tem normalmente uma mão um tanto pesada, mas aqui se beneficia do atenuamento inerente à opção pela animação. As atrocidades surgem como pinturas expressionistas. O demasiado visto é mostrado com alguma variante que o torna mais palatável, geralmente de forma alegórica.

A escolha ainda traz outra diferença. O conto de Grumberg poderia ter sido facilmente adaptado com atores e atrizes. Mas provavelmente não teria esse tempo, que nos permite experienciar uma emoção extrema, sem nos sentirmos chantageados —a bela trilha de Alexandre Desplat contribui. É um pequeno e belo conto moral o que vemos em 80 minutos de projeção.

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Hazanavicius tem um caminho curioso no cinema, embora com muita bondade e alguma ingenuidade se possa dizer que é bem-sucedido, de um ponto de vista crítico. O vencedor do Oscar de melhor filme, "O Artista", tem uma ideia nostálgica realizada de maneira pueril. O longa que homenageia Godard, "O Formidável", não é muito melhor.

Existem bons animadores em atividade, alguns franceses entre eles. Com "A Mais Preciosa das Cargas", Hazanavicius automaticamente reivindica seu espaço, e talvez mereça, pois realiza, de longe, o seu melhor filme.

Talvez a animação seja um caminho mais seguro para cineastas como ele, um tanto incertos no trato de temas fortes, com pouco critério na hora de escolher o que mostrar e o que não mostrar, e com alguma falta de noção, que permanece na hora de terminar um filme tão melancólico com uma música alegre.

A MAIS PRECIOSA DAS CARGAS

- Avaliação Muito bom

- Classificação 14 anos

- Elenco Jean-Louis Trintignant, Dominique Blanc, Denis Podalydès

- Produção França, Bélgica, 2024

- Direção Michel Hazanavicius

- Onde ver Em cartaz nos cinemas

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