Inteligência como arma - Vitória News
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Inteligência como arma
Publicado por Estadão Conteúdo

O que seria apenas uma frase de efeito logo se tornou premonição: se o jornal fosse independente, seria fechado - se não fosse fechado, era porque deixara de ser independente. Foi o que Millôr Fernandes escreveu em tom jocoso no primeiro número de O Pasquim, que chegou às bancas no dia 26 de junho de 1969. Nascia ali o mais subversivo dos tabloides nacionais, aquele que abriu uma brecha na imprensa ao utilizar a inteligência e o deboche como resistência à rigorosa censura imposta pelo regime militar.

Para festejar meio século de lançamento do jornal, o Sesc Ipiranga inaugura, na terça, 19, a exposição O Pasquim 50 Anos, com curadoria de Zélio Alves Pinto e Fernando Coelho dos Santos.

Trata-se de um conjunto de edições originais, além de fotos, livros e revistas que mostra como um time de craques (como Jaguar, Sérgio Cabral, Tarso de Castro, Claudius, Ziraldo, Fortuna, Henfil, Ivan Lessa, Paulo Francis, Luiz Carlos Maciel, Sérgio Augusto, além do próprio Millôr) confrontava o governo militar usando a escrita e o desenho como armas.

"O Pasquim foi único - não houve e ainda não há nada parecido, na forma, no conteúdo, no impacto, na insolência, na irresponsabilidade, e na absoluta e completa irreverência", comenta o curador Fernando Coelho dos Santos.

De fato, pressionada - como de resto toda a imprensa brasileira - pela censura imposta pelo AI-5, decretado no final de 1968, a equipe do Pasquim evitava o confronto direto e cutucava o governo militar pelo deboche na área dos costumes e da cultura.

Para constatar isso diretamente, o público poderá, além de visitar a exposição, ter acesso a todas as 1.072 edições que foram digitalizadas e estarão disponíveis, a partir de terça, no site da Biblioteca Nacional.

Em sua primeira fase, o tabloide trazia a fina flor do bairro carioca de Ipanema, a chamada "esquerda festiva", cuja escrita mais oralizada e o olhar jovial e escrachado para a vida surpreendiam semanalmente o leitor.

"Não foi só a linguagem que a patota do Pasquim mudou", observa Jaguar, na introdução de um dos volumes comemorativos lançado pela editora Desiderata, a partir de 2007. "As capas também. O nosso negócio era ser do contra. Contra a ditadura, contra as capas (não confundir com contracapas) e a linguagem solene dos jornalões no final dos anos 1960."

Os militares não gostaram da brincadeira e, em 1970, boa parte da redação foi presa. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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