Tráfego de barcos, barqueiros encharcados e paciência para convencer resistentes marcam saga de resgate

PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) – Pela energia que domina o porto improvisado já se pressente o desafio de quem sai para o mar de água doce. Na confluência entre as avenidas Benjamin Constant e Cairu, sob o viaduto José Eduardo Utzig, zona norte de Porto Alegre, foi montado um dos vários pontos de partida e chegada de embarcações para resgatar pessoas e animais que ainda estão ilhados.

Naquela região, bairros como Navegantes, Humaitá e Farrapos, próximos ao aeroporto Salgado Filho e à Arena do Grêmio, continuam completamente submersos pelo transbordamento dos rios Jacuí e Gravataí, que circundam a vizinhança.

Num vaivém frenético, pilotos, socorristas da defesa civil, forças de segurança e voluntários de todos os tipos se misturam para recepcionar os resgatados. O caos aparente é domado por coordenadores com megafones. “Fabiano que saiu da água agora: seu gato se encontra aqui na área Vet”, grita um deles.

“Pessoal da alimentação: chegando reforço de marmita”, e um grupo de voluntários irrompe com dezenas de quentinhas. Outro carrega galões de água. Dirigem-se a tendas onde os resgatados também encontrarão cobertores, café, frutas e biscoitos.

Os do megafone aproveitam para dar uma força moral a todos. “Nós estamos fazendo um trabalho ótimo, vamos continuar assim.”

Na tarde da última quinta (9), a reportagem da Folha embarcou em uma dessas expedições, sob a condução de Jader Appelt, 31 anos, advogado, servidor público estadual e pescador. No último sábado, quando a tragédia das enchentes se agravou, ele decidiu dar uma função humanitária ao seu barco de alumínio de 5 metros, com motor de 15 cavalos e capacidade para até dez pessoas, que até então usava apenas para pescarias amadoras.

Depois de deixar a Cairu, o barco vira à direita no rio sobre a avenida Farrapos, outrora moradia de grã-finos, há anos em processo de degradação –uma feiura agora encoberta pelas águas, deixando à mostra só nesgas de tetos de automóveis e cocurutos de placas. A profundidade ali é de aproximadamente 1,50 m; em alguns pontos na região, supera os 3 m, com a água encobrindo telhados.

Um homem passa deslizando numa boia infantil. O trânsito de barcos, botes e motos aquáticas é intenso. São dezenas deles rasgando a região. Quando se cruzam, trocam palavras de incentivo ou pedem para o outro ir mais devagar –a marola balança todos e dificulta tudo. As lanchas são as maiores produtoras de marolas.

Algumas embarcações levam policiais com metralhadoras. Depois de uma série de assaltos aquáticos nos primeiros dias, e do rumor de que ladrões levaram armamentos de uma delegacia submersa da região, o policiamento foi reforçado, e há barqueiros que saem armados por conta própria.

Como a maioria da frota é de barcos pequenos, tão inevitável quanto as marolas é a molhadeira. Por mais que se vista galochas, desde o embarque o cuidado se mostra quase inócuo, e logo os pés de todos a bordo estarão encharcados pela água marrom que cobre tudo –com sorte, só os pés, porque em geral os resgatadores ficam ensopados dos pés à cabeça.

Da Farrapos o barco segue pelo rio da avenida A.J. Renner, em direção a um conjunto residencial onde, o piloto Appelt foi avisado, haveria uma família querendo ser resgatada. O verbo não é um detalhe, porque muitos dos que restaram nas casas se negam a sair.

Pouco antes de chegar à Arena do Grêmio, viramos à direita na rua/rio Bonifácio Nunes para acessar o endereço onde estariam ilhadas mulheres e crianças, num igarapé sobre a rua Max Juniman. Appelt recebe os pedidos de ajuda via grupos de mensagens de aplicativo ou rede social, com a ajuda de amigos –ele mostra no celular 1.750 mensagens recebidas nas últimas horas.

O condomínio de prédios baixos e simples estilo “caixote” virou quase fantasma. Todos os carros no estacionamento estão submersos. No local, grita-se “resgate?”, como fazem os ocupantes dos barcos de salvamento circulam pelos edifícios ilhados –alguns recorrem a apitos. Ninguém responde de volta. Quem permanece é porque quer ficar.

No terceiro e último andar de um dos prédios, um homem observa o movimento. Por que insiste em continuar ali –a pergunta é feita aos berros pela reportagem para poder ser ouvida. “Estou cuidando de todo o prédio, não posso sair”, responde, também gritando, o solitário –Roni Correa, caminhoneiro. Diz que o resto da família está em abrigos e que a cada dois dias amigos lhe trazem água e comida. Insiste em ficar por achar que podem roubar? “Positivo. Acho não, tenho certeza.”

De volta ao rio da avenida Clóvis Paim Grivot em direção à arena do Grêmio. A informação de que toda a energia da região foi desligada ameniza a agonia de passar rente a postes e fios de eletricidade. Outros obstáculos e riscos estão por toda a parte. Já no segundo dia, a proa do barco de Appelt bateu num contêiner, abrindo um rombo no casco –ele improvisou uma gambiarra para voltar à terra sem naufragar. Uma das três hélices do motor também estragou. No dia seguinte, o advogado revestiu o buraco com uma manta asfáltica, e passou a navegar só com duas hélices.

Em seis dias, Appelt calcula ter resgatado ou ajudado a resgatar mais de 200 pessoas e número semelhante de animais. O caso que mais lhe comoveu foi o de uma senhora de 83, nascida portanto em 1941, o ano da lendária grande cheia de Porto Alegre, que por toda a vida dela foi a maior da história da cidade –até ser superada pela atual. “Ela usava muletas. Disse que ia ter de recomeçar a vida do zero aos 83”, relata.

O barqueiro diz que tem dormido pouco e mal, pois chega em casa agitado e demora muito para conseguir pegar no sono. Mora em Morro Santana, a quase 15 km do porto improvisado na avenida Cairu, e todo dia leva e traz o barco, iniciando os resgates às 7h30.

Conta que, nos primeiros dias, a demanda para salvar pessoas foi muito maior. Agora resgata mais animais, muitos deixados nas casas por quem fugiu da água às pressas. Por isso, leva consigo no barco sacos de ração para cães e gatos e caixas de plástico para transportá-los, tudo fruto de doações –além de um machado, que às vezes auxilia a arrombar portas e janelas.

“Já me ofereceram dinheiro para resgatar alguém, e teve até uns que, sem querer sair de casa, quiseram me pagar para eu ir buscar cigarros”, diz Appelt.

Na rua/rio Cecília Oliveira Costa, ao lado da Arena do Grêmio, dois outros barcos tentam resgatar cachorros na laje de uma casa. Appelt encosta em auxílio. Também tripulante da embarcação onde está a reportagem, Ruy Araújo –coordenador comercial do Ifood em Porto Alegre que ajuda uma ONG para cães e tem atuado como voluntário nos resgates–, desembarca para ajudar.

Duas caixas de transporte são dadas ao grupo que iniciou o trabalho, e ao final, quatro cães são salvos, inclusive um que latia muito agitado e resistiu a partir.

De volta ao leito principal dos rios sobre as avenidas A.J Renner e Farrapos, uma entrada num prédio localizado nesta última que, ligeiramente elevado, não alagou. É uma carcaça de concreto e vidro onde um dia funcionou a empresa de ônibus Unesul. Abandonada, foi ocupada por moradores da região em fuga das enchentes.

Há várias famílias lá dentro, inclusive crianças, e um grupo de resgate que já estava no local informa que são arredios ao contato. Já recusaram várias vezes ofertas de diferentes equipes para irem a abrigos, e algumas abordagens foram violentas, daí a desconfiança.

Duas médicas voluntárias vão na frente conversar com as mulheres da ocupação. No grupo de resgate também há uma policial civil identificada e armada, que aguarda do lado de fora o desfecho da abordagem, junto com uma equipe de mais 13 pessoas.

A expectativa aumenta porque são quase 17h, a luz do dia vai diminuindo, e a orientação é para que não se realizem resgates à noite. Um homem sai do interior do prédio, mas não quer conversa. Mais dez minutos e outro sai, mais amigável. Diz que a negociação com as médicas continua. Os ocupantes resistem a sair porque não querem ir para abrigos, argumenta. Ouviram histórias ruins sobre o convívio nesses locais, e lá na carcaça estão todos juntos –são vizinhos pobres e remediados do bairro Humaitá.

“Até o Exército já tentou nos tirar”, diz Carlos, o mais amigável. Conta que lá dentro há 30 pessoas, 22 adultos e 8 crianças –chegou a ter quase 200. Estão fazendo naquele fim de tarde um churrasco improvisado, e enfim convidam o grupo de resgate a entrar.

Com mais conversa, e o acordo de que o grupo não será separado e todos serão alojados num mesmo abrigo, os ocupantes aceitam deixar a carcaça. Arrumam suas coisas a toque de caixa, já que logo anoitecerá.

Num dos quartos improvisados no primeiro andar, um homem faz sua pequena mala rota. É Ari Garcia, 58, pedreiro desempregado. Tem as pernas alquebradas pela queda de um andaime anos atrás. Em 2019, deu entrada no pedido de aposentadoria por invalidez e ainda aguarda.

Natural de Santo Augusto, interior do RS, morava com parentes em casas de madeira próximas umas da outras ali perto. Os outros foram para abrigos, ele não quis. Está saindo a contragosto. “Por mim não iria. Não queria ficar longe de minha casa. Estava bem aqui, só faltava mais alimento e água potável. Como todo mundo vai, não vou ficar sozinho”, diz, resignado. O mesmo pensa Roberto Gonçalves da Rocha, 56, reciclador desempregado que perdeu um pulmão após uma tuberculose e se queixa de falta de ar.

Acabam sendo os primeiros a entrar nos barcos –que, durante a negociação, se multiplicaram para conseguir conduzir tanta gente: agora são 11, além de três motos aquáticas. As trouxas do grupo são carregadas com ajuda dos voluntários.

Ao poucos, todos deixam a carcaça, com os últimos raios de sol.

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