domingo, 26 junho, 2022
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Mostra ‘Raio-Que-o-Parta’ retoma conceito de modernidade

Raio-que-o-parta é o nome pelo qual ficou conhecido um estilo arquitetônico encontrado nas fachadas de antigas casas da cidade de Belém, no Pará, caracterizado pela justaposição de cacos de azulejos para produzir desenhos geométricos, angulados e coloridos, que remetem a raios, setas e bumerangues. Livremente apropriado por todas as camadas da sociedade, o modismo não se restringiu às elites e, na década de 1950, já era aplicado indistintamente a várias construções locais, como forma de “modernizar” o que era considerado obsoleto.

Ao lançar um olhar sobre os conceitos de modernidade e território nacional, a mostra Raio-Que-o-Parta: Ficções do Moderno no Brasil, em cartaz até o dia 7 de agosto, na unidade 24 de Maio do Sesc, resolve retomar o conceito. Isso, em pleno centro histórico de São Paulo, a poucos passos do icônico Teatro Municipal – palco cênico, por excelência, dos eventos da Semana de Arte Moderna de 1922 -, e, tendo como sede um edifício de nítida linhagem modernista, que leva a assinatura do arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha, Pritzker de Arquitetura de 2006.

“Procuramos, fundamentalmente, mostrar ao público que arte moderna já era discutida por muitos artistas, intelectuais e instituições de norte a sul do País, e não apenas em São Paulo, marco histórico da Semana de 22”, argumenta Raphael Fonseca, um dos curadores da mostra, que, nesse sentido, se empenhou em reunir um acervo composto por obras provenientes de todas as regiões brasileiras. E ainda dentro de uma abordagem que contemplou diversos tipos de linguagens.

Transposta para a realidade de um País predominantemente rural e com uma natureza, exuberante mas, aos olhos de muitos à época, ainda indomável, foi profundo o impacto provocado pelo ideário modernista sobre a paisagem e o tecido social brasileiro, no período compreendido entre o final do século 19 e meados do 20. Mas, para além de uma abordagem cronológica, a curadoria de Raio-Que-o-Parta optou por conferir ao aspecto geográfico uma dimensão inédita.

Com a curadoria de um coletivo de pesquisadores – Aldrin Figueiredo, Clarissa Diniz, Divino Sobral, Marcelo Campos, Paula Ramos, Raphael Fonseca, além da consultoria de Fernanda Pitta -, a mostra integra o calendário de eventos Diversos 22 – Projetos, Memórias, Conexões, que celebra a centenária mostra paulistana, atualmente em curso na rede Sesc. Ao todo, são cerca de 600 obras de 200 artistas, como Lídia Baís, Mestre Zumba, Genaro de Carvalho, Anita Malfatti, Tomie Ohtake, Raimundo Cela, Pagu, Alberto da Veiga Guignard, Rubem Valentim, Tarsila do Amaral e Mestre Vitalino, entre outros nomes menos conhecidos.

Além de desenhos, pinturas e esculturas, o projeto incorpora uma extensa base documental, composta de fotografias, filmes de época, jornais e revistas ilustradas, maquetes, trilhas sonoras e documentários. Entre as curiosidades, peças de vestuário autênticas usadas por cangaceiros, serviços de mesa de prata que reproduzem motivos artesanais indígenas e até mesmo os adereços utilizados pelo mais célebre dos palhaços brasileiros, o Piolin, em suas apresentações circenses.

NÚCLEOS TEMÁTICOS

Dividida em quatro núcleos, a exposição faz alusão às múltiplas manifestações artísticas brasileiras. O primeiro deles, Deixa Falar, se refere à escola de samba de mesmo nome, criada no fim da década de 1920, no Rio de Janeiro, e coloca temas como identidade e empoderamento em destaque, por meio de obras de artistas afro-brasileiros, como Mestre Zumba, Agnaldo Manoel dos Santos e Wilson Tibério, além de Tomie Ohtake e Carybé.

O segundo, Centauros Iconoclastas, aponta para o grupo literário fundado no Recife, durante a década de 1920 e traz obras de Pagu, Lídia Baís, Aurora Cursino dos Santos, Tarsila do Amaral, Joaquim do Rego Monteiro, Moacir Andrade e Nelson Boeira Faedrich. Já no terceiro segmento, Eu Vou Reunir, Eu Vou Guarnecer, a ideia foi celebrar a liberdade, a partir de versos retirados de uma toada antiga do bumba meu boi, e em meio a obras de artistas como Djanira, Heitor dos Prazeres, Franklin Cascaes, Eros Volúsia, Rubem Valentim e Lasar Segal.

Por fim, Vândalos do Apocalipse faz alusão ao grupo literário formado por escritores paraenses, como Bruno de Menezes, Luiz Teixeira Gomes e Clóvis de Gusmão, que criticavam os parâmetros de progresso e desenvolvimento vigentes no País a partir de 1921. Neste núcleo, que retoma as discussões sobre a verdadeira identidade nacional brasileira, estão as obras de José Antônio da Silva, Hildegard Rosenthal, Alice Brill, Frei Cândido Penso, Branco e Silva, dentre outros.

BRASILIDADES

“Acredito que ampliar o raio de representação, indo além da linguagem pictórica, foi essencial para contextualizar a compreensão das muitas modernidades, não apenas de uma, unificadora, que se manifestaram no Brasil durante o período”, considera Fonseca. Já para o diretor do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda, a mostra vai além e reveste-se de um valor ainda maior, ao colocar em pauta não somente a Semana de Arte Moderna de 1922, mas também a Independência do Brasil em 1822, que terá seu bicentenário celebrado este ano.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Marcelo Gomes Lima, especial para o Estadão
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