quarta-feira, 29 junho, 2022
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‘Escrita Íntima’ reconta história de casal de pintores feita de arte e utopia

Amoroso de John Ford – desde que, ainda jovem, assistiu a uma retrospectiva de seus filmes na Cinemateca Portuguesa -, de Manoel de Oliveira e Max Ophuls, João Mário Grilo assina o outro biscoito fino já em cartaz no cinema. Escrita Íntima veio somar-se ao admirável Ilusões Perdidas, que Xavier Giannoli adaptou do romance de Balzac. Outro romance – epistolar. A história dos pintores Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes (ela, portuguesa, ele, húngaro), reconstituída por meio da correspondência entre ambos.

Uma bela história de resiliência urdida ao longo dos 55 anos de relacionamento entre os dois, atravessando os duros anos da 2ª Grande Guerra, e Arpad era judeu. De Paris ao Rio, muitas vezes em trânsito, tratando-se carinhosamente por Bicho e Bichinho, teceram uma espécie de utopia, feita de amor e arte.

“Nunca quis fazer um documentário tradicional, mas tecer um relato que levasse o espectador a querer saber mais sobre essas duas pessoas admiráveis. Estamos vivendo novos tempos sombrios. Meu filme talvez seja um convite para que o público construa a própria utopia.” Escrita Íntima estreou no início do mês, dia 2, em Portugal. Sete salas em todo o país, o que parece nada, mas representa bastante dado o perfil exigente e autoral do filme.

Só para efeito de comparação, o Tom Cruise, Top Gun – Maverick, entrou em mais de mil salas e faturou 2 milhões de espectadores no Brasil em dez dias. Em Portugal, são 147 salas. É um mercado menor, mas de muito prestígio. É comum, em junkets às quais o Brasil tem acesso limitado, ou nem tem acesso, encontrar vários jornalistas portugueses nas mesas de entrevistas com os talentos.

ARQUIVO

Numa entrevista por Zoom, Grilo conta que, na origem do projeto, está a exposição intitulada Escrita Íntima – como seu filme -, de 2014, acompanhada de um livro com a correspondência trocada pelos artistas entre 1932 e 1961. Ele explica sua fascinação pelo cinema de arquivo. Tece uma metáfora sensível. “É o sono, o cinema que está a dormir e é possível acordar.” Seu filme inicia-se pelas imagens de Vieira e Arpad já idosos, ele fazendo uso de uma bengala. Pertencem a Ma Femme Chamada Bicho, de José Álvaro Morais, de 1978, a quem Escrita Íntima está dedicado. Seguem-se as imagens de um cemitério, a lápide com os nomes dos dois. “É minha história de fantasmas”, define Grilo.

Grão-senhor do cinema português, Manoel de Oliveira morreu em 2015, aos 106 anos. Em 1956 e 1965, fez curtas como O Pintor e a Cidade e As Pinturas do Meu Irmão Júlio, que foram inspiradores para Grilo, não apenas pela questão da arte visual, mas pela palavra que sempre esteve no centro do cinema do grande autor. O formato epistolar pode evocar um filme que virou cult – Nunca Te Vi, Sempre Te Amei, de David Jones, de 1987, com Anne Bancroft e Anthony Hopkins, mas o diretor prefere citar uma obra-prima do romantismo de Max Ophüls, A Carta de Uma Desconhecida, de 1948, com Joan Fontaine e Louis Jourdan.

São referências e, em termos de cinema – de cinefilia -, das mais eruditas. Grilo não encerra a entrevista sem falar do aporte de Caio e Fabiano Gullane como coprodutores. “Foram mais do que parceiros, amigos. Amam o cinema e os autores, respeitam os formatos.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Luiz Carlos Merten, especial para o Estadão
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