sexta-feira, 19 agosto, 2022
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‘Tempo Feliz’ revê bastidores do selo que lançou obras emblemáticas da MPB

Para quem gosta de música, os bastidores de uma gravadora – e da gravação de discos – são um terreno fértil para colher informações, confrontar versões e desfazer mitos. Afinal, foram em seus escritórios, corredores e estúdios que muitos clássicos foram criados e registrados para ganharem o mundo. Garimpar uma informação nova, nem que seja o nome de um músico motivo de dúvida, é ouro puro.

Nesse sentido, o livro Tempo Feliz – A História da Gravadora Forma (Kuarup), do pesquisador musical e jornalista do Estadão Renato Vieira, que narra o curto período em que a companhia carioca existiu – de 1964 a 1967 -, abre um baú repleto de tesouros ao relatar uma iniciativa independente, embora não se usasse esse termo à época, que deixou um legado importante para a música brasileira e mundial.

Criada a partir do desejo de um fã de Frank Sinatra, Roberto Quartin (o sonhador e marqueteiro), um rapaz com severas crises de pânico que só se acalmava quando colocava um disco para rodar na vitrola, a Forma ganhou como sócio um arquiteto de família abastada, Wadi Gebara Netto (o administrador), capaz de injetar dinheiro na romântica empreitada de se lançar em um mercado dominado havia tempos pelas multinacionais.

De ouvidos atentos à efervescência cultural da época, os dois jovens abriram as portas da Forma para novos artistas que já começavam a se descolar da bossa nova. O primeiro lançamento foi o do pianista Eumir Deodato, interpretando canções de Tom Jobim. A mesma confiança ganhou Luís Carlos Vinhas que gravou Novas Estruturas. Ambos tinham pouco mais de 20 anos, assim como os dois sócios.

CINEMA NOVO

A Forma também abraçou o Cinema Novo de Glauber Rocha e Sérgio Ricardo ao lançar as trilhas sonoras de Deus e o Diabo na Terra do Sol e Esse Mundo É Meu. O teatro engajado foi contemplado com o disco que trazia a trilha de Liberdade, Liberdade, sucesso apresentado no Teatro de Arena com Nara Leão e Paulo Autran no elenco.

Inspirados pelos discos importados, Quartin e Gebara estabeleceram como padrão lançar álbuns de capas duplas – sempre ilustrados com desenhos ou imagens coloridas. Na parte interna do envoltório, textos de apresentação assinados por Jobim, Vinicius de Moraes, Cacá Diegues, Rocha, entre outros.

No livro, Vieira reproduz todos eles na íntegra, além das fichas técnicas. Eles precedem textos que contextualizam cada um dos 22 discos produzidos pela Forma. O autor ouviu quem participou ou esteve bem perto da maioria das gravações.

“Não é apenas um livro sobre uma gravadora, mas de um momento muito especial da cultura brasileira. A Forma captou tudo o que estava acontecendo, abriu espaço para os músicos”, pondera Vieira.

Essa “ousadia”, a grande virtude da Forma, tinha um custo. E ele era alto. “Na época, um disco do Roberto Carlos ou da Angela Maria custava 7 mil cruzeiros. Os feitos pela Forma custavam 11 mil. Não era um produto para as massas. A realidade brasileira foi cruel com a gravadora”, analisa Vieira.

O disco mais vendido foi Som Definitivo – Quarteto em Cy/Tamba Trio, de 1966, conjunto que fez sua estreia na Forma, dois anos antes: duas mil cópias. O de menor vendagem foi A Viagem, da dupla de músicos Dwike Mitchell e Willie Ruff: apenas 12 exemplares. “Gebara jamais se esqueceu desse número”, revela Vieira, que recebeu do empresário, morto em 2019, uma série de documentos da gravadora.

FIM DE UM SONHO

A conta nunca fechou e, um dia, o sonho acabou. Quartin deixou a sociedade. As enormes dívidas resultantes dos inúmeros empréstimos bancários que os sócios fizeram para manter o negócio de pé estavam todas em nome de Gebara. O acervo da Forma, de inestimável valor artístico, foi vendido para a CDB, que já distribuía seus discos. O dinheiro deu apenas para Gebara honrar suas obrigações com os credores.

A herança musical da Forma nunca foi devidamente trabalhada pela Universal Music, atual detentora dos direitos das obras. Mais de cinco décadas depois, alguns discos continuam raros, como o de estreia do violonista Chico Feitosa, que, como conta Vieira no livro, era um dos maiores discípulos de João Gilberto e ganhou texto de apresentação do escritor Millôr Fernandes.

Outros só saíram em CD na Europa e no Japão. A maioria nem está disponível nas plataformas digitais. “Espero que o livro incentive o resgate desses discos”, diz Vieira.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Danilo Casaletti, especial para o Estadão
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