Ultradireita em Portugal tem resultado aquém do esperado na eleição ao Parlamento Europeu

LISBOA, PORTUGAL (FOLHAPRESS) – O Chega, partido que representa a ultradireita em Portugal, foi o destaque negativo em seu campo político nas eleições para o Parlamento Europeu.

Enquanto o Reunião Nacional, liderado pela ultradireitista francesa Marine Le Pen, e o Irmãos da Itália, da primeira-ministra italiana Georgia Meloni, lideraram a votação em seus respectivos países, a sigla fundada por André Ventura elegeu apenas 2 dos 21 deputados dos quais Portugal tem direito -muito pouco para quem projetava um desempenho histórico no pleito.

“O Chega vinha numa crescente que parecia imparável”, diz o analista político Pedro Norton, que comentou as eleições para a RTP, emissora pública portuguesa.

Ele se refere ao fato de que o partido pulou de 12 para 50 deputados na Assembleia da República -o Parlamento português- entre as eleições locais de 2022 e 2024. “O fracasso nas [eleições] europeias terá consequências para um partido combativo como o Chega, que terá de abrandar o seu discurso.”

A campanha do Chega, forte nas redes sociais, baseava-se em dois eixos. De um lado havia o discurso anti-imigração, com o slogan “A Europa precisa de uma limpeza” e uma profusão de vídeos com mensagens xenófobas. De outro, postagens com pesquisas de opinião mostravam o partido em empate técnico com as duas principais forças de centro, o Partido Socialista e a Aliança Democrática.

De acordo com essas pesquisas, encomendadas pela própria sigla, o Chega elegeria ao menos 4 deputados, contra 6 de cada um dos dois partidos grandes portugueses. A legenda de ultradireita poderia chegar a ultrapassá-los se seus eleitores comparecessem às urnas em massa.

Ao final, os socialistas elegeram oito deputados, a Aliança Democrática sete -e o Chega ficou com dois, empatado com a Iniciativa Liberal, sigla de pouca história no campo da direita portuguesa.

“Admito que foi um resultado decepcionante diante do que ambicionávamos”, disse André Ventura em discurso após a abertura das urnas. O líder do Chega vinha investindo em conexões com outras siglas da ultradireita europeia para ganhar relevância continental.

O analista Pedro Norton aponta várias razões para o fracasso do Chega. Segundo ele, o eleitorado do partido se mobiliza pouco para questões europeias –e a imigração, tema central da campanha, ainda não é um assunto importante em Portugal, ao contrário do que ocorre na França e na Itália.

Além disso, nos primeiros meses de governo, o Chega votou em alguns temas ao lado do Partido Socialista, de centro-esquerda, o que desagradou seu eleitorado conservador.

A terceira razão é o que o Jorge Fernandes, cientista político português radicado em Madri, chama de “erro de casting”: a escolha de António Tânger Correa como primeiro candidato da lista ao Parlamento Europeu. Numa entrevista, o ex-embaixador mencionou a existência de um “plano secreto” dos Estados Unidos para ajudar Portugal. Ventura, líder do partido, disse desconhecer qualquer iniciativa nesse sentido.

Tânger Correa também foi acusado de antissemitismo ao dizer, em outra entrevista, que os judeus que trabalhavam nas Torres Gêmeas haviam sido avisados previamente dos atentados do 11 de Setembro de 2001 -e por isso muitos não teriam ido ao escritório na data. O caráter conspiratório do discurso atrapalhou o Chega.

Para Fernandes, que é pesquisador do Conselho Superior de Investigação Científica do governo espanhol, o partido de André Ventura também sofreu por problemas de timing. As eleições europeias deste ano foram muito próximas ao pleito legislativo português, ocorrido em março.

“O histórico mostra que partidos com componente de protesto atingem o auge quando as europeias ocorrem no meio do ciclo político”, diz Fernandes. “O balão da mobilização antissistema foi descarregado em março.”

Dois fatos marcaram estas eleições para o Parlamento Europeu. De um lado, as forças de centro mantiveram a maioria das cadeiras -e, com isso, mudanças radicais se tornam improváveis. De outro, partidos da ultradireita ganharam musculatura para lutar por suas agendas no âmbito europeu, além de se fortalecerem em seus respectivos países.

Com o fracasso em Portugal, o Chega perdeu a oportunidade de surfar a onda.

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