sábado, 2 julho, 2022
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Art Popular se reinventa em seu 20º álbum ‘Batuque de Magia’

O Art Popular está de trabalho novo. Batuque de Magia, o 20.º álbum do grupo nascido na zona norte de São Paulo, na metade dos anos 1980, traz 24 músicas – 23 inéditas e uma regravação. Considerando-se a forma de consumo da música atualmente, quando singles e EPs são mais comuns nas plataformas digitais, em uma estratégia chamada de “economia de atenção” – é preciso ser certeiro para fisgar o ouvinte com tempo limitado ou ávido pela próxima faixa – o projeto é ousado.

“Gostamos de provocar o mercado e os fãs. A maioria das pessoas não tem tempo de ouvir música inédita, dedicar uma hora do seu tempo para isso. O número de plays é o que satisfaz o ego de muita gente. Somos da cultura do LP, do cassete e do CD”, diz Leandro Lehart, de 50 anos, vocalista e compositor do grupo.

Apesar dessa visão, Lehart e seus companheiros de grupo não deram totalmente as costas para o mercado e, sobretudo, para seus seguidores. Batuque de Magia foi dividido em três partes temáticas, batizadas com nomes de instrumentos que simbolizam o samba tradicional. O álbum foi mixado em Dolby Atmos, tecnologia que imprime uma sonoridade espacial à música.

Para fazer essa divisão, eles levaram em conta a opinião de um grupo com mais de mil fãs no Telegram – prova de que o aplicativo pode ser usado de maneira muito mais produtiva do que ser meramente um propagador de fake news. Foram eles que sugeriram que os volumes fossem lançados como se fossem uma playlist, com músicas que trazem características rítmicas próximas.

O primeiro deles, que saiu em dezembro, recebeu o nome de Pandeiro e é dedicado ao partido-alto. O segundo, recém-lançado, é Cavaquinho, que se debruça no samba mais romântico. Por fim, pensado para chegar às plataformas em março, o Tan Tan vai trazer sambas de roda, mais acelerados.

Guardião

Lehart assina a produção do álbum com Milton Manhães, produtor que trabalhou com nomes como Elza Soares, Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal e Almir Guineto. Uma espécie de guardião de gênero, aos quase 80 anos de idade. “O Milton gosta muito de batucada. Tudo dele é batuque. Uma palavra que está em desuso e que trouxemos para o título do álbum”, explica Lehart. A escolha reflete na sonoridade. A faixa Ouro em Pó, do volume Cavaquinho, começa com um ijexá. “Ele (o ijexá) é um dos pais do samba. Com o tempo, os discos de samba ficaram caretas, perderam o batuque, suavizaram a percussão para poder tocar no rádio”, diz Lehart.

As novas canções transitam por diversos temas. Em Pandeiro, por exemplo, há a faixa Um Abraço Preto – com uma introdução característica da banda e uma citação do samba Sorriso Negro, sucesso de Dona Ivone Lara – que aborda uma questão bastante atual: o racismo. Lehart afirma que o samba tem essa possibilidade. Ser alegre e sério. Um refrão, de maneira sutil, pode trazer uma mensagem importante.

Lehart está feliz com a acolhida do projeto por antigos e novos seguidores – o primeiro volume obteve 400 mil plays em uma semana. Para ele, a banda conquista novos fãs por conta das regravações, como a que o cantor Thiaguinho fez de Temporal, de 1996, pagode de vertente romântica, aquele do refrão “você reclama do meu apogeu / e todo céu vai desabar”.

“Nós sobrevivemos ao sucesso e estamos aqui, hoje, produzindo novidades. De 150 bandas que surgiram nos anos 1990, dá para contar na mão as que conseguiram isso. Estamos orgulhosos. Não podemos viver dos hits e regravações. Quando um artista se reinventa, ele transforma sua vida em algo interessante, assim como fez Elza Soares”, garante.

Pagode 90

O samba feito nos anos 1990, que ficou conhecido como pagode romântico, com vocais mais melodiosos e influência do soul americano, e tinha, ao lado do Art Popular, bandas como Raça Negra, Só Pra Contrariar, Exaltasamba e Sorriso Maroto como principais representantes, foi, segundo Lehart, o melhor momento mercadológico do gênero.

“Nos anos 1970, alguns artistas venderam muito, como Benito de Paula, Beth Carvalho e Agepê, mas só a nossa turma conseguiu confrontar o sertanejo, que sempre foi o gênero mais comercial do País.”

Lehart, que foi líder de arrecadação de direitos autorais no fim dos anos 1990, é autor do hoje clássico Agamamou, sambalanço que conquistou Jorge Benjor. Fricote, que tinha toques de viola caipira, é outro hit da banda, que ficou conhecida para além dos temas românticos.

Muitos desses antigos sucessos viraram cult – o Art Popular tem show agendado para 26 de março, no Studio SP, no Baixo Augusta. Nem sempre foi assim. O Pagode 90 foi visto, muitas vezes, com preconceito. “Não guardo mágoas. Até entendo. A gente invadia a TV, com músicas extremamente populares, algumas com refrões pegajosos. Era chato. Mas atualmente os críticos reconhecem nosso valor. Para onde foi a música brasileira, não é? Nossa geração tinha poesia, identidade sonora”, reflete o músico.

Lehart atualmente ocupa o cargo de diretor do Centro Cultural São Paulo, um dos mais importantes equipamentos culturais da cidade, que completa 40 anos em 2022. O plano de Lehart é comemorar a data resgatando shows, peças e projetos visuais icônicos que passaram pelo espaço. D

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Danilo Casaletti, especial para o Estadão
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