Programa Vitória de Frente para o Mar retoma a relação da capital com a baía e moderniza área marcada pelos grandes aterros do século XX
A Prefeitura de Vitória iniciou uma nova etapa de transformação da Avenida Marechal Mascarenhas de Moraes, a Beira-Mar, com o programa Vitória de Frente para o Mar. A proposta é requalificar uma das áreas mais emblemáticas da capital, ampliar a acessibilidade, melhorar a ciclovia e criar novos espaços de convivência ao longo da Baía de Vitória.
O projeto atual recupera uma tradição urbanística que ajudou a moldar o Centro e parte da orla da cidade ao longo do século XX. Grande parte da região hoje ocupada por edifícios, praças e importantes vias foi construída sobre aterros realizados para ampliar as áreas planas de Vitória e permitir a expansão urbana.
Sob o atual calçadão da Beira-Mar está uma das maiores intervenções de engenharia urbana já realizadas no Espírito Santo. Os aterros contribuíram para a criação da Esplanada Capixaba, ampliaram a área disponível para atividades comerciais e ajudaram a reorganizar a relação entre o porto e a cidade.
A história dessa transformação começou ainda nas primeiras décadas do século passado, quando Vitória enfrentava limitações geográficas impostas pelos morros, praias, manguezais e áreas atingidas pelas marés. A expansão urbana exigia novas áreas planas e obras capazes de melhorar também as condições sanitárias.
Na década de 1920, o então governador Florentino Avidos lançou o Plano de Melhoramentos, que previa uma avenida de aproximadamente 15 metros de largura ao longo da Baía de Vitória, ligando as proximidades da Praça Oito de Setembro ao Forte São João.
Já na década seguinte, o engenheiro Henrique de Novaes elaborou o Plano de Urbanização de Vitória. O projeto previa o crescimento das atividades portuárias para além do núcleo antigo do Centro e antecipava, décadas antes de sua execução, o aterro da Enseada do Suá.
As propostas desenvolvidas naquele período foram determinantes para a futura configuração da Avenida Beira-Mar e para sua importância como eixo de circulação e ligação entre o Centro e outras regiões da capital.
Na década de 1940, uma nova etapa de planejamento urbano foi desenvolvida a partir do chamado Plano Agache, inspirado em conceitos do urbanismo europeu e coordenado pelo urbanista francês Donat Alfred Agache.
O plano previa o avanço da cidade sobre áreas da então Enseada da Capixaba, criando terrenos planejados para permitir a expansão comercial e administrativa de Vitória. Também estabelecia diretrizes para melhorar a circulação de veículos e renovar a paisagem urbana do Centro.
Parte dessas ideias foi incorporada ao Código Municipal de Vitória de 1954. A legislação classificou a área aterrada como Bairro Comercial Especial e definiu regras para o uso dos terrenos, priorizando bancos, escritórios, comércio e atividades relacionadas ao porto.
O planejamento previa ainda edifícios organizados em blocos contínuos, com áreas abertas integradas às calçadas e limites de altura que buscavam preservar a relação visual entre a cidade e a Baía de Vitória.
Inicialmente, os prédios próximos ao mar deveriam ser mais baixos, enquanto as construções poderiam aumentar de altura à medida que avançassem para o interior da área urbana. Esse modelo acabou sendo modificado nas décadas seguintes, com a autorização de edifícios residenciais e construções mais altas junto à orla.
Documentos dessa transformação, incluindo plantas, projetos de engenharia, fotografias, ofícios e processos administrativos, estão preservados no Arquivo Público Municipal de Vitória.
O programa Vitória de Frente para o Mar passa agora a integrar essa trajetória. As intervenções começam nas proximidades da Praça Pio XII e pretendem recuperar espaços públicos, melhorar os deslocamentos de pedestres e ciclistas e reforçar a ligação entre a população e a Baía de Vitória.
A nova etapa acrescenta mais um capítulo à transformação urbana de uma área que, ao longo de mais de um século, acompanhou o crescimento econômico, portuário e viário da capital capixaba.