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Time chama Venezuela de nova colônia americana

Vitória News 17/08/2026 10:01
Time chama Venezuela de nova colônia americana
Imagem gerada por IA/VN

A revista norte-americana Time dedica sua edição de 17 de agosto de 2026 a uma longa reportagem sobre a transformação política e econômica da Venezuela após a queda de Nicolás Maduro. Com o título de capa “The Venezuela Experiment” — “O Experimento Venezuela”, a publicação coloca Delcy Rodríguez no centro de uma relação tão improvável quanto controversa com o governo de Donald Trump.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

No interior da revista, o tom é ainda mais contundente. A reportagem assinada pelo jornalista Eric Cortellessa recebe o título “The New U.S. Colony”, ou “A Nova Colônia Americana”, acompanhado da chamada que procura resumir a tese da publicação: como uma ditadura socialista teria se transformado em uma espécie de protetorado dos Estados Unidos.

A personagem principal da história é Delcy Rodríguez. Ex-integrante do núcleo duro do chavismo, antiga ministra das Relações Exteriores, vice-presidente de Maduro e uma das figuras mais conhecidas do regime venezuelano, ela aparece agora, segundo a Time, como administradora de uma inédita aproximação com Washington. A revista afirma que Rodríguez mantém contatos frequentes com Donald Trump e com o secretário de Estado Marco Rubio e que, em troca do apoio norte-americano, teria concedido aos Estados Unidos enorme influência sobre os destinos econômicos e políticos do país.

É justamente aí que está o aspecto mais provocador da reportagem. A Time não descreve simplesmente uma normalização diplomática entre dois países que passaram décadas em permanente confronto. Vai muito além. Segundo a publicação, Washington passou a exercer influência sobre receitas petrolíferas, investimentos, finanças públicas e até decisões internas do governo venezuelano. Marco Rubio e Delcy Rodríguez, diz a matéria, estariam em contato quase diário por telefone e WhatsApp.

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A reportagem chega a citar James Story, ex-embaixador norte-americano para a Venezuela, que descreve um modelo no qual o governo de Rodríguez permanece formalmente no poder enquanto executa prioridades estratégicas estabelecidas pelos Estados Unidos. Na interpretação construída pela revista, Caracas conserva os símbolos da soberania, mas Washington ganhou um poder de influência que seria difícil imaginar durante os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro.

O petróleo ocupa naturalmente o centro dessa nova arquitetura. A Time relata que empresas norte-americanas voltaram a olhar para o mercado venezuelano e cita ExxonMobil, ConocoPhillips, Halliburton e GE Vernova entre os grupos que retornaram ao país ou passaram a negociar investimentos. Voos comerciais entre Estados Unidos e Venezuela também teriam sido retomados, enquanto executivos, diplomatas e investidores voltaram a frequentar hotéis e reuniões em Caracas.

O acordo descrito pela revista seria ainda mais amplo. Parte significativa das receitas das exportações venezuelanas de petróleo passaria por um sistema semelhante a uma conta de garantia, com Washington liberando recursos à medida que Caracas cumprisse determinadas condições. Na prática, seria uma troca bastante objetiva: estabilidade política para Delcy Rodríguez, investimentos norte-americanos e abertura econômica de um lado; acesso ao petróleo, supervisão financeira e realinhamento geopolítico do outro.

A relação também avançaria para a área de segurança. Segundo a publicação, Venezuela e Estados Unidos passaram a cooperar em inteligência e combate ao narcotráfico. Um dos episódios citados é a operação contra Niño Guerrero, apontado como líder do Tren de Aragua. Delcy Rodríguez afirma à revista que seu governo forneceu informações e mobilizou forças venezuelanas para uma ação conjunta.

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O curioso é que essa profunda mudança não significa, pelo menos até agora, uma ruptura completa com o chavismo. Delcy Rodríguez continua sendo uma personagem formada dentro do próprio sistema que governou a Venezuela durante décadas. Filha de uma tradicional família de esquerda, cresceu politicamente sob a influência chavista, ocupou funções importantes durante o governo Maduro e foi uma das mais duras críticas das sanções norte-americanas.

A Time apresenta justamente essa contradição como um dos elementos mais fascinantes da história. A dirigente que durante anos ajudou a aprofundar relações com Rússia, China, Irã e Cuba agora conduz a reaproximação com os Estados Unidos e procura atrair capital americano para reconstruir setores fundamentais da economia venezuelana.

Mas a abertura econômica não veio acompanhada, na mesma velocidade, de uma abertura política. A revista observa que ainda existem poucos sinais de que a Venezuela esteja caminhando rapidamente para eleições livres e competitivas. Questionada sobre quando o país voltaria às urnas em condições efetivamente abertas, Rodríguez respondeu que isso ocorrerá “quando estiver pronto”, evitando estabelecer prazos.

O mesmo ocorre quando é perguntada sobre María Corina Machado. Delcy Rodríguez não confirma se permitiria que a principal liderança oposicionista retornasse e disputasse uma eleição presidencial. Pressionada pelo jornalista, prefere falar em uma futura “nova era política” e na necessidade de convivência pacífica.

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Machado, por sua vez, faz uma leitura bem menos generosa da transformação venezuelana. Segundo a reportagem, ela acusa Rodríguez de ter cedido às exigências de Washington para preservar o próprio poder e questiona qualquer tentativa de reconstrução econômica que não seja acompanhada de legitimidade política e garantias democráticas.

A reportagem da Time termina deixando uma pergunta que talvez seja maior do que a própria experiência venezuelana: até onde pode ir uma política externa baseada essencialmente em pressão, negócios, petróleo e interesses estratégicos?

No retrato construído pela revista, Donald Trump conseguiu aquilo que durante anos pareceu improvável: afastar Caracas da órbita de Rússia, China e Cuba e aproximá-la de Washington sem substituir completamente a estrutura política chavista. Em vez de uma revolução democrática clássica, teria surgido uma acomodação pragmática — Delcy Rodríguez permanece no Palácio de Miraflores, empresas norte-americanas retornam ao país e os Estados Unidos passam a exercer influência direta sobre áreas estratégicas da economia.

A ironia histórica não poderia ser maior. Depois de décadas construindo sua identidade política na resistência aos Estados Unidos, a Venezuela descrita pela Time aparece agora muito mais próxima de Washington do que muitos governos latino-americanos tradicionalmente considerados aliados americanos.

A questão que permanece aberta é saber se essa experiência produzirá uma Venezuela economicamente reconstruída e politicamente democrática ou apenas substituirá uma dependência por outra.

É justamente essa dúvida que transforma a reportagem da Time em algo maior do que um simples perfil de Delcy Rodríguez. É uma análise de uma experiência geopolítica ainda em construção — e cujos resultados poderão alterar não apenas o futuro da Venezuela, mas o equilíbrio de forças de toda a América Latina.


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