domingo, 14 agosto, 2022
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No palco, o desafio de uma ‘vovozinha’ incomum

Quando descobriu Ponto a Ponto – 4000 Milhas, peça da americana Amy Herzog, lançada na Broadway em 2011, o diretor Gustavo Barchilon pensou em Beatriz Segall (1926-2018) para o papel da nonagenária Vera. Os dois se conheceram nos bastidores de Nine, Um Musical Felliniano dirigido em 2015 por Charles Möeller e Claudio Botelho, do qual Barchilon era assistente, e desenvolveram uma profunda amizade. “Beatriz virou uma avó para mim, lemos juntos o texto e, com sua ironia habitual, ela disse: ‘Vamos fazer! Não existe outra atriz no Brasil para essa personagem'”, recorda o diretor.

Com a morte de Beatriz, Barchilon se viu em uma encruzilhada para substituí-la – e, em uma aposta surpreendente, escalou o ator Luiz Fernando Guimarães, de 72 anos. “Luiz Fernando tem um humor muito próximo do da Beatriz, é aquela pessoa que te faz rir falando sério”, afirma.

A versão brasileira da comédia dramática Ponto a Ponto – 4000 Milhas, que estreou nesta sexta, 15, no Teatro B32, no Itaim Bibi, comete uma transgressão com um homem à frente do elenco. “Acho inovadora essa mudança de gênero porque traz leituras diferentes para uma dramaturgia tradicional e não posso ficar na retaguarda como artista” justifica o diretor. Em Nova York, Vera foi representada por Mary Louise Wilson e, na montagem londrina, adiada às vésperas da pandemia e ainda inédita, por Eileen Atkins.

Na trama, Vera vive sozinha em uma rotina cartesiana, que, de repente, vira um tumulto por causa da visita de Léo (interpretado por Bruno Gissoni), neto do falecido marido. O rapaz atravessa um trauma depois de sentir-se responsável pela morte do melhor amigo. O estranhamento aos poucos desaparece e, o carinho transforma os dois. A atriz Renata Ricci se divide em dois outros papéis – um deles, o de Bec, a namorada de Léo.

VOVOZINHA

Guimarães destoa totalmente do perfil imaginado para uma vovozinha – ainda mais se comparado ao de Beatriz Segall, sinônimo de elegância e refinamento. O ator de voz grave, que mede quase 1m90 e calça sapatos 46, porém, garante que não se preocupou com a imagem e, comovido com o convite, recorreu às memórias afetivas para ajudá-lo na caracterização. “Quem convive com idosos sabe que toda mulher depois de certa idade se aproxima do mundo masculino, com uma visão prática e menos sutil da vida”, diz o artista, que nem sequer afina a voz em cena.

Sua mãe, Yara, falecida há uma década, se tornou referência imediata, assim como umas de suas tias, Arlete, que ainda reclama de tudo e capricha nos palavrões. Outra inspiração veio da atriz Fernanda Montenegro, que, segundo ele, carrega uma sabedoria incomum da vida. “Eu sou um ator que não pede licença, tenho um bom senso que me diz até onde posso ir e já não preciso provar nada a ninguém”, comenta.

Os tipos femininos, carregados de comicidade, pontuam a trajetória de Guimarães. Eles vão desde as personagens do humorístico TV Pirata (1988/1991) até a sitcom Acredita na Peruca (2015), do Multishow, em que ele viveu a dona de um salão de beleza. “Mas, neste espetáculo, não há espaço para o caco e Vera sofre ao lidar com suas deficiências, como o enfraquecimento da memória”, diz o artista.

DELICADEZA

O retorno do público carioca na temporada de um mês, em junho, faz o ator pensar que encontrou um canal de delicadeza. “Vi espectadores de todas as idades, inclusive crianças que, eu imagino, devem ser colegas de escola dos meus filhos”, arrisca. Guimarães é pai de Dante, de 11 anos, e Olívia, de 9, que cria junto com o marido, Adriano Medeiros. “Eles dizem aos colegas que faço papel de mulher e sugerem que eu preciso me curvar mais para agradecer os aplausos no final”, diverte-se ele.

Gustavo Barchilon ressalta uma frase de Vera em resposta a Léo, sobre o seu maior arrependimento: “Eu percebo o Luiz Fernando emocionado nesse momento porque ele deve se reconhecer transformado pela felicidade trazida pelos filhos”.

Ponto a Ponto – 4000 Milhas

Teatro B32.

Av. Brigadeiro Faria Lima, 3.732.

6ª e sáb., 20h30. Dom., 19h.

R$ 60 / R$ 140.

Até 21/8

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Dirceu Alves Jr., especial para o Estadão
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