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Trump chega à convenção do Partido Republicano como mártir após atentado

FolhaPress 14/07/2024 19:51

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - O ataque a tiros contra Donald Trump neste sábado (13) deve dar contornos heroicos à oficialização de sua candidatura na convenção nacional do Partido Republicano, que começa na segunda-feira (15).

Senac 16 de julho — Capa (rail)

A legenda deve aproveitar o evento para amplificar a narrativa de que o ex-presidente é perseguido politicamente e virar o jogo contra a estratégia de Joe Biden de acusá-lo de ser uma ameaça à democracia dos Estados Unidos.

Logo nas primeiras horas após o ataque, a campanha de Trump enviou uma mensagem clara do líder: "Eu nunca vou me render!". Na manhã deste domingo, um segundo texto, inteiramente em letras maiúsculas, dizia: "Não temam".

O discurso ecoa uma frase que, dita pelo ex-presidente há cerca de um ano, após ser acusado criminalmente pela primeira vez, hoje estampa uma das paredes do local onde acontecerá a convenção: "Eles não estão vindo atrás de mim. Eles estão vindo atrás de você... E eu estou apenas no caminho deles!".

"Os republicanos vão usar a convenção para argumentar que o país é violento e está desmoronando. Vão dizer que Trump é 'nosso grande líder', que ele quase foi martirizado, mas é muito forte", afirma à Folha Alex Keyssar, professor de história e política social na Universidade Harvard.

O evento partidário acontece em Milwaukee, no Wisconsin, estado-pêndulo em que a disputa com Biden está mais acirrada. A campanha de Trump já deixou claro que o ataque de sábado não alterou os planos do presidente de participar do evento. Entre republicanos, a mensagem é de união total em torno do seu indicado.

O contraste com Biden e a crise democrata não poderia ser maior --ou melhor para Trump.

Ex-estrategista de Barack Obama, David Axelrod vai na mesma linha de Keyssar. Em entrevista à CNN, o analista também disse que Trump será recebido como um mártir no evento, e que o clima pode ser tanto de mais raiva quanto de mais taciturno. "Mas com certeza a convenção não vai mais ser a mesma", completou.

Uma imagem compartilhada por Lara Trump, nora do empresário e co-diretora do Comitê Nacional Republicano, é ilustrativa. Nela, Jesus Cristo aparece atrás do candidato, ao lado de uma bandeira americana. "Não tema, porque eu estou com você", diz a frase que acompanha a publicação.

"Se [o tiro] tivesse sido [atingido] menos de 0,5 polegada [1,3 cm] para a direita, ele não teria sobrevivido", escreveu o governador do Texas, o republicano Greg Abbott, em seu perfil no X. "Trump é realmente abençoado."

A convenção vai até quinta (18), quando o candidato deve fazer o aguardado discurso em que aceita a nomeação. São esperadas cerca de 50 mil pessoas na cidade.

Serão quatro dias de exposição midiática intensa, cada um deles voltado para um eixo de campanha. Na segunda, o tema é "torne a América rica de novo"; na terça, "segura de novo"; na quarta, "forte de novo"; e, finalmente, na quinta, "torne a América ótima de novo" -o slogan de Trump cuja sigla em inglês batiza seus leais apoiadores, o movimento Maga.

SESC PICASSO

Já estava nos planos do partido aproveitar essa projeção para rebater a condenação de Trump na Justiça e os outros três processos criminais pendentes contra ele, reforçando a acusação, sem provas, de que o ex-presidente é alvo de perseguição por procuradores democratas que supostamente agem a mando de Biden.

A tentativa de assassinato potencializa esse discurso, servindo como argumento de que o empresário é uma vítima. Em meios conservadores, já circulam teorias da conspiração associando o atirador suspeito a democratas.

Seguindo esse mesmo raciocínio, nomes importantes do Partido Republicano já jogaram a culpa do ataque em Biden, afirmando que as acusações feitas pelo democrata de que Trump é uma ameaça à democracia impulsionaram a violência. Na última segunda (8), em um evento com doadores, o presidente disse que "é hora de colocar Trump no alvo" --frase que têm sido revivida pelos republicanos.

"Hoje não foi apenas um incidente isolado. A premissa central da campanha de Biden é que o presidente Donald Trump é um fascista autoritário que deve ser parado a todo custo. Essa retórica levou diretamente à tentativa de assassinato do presidente [sic] Trump", escreveu o senador J.D. Vance, de Ohio, um dos principais cotados para assumir a vice-presidência na chapa republicana.

"Por semanas, os líderes democratas têm alimentado uma histeria absurda de que a reeleição de Donald Trump seria o fim da democracia na América", disse o líder da maioria republicana na Câmara, Steve Scalise. "Claramente, já vimos lunáticos da extrema esquerda agirem com retórica violenta no passado. Essa retórica incendiária deve parar."

A campanha de Biden já suspendeu propagandas com ataques a Trump e, ao menos por ora, vai precisar repensar sua estratégia. A acusação de que o republicano é um risco para a democracia, considerando sua recusa em aceitar a derrota em 2020 e a invasão do Capitólio, é um carro-chefe da campanha democrata.

"Uma grande maioria dos americanos acredita que a oposição política doméstica quer destruir a democracia. Isso é o pior tipo de coisa que pode acontecer em um ambiente polarizado", avalia o analista político Ian Bremmer, fundador da Eurasia Group, consultoria de risco político dos EUA, em um vídeo postado no X.

CONTADOR - BONUS

São esperados 2.429 delegados no encontro, sendo que 2.265 são obrigados a votar em Trump por ele ter vencido as primárias em seus estados. Dos restantes, 104 podem escolher o candidato que quiser. Além deles, outros 97 deveriam votar em Nikki Haley por sua vitória nas prévias de seus respectivos estados, mas na semana passada a republicana já os liberou dessa obrigação e incentivou-os a votar no empresário.

A inclusão de Haley na programação foi feita após o ataque, em um gesto para demonstrar a união do partido. Além de Trump, os discursos previstos são os de aliados próximos do ex-presidente. A agenda inclui ainda uma sessão de autógrafos com Donald Trump Jr., filho do candidato. Melania, a esposa do ex-presidente, que tinha praticamente sumido da campanha, também deve participar da convenção.

A outra grande notícia será o anúncio do vice na chapa republicana. O escolhido deve fazer um discurso na quarta (17). Os três principais cotados são o governador da Dakota do Norte, Doug Burgum, e os senadores Marco Rubio e Vance.

Programa de governo mira imigrantes

O programa de governo elaborado por Trump, que deve ser aprovado durante a convenção, baseia-se na ideia de uma erosão do país. O documento, de apenas 16 páginas, é permeado de frases inteiras em letras maiúsculas e muitas exclamações, no estilo do empresário.

"Nós somos uma Nação em GRAVE DECLÍNIO. Nosso futuro, nossa identidade e nosso próprio estilo de vida estão sob ameaça como nunca antes", diz o texto, que tem como principal alvo imigrantes em situação irregular.

O controle da fronteira e a deportação em massa aparecem diversas vezes como soluções não só para coibir o fluxo, mas também para reduzir a inflação e a criminalidade -embora pesquisas mostrem que imigrantes contribuíram para segurar a alta de preços e têm uma taxa de encarceramento muito menor do que o restante dos americanos.

Para alcançar esses objetivos, o programa prevê o deslocamento de tropas americanas no exterior para a fronteira com o México, o término da construção do muro que separa os EUA do país, e a retomada das restrições à entrada nos EUA de cidadãos de países muçulmanos, chamados de "jihadistas" e "simpatizantes de jihadistas" no texto.

As 20 promessas incluem ainda construir um escudo de defesa antimísseis como o Domo de Ferro israelense sobre o território americano, retomar a exploração de petróleo em larga escala, acabar com regulamentações ambientais na indústria automobilística e mudar regras de votação, passando a exigir título de eleitor e eliminando o voto por correio.

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São previstos também cortes de impostos, imposição de tarifas para importação, incentivos à indústria, revogação de regulamentações de criptomoedas e inteligência artificial, criação de alternativas de qualificação ao curso universitário (não detalhadas) e a eliminação do Departamento de Educação.

Há ainda a promessa de criação de uma força-tarefa nacional para investir na discriminação contra cristãos.

No entanto, há uma quebra importante com a agenda conservadora: a posição em relação ao aborto. Em vez de condenar o procedimento, como feito em programas anteriores do partido, o texto defende que estados tenham autonomia para regulamentá-lo, e diz se opor apenas a abortos quando a gestação está perto do fim (fenômeno praticamente inexistente).

"Trump manobrou isso porque ele percebe o quanto uma tentativa de impor uma proibição nacional ao aborto seria impopular", diz o cientista político Gary Jacobson.

Perguntas e respostas sobre a convenção

Quando e onde acontece a convenção nacional republicana?

O encontro começa nesta segunda (15) e termina na quinta (18) em Milwaukee, a maior cidade de Wisconsin, estado localizado no norte dos EUA e em que a disputa está mais acirrada entre Trump e Biden.

Qual é a programação?

Na segunda, o tema é "torne a América rica de novo", na terça, "segura de novo", na quarta, "forte de novo" e, finalmente, na quinta, "torne a América ótima de novo". O vice de Trump deve fazer um discurso na quarta, e o ex-presidente, na quinta.

Há ainda uma série de eventos paralelos, como sessão de autógrafo de livros, cafés da manhã, almoços e jantares para networking patrocinados por diferentes organizações, exibição de filmes, festas e até um tour pelo museu da Harley Davidson.

A agenda completa pode ser acessada aqui.

O que faz uma convenção?

O evento é largamente simbólico. Ele serve para oficializar a chapa do partido à Presidência, confirmando o vitorioso das primárias estaduais. Há também a votação de um programa de governo, apresentado pela campanha.

Mas a principal relevância da convenção é a exposição que ela dá tanto ao candidato do partido quanto a outros nomes em ascensão, que batalham por um espaço para discursar. O evento recebe ampla cobertura da imprensa e atrai a atenção de um eleitorado mais amplo.

Quem participa da convenção?

São 2.429 delegados, que representam todos os estados e territórios americanos, além de políticos, familiares de Trump e outros nomes ligados ao ex-presidente e ao partido. Somam-se ainda centenas de jornalistas do mundo todo. A cidade espera receber, no total, 50 mil pessoas.

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