terça-feira, 28 junho, 2022
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Fernanda Feitosa: ‘Ainda falta arte brasileira nos museus de fora’

Após um hiato de três anos – marcado por adiamentos, uma edição virtual e outra mais enxuta, por causa das limitações impostas pela pandemia -, a SP-Arte volta ao Pavilhão da Bienal, nesta quarta, 6, em grande escala, reafirmando seu protagonismo em eventos do gênero no País. Além de exibir ao público a seleção preparada pelas 133 galerias participantes (32 delas de design), a Feira reúne ainda exposições solos, promove debates, serve de palco para o lançamento de publicações, sobretudo, dinamiza o circuito das artes na cidade antes e durante seus cinco dias de funcionamento.

Com quase duas décadas de existência, a SP-Arte se tornou uma espécie de termômetro do sistema de artes nacional, servindo ao mesmo tempo de agente catalisador e vitrine na produção nacional. Otimista em relação à retomada dos negócios e celebrando o fato de o mercado ter conseguido atravessar momentos críticos com o fechamento dos espaços em função da pandemia, o derretimento da imagem do País no exterior e o contexto desfavorável à cultura no Brasil, a fundadora e diretora da feira, Fernanda Feitosa, faz um balanço do papel da SP-Arte no circuito brasileiro, analisando os principais desafios do momento.

Como você vê essa trajetória de 18 anos de atuação da SP-Arte?

O Brasil não tinha ainda uma feira que unisse o moderno ao contemporâneo e acabamos trazendo não só os clientes tradicionais, mas pessoas mais jovens também. Passados alguns anos dizia-se: existe um mercado de arte antes da SP-Arte e outro depois da SP-Arte. Em 2015 ocupamos todo o Pavilhão da Bienal; em 2016 entramos com o setor de design; em 2017 passamos a nos autodenominar de Festival, já que tínhamos 200 eventos acontecendo naquela semana do evento.

Um aspecto ainda problemático desse setor é a falta de transparência. As feiras contribuem para tornar os negócios mais aparentes?

É uma pergunta complexa, porque tem muitas coisas a se levar em conta. Primeiro, não é só no Brasil que é opaco. Ele é global. É um setor mundial em que as informações circulam pouco, são núcleos fechados. Acho que a feira, ao colocar todos os agentes juntos, fomentou e possibilitou que as galerias trocassem de forma mais rápida e dinâmica os preços. A internet, neste caso, talvez tenha sido um pouco mais decisiva, tornando a informação mais disponível.

Você acha que a covid demonstrou a força dos negócios virtuais?

Num cenário covid, essa foi uma boa alternativa, mas não só. Todos concorremos com esse calendário extremamente pesado e estamos geograficamente longe, concorrendo com uma agenda muito cheia, com fuso horário, com deslocamento. O online para mim foi maravilhoso, aumentou muito. Quintuplicamos o número de visitas no online. A gente teve vendas no nosso Viewing Room para pessoas de Istambul, da Austrália, da Ásia, da América Latina. Pessoas que não viriam à feira.

As feiras, com seu interesse mercadológico, abafam um pouco o trabalho de curadoria, de reflexão?

Não, de forma nenhuma. São engrenagens diferentes de um motor único. Esse é um setor complexo, só que isso acontece em tempos diferentes. As galerias e as feiras são muito rápidas, o museu precisa filtrar. Tudo isso junto forma um círculo virtuoso. A SP-Arte é um festival. Ela é comercial sim, mas ela faz educativo, ela tem lançamento de livros… Você precisa formar público para acompanhar essa velocidade. E não tem melhor oportunidade para propiciar encontros e discussão de temas.

E quais são os temas de hoje?

Ao longo desses 18 anos muita coisa se manteve. A gente já falava: falta arte brasileira nos museus internacionais. E em 2022 dizemos o mesmo. A discussão sobre diversidade é um pouco mais recente. Mas está vindo à tona, por conta das questões raciais, de agressão, de violência, no mundo todo. Exige-se uma revisão de inserção de paridade de gênero, de raça. Você tem agora uma inserção de artistas indígenas, nossa bienal foi pródiga em trazer isso para o debate.

A tônica deste ano é mais uma coisa de reequilibrar, reequacionar essa volta ao presencial?

A gente tem uma estabilidade, o que nos permite propor aventuras. O Radar, por exemplo, é uma aventura muito querida nossa, a gente já estava querendo fazer isso em 2020, mas preferimos esperar a feira física. É um setor curado por nós com jovens artistas não representados por galerias, na esperança de que eles sejam ali incorporados. A gente também queria discutir arte e natureza, essa preocupação com arte e sustentabilidade tem aparecido em muitos trabalhos de artistas.

Houve uma redução da participação internacional por causa da pandemia?

Temos nove galerias estrangeiras, já chegamos a ter quase 40. Não é só covid. A gente tem o efeito Brasil. Nossa imagem foi destruída, nossa performance econômica não é a mesma. Isso atinge picos num país que tem discrepâncias econômicas enormes. No caso da feira ela perde o expositor estrangeiro. Fica barato para ele comprar aqui, mas o produto que ele vinha vender aqui quintuplicou de preço.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Maria Hirszman, especial para o Estadão
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