Especialistas apontam que concentração do trabalho de cuidado, falta de autonomia econômica e dependência emocional podem dificultar o rompimento de relações abusivas
A responsabilidade pelo cuidado dos filhos, de familiares e pela organização da casa ainda recai de forma desproporcional sobre as mulheres no Brasil. Especialistas avaliam que essa sobrecarga, combinada à dependência financeira, psicológica e emocional, pode aumentar a vulnerabilidade à violência doméstica e dificultar o rompimento de relações abusivas.
A discussão ganha destaque no momento em que a Lei Maria da Penha completa 20 anos. Além dos mecanismos jurídicos de proteção, especialistas defendem que o enfrentamento à violência de gênero também depende de políticas capazes de ampliar a autonomia econômica e dividir de maneira mais equilibrada as responsabilidades de cuidado.
Dados da Pnad Contínua mostram a dimensão da diferença. As mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e aos cuidados de outras pessoas, enquanto os homens gastam 11,7 horas nessas atividades.
Para a especialista em políticas de cuidado Thamires da Silva Ribeiro, a concentração dessas tarefas pode manter muitas mulheres por períodos maiores dentro de casa e reduzir oportunidades de trabalho, formação profissional, geração de renda e convivência social.
Segundo ela, a falta de autonomia financeira pode tornar mais difícil deixar uma situação de violência, especialmente quando a mulher depende economicamente do companheiro ou não dispõe de uma rede de apoio capaz de ajudá-la no cuidado dos filhos e de outros familiares.
A especialista também chama atenção para as desigualdades que atingem de forma mais intensa as mulheres negras, historicamente mais presentes em atividades de cuidado e mais expostas a diferentes formas de vulnerabilidade econômica e social.
A criação da Política Nacional de Cuidados, em 2024, é apontada como uma tentativa de ampliar a corresponsabilidade entre famílias, sociedade e poder público. A avaliação é que creches, serviços destinados a idosos, estruturas de acolhimento e outras políticas podem ajudar a diminuir a carga concentrada sobre as mulheres.
A especialista em geriatria e gerontologia Christine Silveira Abdalla destaca que muitas mulheres abandonam empregos, estudos e atividades sociais para assumir integralmente responsabilidades familiares. Essa interrupção pode afetar tanto a renda imediata quanto a capacidade de construir independência financeira no futuro.
Os números da violência reforçam a preocupação. Em 2025, o Brasil contabilizou 1.571 vítimas de feminicídio, aumento de 4% em relação ao ano anterior e média superior a quatro casos por dia. Oito em cada dez crimes foram cometidos por parceiros ou ex-parceiros.
Também foram registrados 286,3 mil casos de agressão doméstica e 788,6 mil ocorrências de ameaça. Os episódios de descumprimento de medidas protetivas chegaram a 132 mil, crescimento de 16,7%.
A dependência financeira, porém, não é determinada apenas pelo valor da renda. A advogada e professora universitária Marilha Boldt observa que uma mulher pode ter salário próprio e, ainda assim, não possuir autonomia sobre o dinheiro da família ou acreditar que não conseguiria manter a própria vida sem o companheiro.
A violência psicológica também pode enfraquecer a percepção de autonomia. Humilhações, controle e desvalorização frequentes podem fazer com que vítimas passem a duvidar da própria capacidade de sair da relação ou reorganizar a vida de forma independente.
Outro obstáculo apontado por especialistas é a pressão social para que as mulheres preservem relacionamentos e assumam simultaneamente as responsabilidades pela casa, pelos filhos, pelo companheiro e pelo trabalho fora do ambiente doméstico.
Nesse cenário, o enfrentamento à violência exige uma rede que vá além da punição do agressor. A ampliação do acesso à renda, à educação, ao emprego, aos serviços públicos de cuidado e ao acolhimento especializado é considerada fundamental para oferecer condições concretas para que mulheres possam reconstruir suas vidas.
Aos 20 anos, a Lei Maria da Penha permanece como uma das principais ferramentas de proteção às mulheres no país. O desafio destacado por especialistas é fazer com que os mecanismos legais sejam acompanhados de políticas sociais e econômicas capazes de reduzir as dependências que, muitas vezes, dificultam o rompimento do ciclo de violência.