quarta-feira, 29 junho, 2022
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Livro revela as ‘Infinitas Faces’ do ator Roberto Cordovani

Em 7 de setembro de 1965, o Brasil já vivia sob a ditadura militar e iniciava processo de censura na arte e na educação brasileira. Neste cenário, então aos 9 anos, Roberto Cordovani decidiu dançar o Hino Nacional enrolado na bandeira do Brasil. O que na cabeça do garoto era tido como um ato patriótico foi lido pela diretoria do colégio onde estudava como ato de insubordinação, o que lhe rendeu uma suspensão.

Não muito mais velho, assistia às brigas entre os pais e as transformava em textos anotados em papel de pão que, na sua imaginação, viravam dramaturgia a ser encenada por seus bonecos. O futuro ator já se provava figura com dotes dramáticos, principalmente ao incentivar a mãe a expulsar o pai de casa, arrumar suas malas e levá-las para a casa da amante.

“Tudo isso foi fazendo com que eu enveredasse para o meio artístico sem saber que seria artista. Pensei que seria psicólogo. A minha autoestima veio da arte. Eu levei tristeza e ela me deu autoestima”, conta Cordovani, que reuniu essas e outras histórias como alguns dos pilares que sustentam Infinitas Faces – A Construção do Ator Roberto Cordovani, texto escrito em parceria com a roteirista Thalma Bertozzi.

“Não fizemos uma autobiografia, mas algo relacionado à maneira como construo personagens. Eu não queria fazer uma cartilha sobre como interpretar, porque cada um tem suas experiências, e meu livro está muito pautado em desilusões, é um trabalho de desconstrução do ator”, conceitua o artista, que se enxerga desde o início como uma figura que nada contra a maré.

“Achava o Brasil muito preconceituoso comigo, porque eu não era musculoso, não tinha pinta de galã, então a Europa me recebeu e, quando eu ganhei um prêmio em Londres falando em português, o Brasil voltou a olhar para mim e surgiram convites que tinham mais relação com minha linha de trabalho.”

Idealizado pouco antes do estouro da pandemia, ainda em 2021, o livro surgiu como uma proposta de Thalma Bertozzi, com quem o ator havia estabelecido relações ainda no início dos anos 2000, quando a roteirista, em parceria com Solange Castro Neves, desenvolvia um projeto de série para a Rede Globo sobre a atriz Greta Garbo, e queriam que Cordovani a interpretasse repetindo a performance de sucesso que tinha no teatro com seu hoje clássico Olhares de Perfil.

“Minha intenção foi aproveitar as Infinitas Faces de Cordovani para deixar uma mensagem positiva em relação à diversidade, tema tão em voga no momento em que vivemos. Creio que seja mais do que um livro. É um caminho para o ator, no qual os relatos não resultam em receitas para o sucesso imediato, mas em exemplos de uma construção em que o êxito é fruto do trabalho intenso e constante de quem soube aliar o talento com horas de ensaio”, conceitua Bertozzi.

Capacidade

Mais do que um guia sobre a técnica de interpretar, para Cordovani o que realmente move Infinitas Faces é a desilusão. “Ela me ajudou a me recolher, ser mais observador e separar o que é medíocre do que me interessa. Eu não sou um cara deprimido, mas a desilusão me levou a trilhar coisas e querer fazer, estudar mais, não ir tanto para a comédia fácil, e quando eu decidi falar sobre teatro não foi para falar de método, porque é uma mentira. Cada um interpreta o que pode, o que tem capacidade e o que tem de técnica.”

É essa capacidade moldada à base das desilusões que levaram o artista a interpretar personagens icônicos, como o escravocrata Sebastião Quirino na novela Novo Mundo, da Rede Globo, a icônica Myrna, de Nelson Rodrigues, no musical A Paixão Segundo Nelson, com canções de Zeca Baleiro, a Fraülein Elza, do romance Amar: Verbo Intransitivo, de Mário de Andrade, e a dançarina Isadora Duncan. Estas duas, inclusive, voltaram aos palcos ainda em março.

Semana de 22

Como celebração do centenário da Semana da Arte Moderna de 22, Cordovani assina a nova montagem da adaptação do livro de Andrade que estreou em 1982 e permaneceu em cartaz por cinco anos. Depois, em 2017 reestreou no Paraná e, neste 2022, ganha sua primeira remontagem em palcos paulistanos, onde cumpre temporada no Auditório da Biblioteca Mário de Andrade desde 7 de março e, simultaneamente, no Teatro West Plaza, desde o dia 11.

“É muito cansativo, são horas e horas de trabalho, mas eu faço tudo sempre com muita antecedência, então consegui ter um trabalho de rememorizar os textos, que é ainda mais difícil do que memorizá-los”, garante. Já Isadora Duncan – A Revolução na Dança volta aos palcos cinco anos após sua última temporada, em 2017. Na obra, Cordovani dá vida ao ícone da dança quase 30 anos após a primeira montagem da obra.

“Foi uma personagem que, assim como a Greta Garbo, me escolheu. Ela veio a mim numa regressão e eu sabia que deveria interpretá-la”, relembra o artista, que cumpre temporada desde o dia 12 de março no palco do mesmo Teatro West Plaza, em São Paulo.

Com a trajetória repleta de personagens icônicos, o ator, contudo, não aceitou interpretar uma em especial: a atriz Katherine Hepburn. O ator estrelaria a montagem de Tea at Five, sobre uma passagem da vida da atriz na Broadway, substituindo a temperamental e estelar Faye Dunaway. O projeto não foi para frente por um motivo muito simples: o ator não fala inglês. “Sempre fui muito corajoso, tenho uma objetividade que assusta as pessoas. Elas não gostam que a gente se exponha, elas se mantêm no superficial, e eu me exponho, mas só no que eu sei fazer.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Bruno Cavalcanti – especial para o Estadão
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