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40% dos cursos médicos de especialização são de ensino a distância, aponta estudo da USP

FolhaPress 06/09/2024 10:39

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Cerca de 40% dos cursos médicos de especialização do país funcionam na modalidade de ensino a distância (EaD), o que seria incompatível para uma boa formação em áreas da medicina que demandam conteúdo prático em ambiente presencial.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Os dados são de um estudo da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) em parceria com a AMB (Associação Médica Brasileira) e foram extraídos do projeto "Demografia Médica no Brasil 2025".

Presenciais ou a distância, esses cursos médicos de pós-graduação lato sensu têm sido alvos de disputas judiciais porque a legislação impede que médicos que o fazem se apresentem como especialistas.

As regras atuais determinam que o título de médico especialista só pode ser obtido após conclusão de programas de residência médica, credenciados pela Comissão Nacional de Residência Médica ou por meio das sociedades de especialidades filiadas à AMB (Associação Médica Brasileira).

A residência médica varia de dois a cinco anos, de acordo com a especialidade. Completada essa etapa, o médico pode se habilitar a prestar o exame para obter o título de especialista.

O trabalho identificou 2.148 cursos de pós-graduação lato sensu em medicina, ofertados por 373 instituições. Mais de 90% deles são pagos, a maioria (82,5%) em instituições privadas. As públicas são responsáveis por 17,5% do total de cursos pagos.

A maior parte deles (60%) está concentrada em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Endocrinologia, dermatologia, psiquiatria e radiologia são as especialidades com mais cursos. A duração média é de 13 meses. Os de formatos EaD são mais curtos (9,7 meses) em relação aos presenciais (15,4 meses) e semipresenciais (13,9 meses).

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Segundo o estudo, o preço médio dessas pós graduações é de R$ 15.782,36, sendo que os de modalidade EaD são mais baratos: custam, em média, R$ 5.696,54. As especialidades cirúrgicas apresentaram os maiores valores, R$ 27.239,99, em média. Cursos ofertados nas capitais custam o dobro dos cursos localizados nas demais cidades: R$ 20.080,95 contra R$ 9.328,36, em média.

"Houve um crescimento muito grande desse mercado de especialização médica. São cursos mal regulamentados, que não passam por fiscalização, são de livre oferta. A legislação apenas fala que eles precisa ter, no mínimo, 360 horas", explica Mario Scheffer, professor do departamento de medicina preventiva da USP e coordenador do estudo.

Houve um crescimento muito grande desse mercado de especialização médica. São cursos mal regulamentados, que não passam por fiscalização, são de livre oferta. A legislação apenas fala que eles precisam ter, no mínimo, 360 horas

professor do departamento de medicina preventiva da USP e coordenador do estudo

Embora sejam obrigatórios o credenciamento da instituição de ensino e o registro de informações gerais junto ao MEC (Ministério da Educação), a oferta desses cursos independe de autorização ou reconhecimento de órgãos do governo.

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Segundo Scheffer, em geral, esses cursos são comercializados por um mesmo conglomerado que possui escolas médicas de graduação, cursos preparatórios de residência médica, plataformas digitais, telemedicina e outros serviços. É baixa, por exemplo, a oferta de cursos gratuitos ou que tenham relação explícita com políticas, programas e metas do SUS.

"Há cursos mantidos por instituições renomadas ou aceitos pelas sociedades de especialidades nas pontuações de provas de títulos. Mas muitos outros são ofertados por instituições sem experiência e capacidade na área do curso. Aí tem joio e tem trigo, mas tem muito joio", afirma.

Hoje há uma demanda muito grande por especialistas no SUS, com pacientes esperando meses por consultas. De acordo com o estudo Demografia Médica 2024, há desigualdades regionais, com grande concentração de profissionais nas capitais e nos serviços privados.

O estudo mostrou, por exemplo, que o número de anestesistas no Maranhão é cinco vezes menor do que no Rio de Janeiro. O mesmo ocorre com a taxa de cirurgiões. No Pará, a oferta desses profissionais é seis vezes menor que no Distrito Federal.

Em abril, o Ministério da Saúde lançou o programa de mais acesso a especialistas, com previsão de R$ 1 bilhão em investimentos até o fim do ano. A meta do ministério é que o paciente consiga realizar o conjunto de consultas e exames entre 30 e 60 dias.

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Para Cesar Eduardo Fernandes, presidente da AMB, melhorar o acesso a médicos especializados é muito importante, mas é preciso que esses profissionais sejam bem qualificados, o que não tem acontecido com o grande número de formandos de muitas das novas faculdades de medicina.

"Não se faz especialista em curso de final de semana, muito menos em ensino a distância. Você precisa ter um aprendizado prático sólido, em que você adquira as competências, as habilidades e as atitudes permitidas para que você, enfim, possa ser registrado como um especialista", afirma.

Segundo ele, a residência médica brasileira tem exigências baseadas em fundamentos muito bem consolidados da pedagogia médica internacional. Atualmente, apenas um terço dos candidatos consegue obter o título de especialista.

Na sua opinião, é preciso que os formuladores de políticas públicas de saúde façam uma reprogramação das necessidades de especialidades no país e das vagas de residência, criando estímulos que atraiam mais profissionais para as áreas prioritárias.

"A gente sabe que faltam muitos anestesistas, por exemplo. O governo poderia incentivar oferecendo uma carreira de longo prazo, condições de trabalho e remunerações mais adequadas. O mesmo ocorre com os médicos de família", diz ele.

Na opinião de Mario Scheffer, o estudo pode contribuir com o debate sobre a necessidade de acreditação ou certificação de cursos de pós-graduação lato sensu, o que requereria rever as atribuições do MEC e do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira).

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