sábado, 2 julho, 2022
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Com roteiro engenhoso, ‘Pequena Mamãe’ leva filha a viajar no tempo

Céline Sciamma faz pequenos grandes filmes. Explicando melhor: conta histórias intimistas, envolvendo poucas personagens, geralmente mulheres. Mas são filmes de grande densidade e inteligência. Ao longo de 15 anos, a partir de Lírios dÁgua, de 2007, ela cavou seu espaço no cinema francês e mundial. Lésbica assumida, faz filmes que discutem questões relevantes. Com Retrato de Uma Jovem em Chamas, venceu a Palme Queer e o prêmio de roteiro no Festival de Cannes de 2019. Seu novo filme, Pequena Mamãe, em cartaz nos cinemas, é uma joia rara.

Logo na abertura, uma garota, Nelly, despede-se das pacientes de um hospital geriátrico. Nelly vai sofrer porque acha que não se despediu corretamente da avó. Como poderia saber que ela ia morrer depois daquela visita? Céline conversa com o Estadão por Zoom. A entrevista é telefônica, através do laptop. Sem imagem. Até que ponto a história de Pequena Mamãe é pessoal, ou autobiográfica? “Possui elementos autobiográficos, e certamente é muito pessoal. Sempre fui muito ligada às avós, a casa do filme é totalmente inspirada na casa de uma delas”, conta. Na trama, Nelly, acompanhada pela mãe e pelo pai, vai à casa que pertencia à avó. Uma casa na floresta, ou mais exatamente, no bois, bosque.

Nelly ajuda a esvaziar as estantes, as gavetas, os armários. A mãe volta para a cidade, e Nelly permanece com o pai. Ela sai para um passeio no bosque. Encontra outra garota, Marion. É o nome de sua mãe. Estabelece-se uma relação complexa. De certa forma, Nelly identifica a própria mãe em Marion. “Sou sua filha, venho do caminho atrás de você”, diz. Céline tornou-se conhecida como roteirista, antes de virar diretora.

Escreveu para André Téchiné. O roteiro de Pequena Mamãe é o mais engenhoso que há. As duas meninas estabelecem uma relação de mãe e filha. O filme viaja ao passado sem flash-back, nem as máquinas de tempo a que Hollywood gosta de recorrer.

A diretora explica seu desejo de abordar a maternidade. “Em geral, só chegamos a entender nossos pais, ou mães, quando já somos adultos, e aí, na maioria das vezes, a vida seguiu e a tendência é deixar as coisas como estão. Só quando atingimos a idade de nossas mães entendemos suas escolhas, as pressões que sofreram. O sistema político, reprodutivo estabelece papéis contra os quais não é fácil rebelar-se. Muitas filhas, na idade adulta, repetem o que criticavam nas mães. A ficção fornece ferramentas, a viagem no tempo, mesmo sem artifício, permite criar um espaço de equidade.”

Nelly e Marion, as meninas, são interpretadas pelas gêmeas Josephine e Gabrielle Sanz, que Céline selecionou num casting. “Coloquei um anúncio, muitas garotas responderam. A semelhança não era o mais importante. Era mais uma questão de temperamento, de entenderem o que eu estava buscando.” Viajar no tempo, mesmo sem máquina, faz parte das convenções de gênero do cinema. Céline poderia citar Robert Zemeckis, De Volta para o Futuro, mas o clima mágico de seu filme tem mais a ver com o japonês Hayao Miyazaki, a quem muita gente a compara. O clima de conto de fadas, uma certa ideia de fantasmas – a avó, a mãe – passam, necessariamente, pelo bosque.

De um lado tem a casa de Nelly, de outro, a de Marion. “Esse bosque é o da minha infância. Brinquei muito por ali, criei amigos imaginários. Queria que esse bosque fosse muito real, e ao mesmo tempo tivesse uma dimensão mágica.” O repórter a cumprimenta. Ela certamente conseguiu seu objetivo. Todo o filme foi rigorosamente escrito, e Céline trabalhou muito com a equipe técnica, o elenco, para que as coisas saíssem como havia imaginado. Só uma cena foi improvisada. As meninas na cozinha, preparando panquecas.

“Essa cena é decisiva porque as meninas, via de regra, comportam-se como adultas, mãe e filha, e nesse momento lúdico elas podem agir como as crianças que são.” Céline reflete. “Se eu tivesse encontrado minha mãe criança, como seria nossa relação? Amigas, irmãs?” Conhecida por sua militância LGBT e contra o machismo na indústria, o que é o cinema para ela? “Gosto de contar histórias que sejam relevantes, mas não faço filmes de tese. As pessoas precisam se interessar pelas personagens para sentir o que pode estar errado no mundo.”

Luiz Carlos Merten, especial para o Estadão
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