sexta-feira, 24 junho, 2022
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Dira fala do desafio de ser Filó, a mulher ‘com a cara do Brasil’

Dira Paes lembra que estreou na Globo aos 21 anos – nasceu em 1969 – na novela cômica Araponga, com Tarcísio Meira. “Trabalhava de dia e de noite assistia a Pantanal na concorrente (a Manchete).” A primeira versão da novela de Benedito Ruy Barbosa é de 1990. Agora, uma nova versão está no ar, e na Globo. Aos 52 anos bem vividos e mais bela do que nunca – não há por que esconder a idade com tanta exuberância -, Dira faz a personagem Filó, mãe de Tadeu/José Loreto, o filho que teve com Zé Leôncio/Marcos Palmeira. “É uma mulher que tem a cara do Brasil. Filó representa o feminino aparentemente subjugado, mas é uma mulher forte, independente. O público percebe isso e a gente sente a repercussão. Tenho recebido muito carinho das pessoas nas ruas.”

A novela assinala seu reencontro com Palmeira, o ator com quem mais contracenou. Já foram tudo na ficção – irmãos, amigos, e, agora, um casal. No dia 19, estreia nos cinemas o longa Pureza, do brasiliense Renato Barbieri. O filme conta a história de Pureza Loyola, uma mãe que busca o filho que partiu para o garimpo e sumiu no mundo. Seguindo sua trilha, ela termina desbaratando uma rede que alicia jovens para o trabalho escravo. Dira lembra: “Era muito jovem, no Pará, quando me integrei aos movimentos sociais. Toda vida venho me batendo por questões humanas e ambientais. Já conhecia a luta de Pureza, que venceu o Nobel dos Direitos Humanos. Quando o Renato me chamou para fazer o filme e percebi seu comprometimento, entrei no projeto confiante de que faríamos um filme à altura de Pureza”.

Duas mulheres brasileiras fortes, guerreiras. Uma no Pantanal, a outra embrenhada na floresta. “Quando cheguei a Mato Grosso do Sul para as gravações de Pantanal, entendi imediatamente a essência da Filó. Depois, com a Pureza, foi a mesma coisa. Nas duas, encontrei essa força do feminino que me encanta expressar. E, nos dois trabalhos, temos a natureza de fundo. O Brasil tem sido criticado por violações da natureza que se agravaram neste governo. Quem ama este país tem de cuidar dele. É simples assim.”

NA FLORESTA

Renato Barbieri criou sua central de produção em Brasília. “A gente viajava hora e meia para chegar à locação, no coração da floresta. E o trabalho escravo que o filme do Renato denuncia é uma triste realidade. Não só na natureza. Temos visto domésticas sendo libertadas do trabalho escravo em condomínios urbanos. Uma dessas patroas chegou a dizer que considerava a pessoa que escravizava como sendo da família.”

Mãe de dois filhos – Inácio e Martim -, Dira diz que entende bem a luta dessas mulheres. “Minha realidade pode ser diferente, mas se ocorresse comigo o que houve com a Pureza eu também teria me embrenhado nesse Brasil profundo atrás de minhas crianças.”

MACHISMO

O machismo é outro tema que cala fundo em Dira. Está em Pantanal, em Pureza. “Respeito, igualdade, tudo isso é importante. Faz parte da construção da cidadania.” Além de Pureza, Renato Barbieri fez filmes como As Vidas de Maria e Cora Coralina – Todas as Vidas, sobre o feminino falsamente subjugado de que fala Dira, e também o documentário Servidão, uma tentativa de discutir a escravidão contemporânea no País. Pureza foi exibido em 34 festivais e ganhou 26 prêmios em 17 países, incluindo Rússia, China, México e Argentina.

A ligação de Dira Paes com a natureza não é só coisa de cinema. Ela estreou garota em A Floresta das Esmeraldas, que o diretor inglês John Boorman realizou no Pará, em 1985. Fez filmes, novelas. No começo da pandemia, isolou-se com o marido em um sítio no Estado do Rio. Ele é Pablo Baião, cameraman e diretor de fotografia. “Estávamos lá em família, como sempre fazemos quando não estamos trabalhando. O tempo foi passando e deu aquela coceira – Vamos fazer alguma coisa? Eu escrevi, dirigi e interpretei, ele fotografou. Chama-se Pasárgada, como no poema de Manuel Bandeira. Estamos buscando patrocínio para finalizar.”

Como Dira encara a direção? “Trabalhei com muita gente talentosa, na TV e no cinema. Aprendi muito observando os diretores nos sets. Com o Pablo na câmera, já tinha uma garantia de qualidade da imagem. Pasárgada é a nossa utopia, um refúgio, um lugar maravilhoso, onde só existe espaço para os prazeres da vida. A cultura do ódio é devastadora, o que necessitamos é de mais humanidade.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Luiz Carlos Merten, especial para o Estadão
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