Série sobre Anderson Silva retrata racismo e importância da base familiar

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Não costuma ser assim, mas, desta vez, Tatiana Tibúrcio e Seu Jorge puderam se dedicar exclusivamente à interpretação dos personagens em seu mais recente trabalho, a série Anderson Spider Silva.

Como atores negros, na maioria das vezes, além da atuação, eles precisam se preocupar com a forma como seus papéis são criados para evitar a reprodução de estereótipos e de falas racistas.

Na obra que apresenta a vida do lutador, desde a infância em Curitiba até ele se transformar em um dos maiores nomes mundiais do MMA (da sigla em inglês mixed marcial arts, ou artes marciais mistas), essa preocupação ficou a cargo de Deborah Medeiros, diretora de diversidade e inclusão, e sua assistente, Delza Santos.

“A presença dessas profissionais é fundamental para nos aliviar dessa função”, disse Tatiana à Folha. Trata-se, segundo a atriz com mais de 20 anos de carreira, de uma introdução recente no audiovisual brasileiro. “Enquanto atores negros, antes a gente tinha que ser ator, artista, psicólogo, orientador, palestrante…”

Coube a Debohah e a Delza o trabalho de revisar o roteiro e as cenas para que a série conseguisse passar a mensagem desejada por seus criadores, sobre como a base familiar foi importante para Anderson Silva aprender a lidar com o racismo ao mesmo tempo em que lutava por seus objetivos.

Há diversos trechos na série em que isso fica bastante perceptível, como nos diálogos entre Anderson, na adolescência vivido pelo ator Bruno Vinicius e na fase adulta por William Nascimento, e seus tios Edith e Benedito, personagens interpretados por Tatiana e Seu Jorge.

Em um momento marcante da vida do lutador, quando sua prima Sandra, interpretada por Jeniffer Dias, é agredida pouco antes de apresentar um trabalho na escola, Anderson expressa sua vontade de deixar o local para revidar o ataque depois. Edith o convence a lidar com a situação de outra forma.

“Atacaram um de nós, Anderson, e, quando isso, acontece atacam a todos. E a gente enfrenta isso como? Fugindo? Não, meu filho. A gente tem que enfrentar isso de frente. Juntos. Porque ninguém nessa família luta só”, diz ela na cena.

A fala é um dos exemplos de lições que Anderson aprendeu na vida e que ele agora tenta transmitir por meio da série. “Minha tia sempre foi muito incisiva em nos educar da maneira correta. Ela falava: ‘Você é um menino negro que tem todos os direitos que um menino branco tem’. Respeite a todos, mas exija que as pessoas te respeitem”, afirmou o lutador.

“Ela falava com conhecimento de causa. Quando o nosso povo começa a adquirir conhecimento de causa e entender onde é o lugar dele, começa a se portar de maneira diferente”, acrescentou.

Para Tatiana, o sucesso do campeão é resultado direto da base familiar. “Esse sujeito só é o que é porque por causa dos que o cercam. Com todos aqueles que vieram antes dele”, disse.

“Antes, nós [pessoas negras] éramos retratados como se fôssemos filhos de chocadeira. Como se não tivesse ascendência, descendência, um brinquedo artificial, que surgiu do nada. [Mas o Anderson] tem família, orgulho, retidão, um princípio de dignidade e uma consciência de coletividade.”

A ideia de que o lutador, dono de um cartel de 17 vitórias e dez defesas de título consecutivas ao longo de uma década no UFC (Ultimate Fighting Championship), não luta sozinho é permeada ao longo dos cinco capítulos da série, produzida pela plataforma Paramount+ em parceria com a Pródigo Filmes e lançada neste mês.

O tio Benito, por exemplo, é quem o ensina a ter disciplina. “Esse tio acredita na disciplina, acredita na seriedade, acredita no trabalho duro. Ele acredita em Deus, em ser sério no trabalho. E, para aquilo que o Anderson escolheu, ele levou um pouco disso. Ele levou todo o esmero para o trabalho”, explicou Seu Jorge.

“Para chegar às vitórias, ele teve uma família vigorosa e virtuosa”, acrescentou o ator e músico, que também dá voz a uma das faixas da trilha sonora da obra, interpretando “Ain’t No Sunshine”, tradicional tema de entrada de Spider no UFC.

Para a atriz Larissa Nunes, que interpreta Dayane, mulher de Anderson Silva, a produção também tem o mérito de mostrar como as mulheres que fazem parte da vida do lutador tiveram papel fundamental para seu sucesso, mas sem ficar à sua sombra.

“A gente pôde retratar particularidades de cada mulher nos momentos em que elas foram essenciais para a história dele acontecer”, disse Larissa.

A relação de Dayane e Anderson nem sempre foi harmoniosa, sobretudo pelo fato de o lutador se ausentar da família por longos períodos, durante suas viagens para lutas e compromissos comerciais. Mas a série tenta mostrar que, nos momentos de maior adversidade do lutador, como quando ele sofreu uma grave lesão em 2013 e quando foi pego em exame antidoping, em 2018, ela foi fundamental.

“A série tem identificação com outras mulheres, principalmente mulheres pretas, que tem uma pessoa na família com um sonho que mobiliza todo o mundo para acontecer”, observou a atriz.

FICHA TÉCNICA

Produção Executiva – Anderson Silva, Juan “JC” Acosta, Maria Angela de Jesus, Tereza Gonzalez, Federico Cuervo, Fernando Gastón, Jose “Fidji” Viggiano, Beto Gauss, Francesco Civita, Caito Ortiz, Renata Grynszpan, Lupisa Adegas e Thalize Sayegh

Criação – Marton Olympio

Roteiro – Susan Kalik, Eliana Alves Cruz, Marton Olympio, Nathalia Cruz, Raul Perez e Álvaro Campos, com colaboração de Luiz Guilherme Assis

Direção – Caito Ortiz

Produção – Pródigo Filmes

Música Original – Antonio Pinto

Direção de Arte – Billy Castilho

Direção de Fotografia – Adrian Teijido, ABC

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