quarta-feira, 29 junho, 2022
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‘Gaslit’ explora nova dimensão para heróis e vilões do caso Watergate

Pela quantidade de filmes, séries e livros sobre o escândalo de Watergate, que forçou o presidente Richard Nixon à renúncia, era de se pensar que o assunto está esgotado. Ainda mais depois do clássico Todos os Homens do Presidente, dirigido por Alan J. Pakula e baseado no livro-reportagem de Bob Woodward e Carl Bernstein, interpretados no longa de 1976 por Dustin Hoffman e Robert Redford, respectivamente. Mas, como Estrelas Além do Tempo (2016) e Mrs. America (2020) já comprovaram, há sempre histórias e pontos de vista novos a serem explorados. E é isso que faz Gaslit, que estreou no domingo, 24, no serviço de streaming Starzplay.

“Eu sempre fui fascinado pela cultura em torno de Nixon”, disse Robbie Pickering, criador da minissérie em oito episódios, em entrevista ao Estadão. “Esse período é mítico, parece grandioso, cheio de heróis, como Woodward e Bernstein, contra um vilão, Nixon.” Ele esclareceu que ama Todos os Homens do Presidente. “Mas, quando você lê a história, percebe que tudo era bem mais mundano, burro, cheio de falhas. Ou seja, mais humano. Você se enxerga em muitos vilões e sente vergonha alheia de muitas das atitudes dos heróis.”

Há ainda os muitos personagens esquecidos pela história – em geral, mulheres e pessoas não brancas. Como Martha Mitchell (vivida na série por Julia Roberts), a mulher de John N. Mitchell (Sean Penn, sob incrível maquiagem), que era o “attorney general”, uma das funções mais importantes do governo americano. Martha, que era uma figura bastante conhecida, foi uma das primeiras a falar abertamente dos truques sujos empregados para a reeleição de Nixon. “Todos eles eram alcoólatras, mas Martha é que ficou com a fama. Então vamos falar por que isso aconteceu”, contou Pickering. “Um dos objetivos da minissérie é reexaminar essa mulher complicada, frustrante, heroica.”

Outro é o segurança Frank Mills (Patrick R. Walker), um jovem negro que teve a vida transformada por ter descoberto a invasão do Comitê do Partido Democrático pela equipe de Nixon. “A história sempre exalta os homens, especialmente os homens brancos, no caso dos Estados Unidos”, afirmou Pickering. “Tenho certeza de que em muitos escândalos, guerras e outros eventos, há inúmeras pessoas ignoradas, e isso é trágico.”

RESSIGNIFICADOS

Mas mesmo os homens brancos do caso Watergate são ressignificados. Por exemplo, o conselheiro do presidente, John Dean (Dan Stevens), que passou para a história como um herói, por ter admitido os crimes perante o Senado. “É importante saber que, antes de fazer a coisa certa, ele definitivamente fez coisas erradas”, observou Stevens. Em Gaslit, ganha importância sua relação com Mo (Betty Gilpin). “Para mim, a série é também a história de dois casamentos: dos Deans e dos Mitchells”, explicou Dan Stevens.

Gaslit vai fundo em mostrar o absurdo do plano. “Muitos eram idiotas. Eu acho que vale a pena trazer isso à tona”, garantiu Stevens. Um deles é G. Gordon Liddy (Shea Whigham), conselheiro financeiro do Comitê para Reeleição do Presidente, que bolou todo o plano de invasão do comitê adversário. “Eu não tinha interesse em contar de novo a história de Watergate”, informou Whigham. “Mas, aqui, é quase um filme dos irmãos Coen. Liddy e os outros não eram os gênios que imaginavam ser.”

É impossível assistir a Gaslit sem fazer associações com a atualidade – Dan Stevens viralizou comparando Nixon com o primeiro-ministro de seu país, Boris Johnson. “Há muitos governantes comprometidos, envolvidos em corrupção e em acobertamento e que se recusam a renunciar face a uma atividade criminal”, advertiu ele, tentando ser mais diplomático. A polarização e a guerra cultural de hoje começam com Nixon, na opinião de Pickering. Mas sua pergunta fundamental é outra. “Por que essas pessoas em torno de Nixon, Trump, Putin, Bolsonaro se submetem a isso, se sujam, sabendo que o sujeito é um traste que vai abandoná-los no primeiro sinal de problema? Por que alguém deixa de lado seus valores para alguém tão medíocre? É isso que queremos indagar na série.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Mariane Morisawa, especial para o Estadão
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