segunda-feira, 27 junho, 2022
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‘O cinema tem morrido desde que nasceu’, diz Hazanavicius no Festival de Cannes

Michel Hazanavicius pode ter ganhado cinco Oscars com o simpático O Artista, incluindo filme e direção, e ter participado três vezes da competição em Cannes, mas não é um cineasta exatamente celebrado. Não chega, claro, a ser desprestigiado como Rémi (Romain Duris), o diretor de cinema e personagem principal de Final Cut ou Coupez! (“corte final” na tradução do inglês, “corta!”, na tradução do francês), comédia de zumbis que abriu, fora de competição, o 75º Festival de Cannes na noite desta terça-feira, 17.

“Estamos muito felizes, é muito especial. Estamos na edição 75, emergindo da pandemia. É o primeiro festival nos últimos três anos que se parece com um festival como estamos acostumados”, disse Hazanavicius na coletiva de imprensa, na manhã desta quarta-feira, 18. De fato, as máscaras são artigo raro nas salas de cinema e de coletivas. “Abrir o festival com meu filme alegre é estranho e uma grande honra ao mesmo tempo”, completou o diretor, que precisou trocar o título às vésperas de Cannes – de Z foi para Final Cut para evitar ambiguidade ou confusão com “a guerra de agressão contra a Ucrânia pelo governo russo”, segundo comunicado do festival.

Nesta adaptação francesa da produção japonesa de baixo orçamento Plano-Sequência dos Mortos (2017), de Shinichiro Ueda, Rémi dirige um filme sobre a filmagem de um filme de zumbis que é atacado por zumbis de verdade. Começa com um plano-sequência de cerca de 30 minutos, em que Rémi parece um diretor abusivo, que berra com sua atriz principal, Ava (Matilda Lutz), e aguenta os palpites de seu ator, Raphaël (Finnegan Oldfield). Nadia (Bérenice Bejo) é a maquiadora que tenta acalmar os ânimos.

“Vi muitas coisas pessoais nesta personagem”, explicou a atriz, que é casada com Hazanavicius. Ela jurou que originalmente não estaria no filme. “O Michel me disse que desta vez não íamos trabalhar juntos, porque eu era muito bonita para o papel. Eu rebati: Mas que pensamento é esse? Fiquei chateada”, contou. Foi só depois de o diretor ter covid-19, sendo muito bem cuidado pela sua mulher, que ela conseguiu convencê-lo, segundo disse.

Quem conseguir aguentar a meia hora inicial propositalmente ruim vai descobrir que nada é o que parece. Tem sua graça, mas aí Final Cut estica e repete as piadas até esgotá-las. Ao mesmo tempo, vira uma celebração do cinema, do fazer cinema e de quem faz cinema. “Eu acredito que o cinema tem morrido desde que nasceu”, disse Hazanavicius ao ser indagado sobre o estado do cinema.

“Sempre é nascimento e morte. Espero que o equilíbrio seja encontrado e haja espaço para a diversidade, que não sejam apenas blockbusters ou filmes de tragédias. É legal trazer um pouco de alegria para as pessoas.”

A comédia de zumbis, cheia de cenas escatológicas, aos poucos transforma-se também na história de um pai que quer dar orgulho à filha. Romy (Simone Hazanavicius, filha do diretor) sonha em ser como Lars Von Trier e usa camiseta que diz “Directed by Quentin Tarantino”. Seu pai não chega a ser nenhum dos dois. Nem Hazanavicius.

Com Final Cut, ele parece dizer que isso não importa, porque o resultado não importa. Que o que interessa é a jornada, a família que se forma ali naquelas semanas, enfrentando junta todas as dificuldades para fazer um filme. Como costuma dizer Quentin Tarantino em suas filmagens, quando pede outra tomada: “Por que vamos repetir? Porque AMAMOS fazer cinema!”.

Por essa celebração do cinema, dá para entender a escolha do filme para abrir Cannes – Final Cut foi retirado de Sundance quando o evento virou virtual, justamente por celebrar o cinema.

E ao mesmo tempo não dá. Porque tudo o que Cannes representa é que todos podemos amar o cinema e amar fazer cinema, mas que o resultado importa, sim.

Mariane Morisawa, especial para o Estadão
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